Opinião: O Abutre é o melhor vilão do MCU?

Quando foi anunciado que o vilão do tão aguardado “Homem-Aranha: de volta ao lar” seria o Abutre, confesso que torci o nariz. Para quem não acompanha as HQs, Adrian Toomes (O Abutre) não é exatamente o vilão mais poderoso ou importante das histórias do cabeça-de-teia. No início da sessão, me vi ansioso para analisar elementos como o papel de Robert Downey Jr. no filme ou a atuação de Tom Holland como protagonista em seu primeiro filme como o escalador de paredes, por exemplo: quanto à Michael Keaton interpretando o Abutre, isso estava em segundo ou terceiro plano em minha lista de prioridades. Ao fim da sessão, porém, me vi encantado pela construção do personagem e pela atuação de Keaton, e agora sou obrigado a perguntar a mim mesmo e a vocês, leitores do site: seria esse o melhor vilão até agora no Universo Cinematográfico Marvel?

Eu amo o Universo Cinematográfico Marvel (ou MCU, para agilizar a leitura): com raras exceções, os filmes produzidos pela Marvel Studios iniciaram uma nova era no gênero super-heroico e fizeram milhões (talvez bilhões) de pessoas se apaixonarem por super-heróis. Entretanto, um elemento era recorrente nos longas da Marvel e despontava como um dos pontos fracos da companhia: os vilões. Posso destacar dois aspectos da construção dos antagonistas que incomodam não só a mim, mas muitos espectadores. O primeiro é o espelhamento dos poderes e/ou habilidades entre herói e vilão do filme. O segundo é a elevação do nível de poder do antagonista e seu sub-aproveitamento dentro da trama.

Antes de avançar na discussão sobre o Abutre, é importante analisarmos se essa minha análise sobre os defeitos na construção dos vilões Marvel procede. Sobre o espelhamento entre antagonistas e protagonistas, acredito ser possível enxergar esse processo em ao menos sete filmes: Homem de Ferro 1 e 2, Capitão América 1 e 2, Dr. Estranho, Homem-Formiga e O Incrível Hulk. Veja bem, não é proibido escolher um vilão que tenha os mesmos poderes que o herói, só acho que isso pode empobrecer a história. Poderes variados podem tornar as cenas de ação mais diversificadas, por exemplo. Claro que isso não é uma regra: vide a tristeza que foi o vilão de Homem de Ferro 3 cuspindo fogo nos outros…

Trailer teioso

Quando ao segundo ponto, acredito que esse seja o que mais me incomoda em alguns filmes da Marvel Studios. Malekith, em Thor: Mundo Sombrio, por exemplo, tem uma joia do infinito em suas mãos e não leva perigo algum à terra e é destruído com bastões tecnológicos. Dormammu, em Dr. Estranho, é tratado durante todo o longa como a maior ameaça possível à terra, o seu poder é exaltado ao extremo, para no fim ele ser detido em poucos minutos de confronto. Mas o fato mais inexplicável, para mim, é Ego ter sido derrotado em Guardiões da Galáxia 2: o cara manipula a matéria DE TODO O PLANETA e ainda sim consegue perder – graças ao poder da amizade, praticamente. Se você constrói um vilão overpower, ou você faz um herói overpower para vencê-lo – como o Hulk vs o Abominável, por exemplo – ou permite que ele faça um estrago bem grande antes dele perder – já que ele tem que perder porque é o vilão, ao menos deixe-o ter seus minutos de glória, certo?

Agora vamos ao Abutre. De cara, ele foge dessas duas condições citadas acima. Ele definitivamente não é super-poderoso e também não copia os poderes do Homem-Aranha. Mas além disso, a construção do personagem no longa é fantástica. Adrian Toomes não é uma pessoa má pelas definições consensuais do termo. Ele não acordou um belo dia e pensou “hmm, hoje me tornarei um assassino e ladrão”. Quando o filme decide construir o personagem como um homem que viu uma oportunidade de conseguir dinheiro para sua família ao recolher e traficar armas feitas com material alienígena, o Abutre torna-se diferente de quase todos os outros vilões do MCU.

Michaek Keaton deu vida a um complexo e e carismático Abutre. 

Ao contrário de outros antagonistas, o Abutre não deseja destruir o sistema, a realidade, nem mesmo dominar o planeta. Ele apenas quer proteger sua família e tocar o seu negócio (ilegal, claro). Em diversos momentos do filme inclusive o enredo dá espaço para Toomes (brilhantemente interpretado por Michael Keaton) justificar suas ações e essas deixas são bem aproveitadas. O Abutre justifica suas ações como sendo uma forma de driblar o sistema e crescer em meio a uma sociedade que não favorece os desprivilegiados. É claro que alguns desses argumentos entram na categoria “Crítica Social FODA” por seus embasamentos rasos, mas mesmo assim é legal finalmente nos depararmos com um vilão que foge da máxima “hur dur destruir tudo hur dur”.

Outro aspecto da construção do Abutre que enriqueceu o personagem a e narrativa foi seu código de honra relacionado à família. Adrian Toomes é um pai de família já cinquentão – e isso por si só já contrasta de maneira interessante com o jovem Peter Parker – que ama sua esposa e filha e faz tudo por elas. O mais interessante é que esse amor é manifestado de fato no filme, não apenas falado: não vemos apenas declarações de afeto por parte do personagem, mas atitudes e escolhas que correspondem a essa premissa. Isso torna o Abutre um dos vilões mais humanos do MCU, um homem com o qual podemos nos identificar – e, por vezes, até admirar.

Um último elemento que favoreceu e muito a construção do vilão a meu ver foi a maneira pela qual seu traje foi desenhado para o longa. O Abutre tornou-se realmente assustador. Além de ser um monstrengo gigantesco, o seu estilo de luta tornou as sequências de ação empolgantes: cada disparo ou golpe desferido com as afiadas asas parecia violento o suficiente para despedaçar o Homem-Aranha e qualquer um que se pusesse em seu caminho. Além disso, Adrian Toomes foi apresentado no longa como um homem calculista e estrategista, o que passava a impressão de que o vilão era duplamente perigoso: coloque um homem esperto em uma máquina de guerra e temos um vilão à altura do Homem-Aranha (ou, no caso desse filme, até mais forte…).

Imagina sair na rua à noite e se deparar com isso aí voando… tá louco.

Enfim, coloquei alguns elementos aqui para o debate sobre se o Abutre de “Homem-Aranha: de volta ao lar” é o melhor vilão existente, até agora, no MCU. De escolha questionável de antagonista à grande estrela do longa (a meu ver), Michael Keaton interpretou um Adrian Toomes convincente e muito mais legal  do em qualquer história que eu já tenha lido do cabeça-de-teia. E você, achou que o Abutre foi tudo isso mesmo ou estou enganado? Não deixe de dar sua opinião. Abraços!

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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