Crítica: “Estrelas Perdidas” é uma apaixonante história do universo de Star Wars.

O que mais me encanta na franquia Star Wars é a versatilidade com a qual a mesma pode ser explorada em diferentes mídias e por diversas perspectivas. Além do universo expandido comportar filmes, jogos, livros e HQs, dentre essa variedade de produtos midiáticos existem obras com diferentes abordagens e estilos. Os livros que havia lido até agora se encaixavam – em maior ou menor grau – no gênero de aventura espacial, com tiroteios, batalhas espaciais e confrontos marcados entre o bem e mal (confronto esse normalmente representado pela guerra entre Império Intergaláctico e Aliança Rebelde). Entretanto, “Estrelas Perdidas” foge desse padrão e aposta na construção de um romance ambientado no universo de Star Wars. O resultado é apaixonante, empolgante e deixa o leitor com água na boca para acompanhar uma possível continuação das aventuras de Ciena Ree e Thane Kyrell.

A poética capa de “Estrelas Perdidas”

“Estrelas Perdidas” é de autoria da escritora Claudia Gray e foi publicado no Brasil pela editora Seguinte, em 2015. A história gira em torno da relação entre Ciena Ree e Thane Kyrell. Ambos humanos nascidos em Jelucan, um planeta distante e humilde, anexado pelo Império Intergaláctico anos depois de sua proclamação oficial. Ciena era uma menina do vale, a região mais humilde do sistema, criada com valores norteadores como honra, lealdade e uma fé, ainda que tímida, na Força. Thane, por outro lado, nasceu na região rica do planeta, em uma família abastada mas sem amor: seu pai era ambicioso e violento, sua mãe era omissa e o seu irmão mais velho seu grande rival. Apesar das diferenças socioeconômicas, as crianças acabam unidas por seu desejo de serem pilotos do Império. Os jovens ingressam nas academias do Império, tornam-se oficiais, ao mesmo tempo que os primeiros sentimentos além da amizade começam a aflorar entre os dois. Nessa mesma época os eventos relacionados à Estrela da Morte retratados no Episódio IV estão ocorrendo e nesse momento cada um dos protagonistas precisa decidir o seu próprio caminho: lealdade ou traição?

Essa é a grande sacada do livro e o que torna a narrativa fluída e empolgante: a alternância de foco entre questões macro – as batalhas entre o Império Intergaláctico e Aliança Rebelde, as diferenças entre propostas de governo entre o império e república – e as questões micro – a relação entre Ciena e Thane. O leitor testemunha eventos icônicos do canon de Star Wars, como a destruição da estrela da morte e a batalha de Endor, por exemplo, mas pela perspectiva dos protagonistas, o que torna esses episódios de relevância universal quase íntimos simultaneamente. Os protagonistas interpretam os mesmos acontecimentos por perspectivas distintas, embora quase sempre igualmente válidas. Cada combate, invasão ou reviravolta na delicada balança de poder intergaláctica passa a significar também uma mudança drástica na relação entre os dois. É delicioso perceber como que o destino de Thane e Ciena, mesmo sendo uma poeirinha intergaláctica em comparação à vida de bilhões de seres da galáxia, possui uma imensa relevância, pois afeta os entes queridos, suas famílias e claro, um ao outro.

 

“Na tela, fragmentos do planeta Alderaan se dispersaram em mil direções, todos brilhando com o calor da morte daquele mundo. Ciena pensou nos bilhões de pessoas que haviam acabado de morrer diante de seus olhos e teve vontade de chorar, mas então viu o oficial ao seu lado na estação de missão auxiliar. Nash Windrider tinha ficado tão pálido que ela achou que o amigo iria desmaiar. Ele era nativo de Alderaan. Toda a sua família, todos os lugares onde havia estado, seu lar havia acabado de ser destruído diante de seus olhos, por deslealdade”
(Estrelas Perdidas, p. 139)

 

Outro recurso muito bem-vindo a meu ver nesse livro foi distanciar a história de alguns elementos recorrentes em Star Wars, como a Força, os Jedi e Sith, assim como de alguns personagens icônicos. Os protagonistas dos filmes aparecem na trama – Darth Vader chega a ter fala, por exemplo – mas eles são apenas pano de fundo na história. Fala-se de Luke Skywalker, mas o Luke não interfere diretamente na história de Ciena e Thane, por exemplo. A Força está presente na narrativa apenas como um elemento que difere os protagonistas e sobre o qual por vezes é tecido questionamentos: Thane é muito cético com relação a sua existência ao passo que Ciena crê em sua influência. Essa ausência de elementos tão relevantes da franquia, a meu ver, permite à história contada no livro criar sua própria identidade e respirar mesmo em momentos canônicos. Afinal, a destruição de Alderaan pela Estrela da Morte é previsível e imutável, mas poder acompanhar o evento por uma perspectiva alheia á questões como a Força ou a motivação dos lordes Sith é bem interessante.

A minha única grande crítica à obra é a de que em diversos momentos a autora promove uma espécie de “espelhamento” na narrativa que acaba engessando a história. Exemplo: em um capítulo, Ciena começa a perceber que seus sentimentos por Thane começaram a mudar a partir de uma conversa com suas amigas de academia imperial. Logo em seguida, Thane apresenta reflexões quase iguais durante um encontro com os seus colegas de quarto. Essa inversão de perspectiva por vezes é enfadonha porque funciona exatamente como um espelho: as situações são quase as mesmas exibidas e apenas troca-se nomes e locais retratados. Infelizmente esse recurso é recorrente e torna a leitura previsível, pois Thane e Ciena são construídos de maneira tão detalhadas e precisa que já sabemos de antemão o que cada um pensará sobre um determinado evento ocorrido, não há real necessidade de mastigar suas reflexões e juízos de valor para o leitor.

 

“As tarefas de Thane limitavam-se a levar seu caça TIE diariamente para sobrevoar áreas baixas que precisassem de um lembrete do poder e do alcance do Império. No passado, Thane talvez tivesse achado graça do jeito como as pessoas se abaixavam e se dispersavam quando ele voava sobre suas cabeças. Depois de Alderaan, porém… ele não tinha mais vontade de rir do medo das pessoas”
(Estrelas Perdidas, p. 172)

 

“Estrelas Perdidas” é uma ótima adição ao universo expandido de Star Wars e uma mudança bem-vinda para o canon. Em vez das clássicas aventuras espaciais com suas eternas batalhas áereas e confrontos entre rebeldes e Stormtroopers, Claudia Gray presenteia os fãs com um romance apaixonante entre dois jovens que tentam decidir a quem devem oferecer sua lealdade.  Recomendo demais a leitura tanto para fãs antigos da franquia quanto à novos leitores e consumidores de Star Wars.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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