Contos do Luklab: Lutando contra a…

“E a partir desse dia ninguém mais sentiu-se só naquela cidade.”

Na principal avenida da capital de um dos países mais poderosos do mundo, havia um homem parado. Era um rapaz, devia ter entre 20 e 25 anos, de cabelos pretos e olhos verdes. Tinha uma barba bem curta, por fazer. Usava um boné azul escuro, vestia uma calça jeans azul e uma camiseta branca. Não possuía nenhuma carteira em seus bolsos, nenhum documento e nada que indicasse seu nome. Apenas um papelão, colocado à frente dos seus pés, dava alguma informação. A “placa” dizia: “Há 1 dia lutando contra”. E a frase terminava aí.

Ele não estava indeciso sobre qual caminho seguir, nem estava perdido, ou muito menos se encontrava a toa observando as nuvens. Quer dizer, pelo menos essas não pareciam ser as razões de sua inércia. Mas nada em sua expressão impassível, em suas vestes comuns ou em seus pés perfeitamente retos davam pistas de seu objetivo.

Na primeira semana, os cidadãos que passavam por aquela rua observavam o homem com estranheza. Em seguida, seguiam seu caminho. A cada dia que se passava, a placa era magicamente atualizada. “Há 2 dias”, “Há 5 dias”, etc. O fato era que, de segunda a segunda, de dia até de madrugada, ele permanecia lá, parado.

Ao final do primeiro mês, as pessoas já dedicavam mais tempo à figura destoante em meio à multidão. Alguns tentavam assustá-lo. Outros o beliscavam, só para ver se ele manifestava dor. Havia até os que tirassem foto com ele, fazendo caras e bocas, arrancando gargalhadas dos que viam a cena. Aquele rapaz inerte começou a fazer sucesso.

Das ruas, ele foi para a Internet. Usuários anônimos criaram uma página em uma rede social só para ele, e o apelidaram de “A estátua sem nome”. Na página, diversas frases engraçadas eram atribuídas ao sujeito. Seu “eu” virtual ganhou milhares, depois milhões de amigos.

lutando contra 1

Logo após seu sucesso virtual, uma modesta empresa que se chamava de “Fábrica de Artistas de Rua” manifestou-se como responsável pela aparição do homem. O diretor da companhia afirmou que o homem era apenas um de seus funcionários mais eficientes. A empresa começou a ganhar fama em cima dele, mas assim que fãs começaram a pedir a apresentação de provas do que estava sendo dito, rapidamente a tramoia foi revelada. E o mistério continuou.

De fenômeno da rede, ele foi parar na televisão. Programas de entretenimento começaram a fazer reportagens sobre a figura que, agora, estava há 57 dias lutando contra…contra o quê mesmo? Não demorou muito para que surgissem os documentários sobre a vida secreta da estátua mais famosa do país. Alguns discutiam sua impressionante capacidade de ficar parado, mesmo durante todo o contato com o público, as diferentes condições climáticas, etc. Outros estudiosos preferiam debater suas motivações. Por que aquele ser humano estava ali, com que intuito ele sacrificava seu corpo e sua mente todo dia?

Os religiosos mais exaltados defendiam que ele era um enviado de Deus para mostrar ao ser humano como ele estava perdido, parado e condenado ao inferno. Os ativistas da natureza diziam que ele protestava contra a incapacidade da humanidade de parar a destruição do planeta. Os sociólogos mais revoltados diziam que aquilo era um desabafo contra a indiferença e competição produzida pelo capitalismo. Os mais velhos simplesmente julgavam aquele rapaz um perturbado.

Dia após dia, aquela estranha presença influenciava a vida de todos. Bandidos não tentavam mais assaltar os comércios da redondeza, já que tinham medo que ele subitamente resolvesse se mexer e chamasse a polícia, ou até mesmo que ele fosse um policial disfarçado. Os moradores de rua conversavam com o ser inanimado como se fosse um companheiro de asfalto. Havia até quem desse um “banho” nele, para que o homem não ficasse cheirando mal.

De um simples homem parado, ele virou uma celebridade. O mundo já o conhecia. Turistas visitavam o país apenas para vê-lo. As lendas urbanas sobre ele multiplicavam-se, apontando-o como terrorista, vampiro, santo e até alucinação coletiva. Após 259 dias, ele continuava na luta.

No dia 260, tudo mudou. A estátua finalmente se mexeu. O que antes parecia de pedra, deu um passo para frente. E outro passo, e mais um. Seu corpo estava quase enferrujado. Sua barba e seus cabelos, enormes. Seu rosto assemelhava-se ao de um homem 20 anos mais velho, devido à insolação constante. Mesmo assim, a vida que ele exibia agora era tão imponente que todos no centro da cidade pararam para olhá-lo. Os pedestres se amontoaram a sua volta. O trânsito não se mexia. As redes sociais só falavam disso. O planeta esperava ansiosamente pelos seus próximos movimentos.

– Boa tarde! – disse o homem, com uma voz bastante fraca.

O silêncio era total: todos queriam ouvir suas palavras.

– Hoje eu completei 260 dias de luta. Durante esse tempo, vocês me observaram, me estudaram, riram comigo, conversaram comigo, choraram comigo, me ignoraram, me perguntaram coisas, me xingaram, discutiram minha vida. Durante todo esse período, vocês foram meus amigos ou meus inimigos. Durante esses 260 dias, lutamos juntos contra a solidão. Nós vencemos.

Dito isso, ele caiu no chão. Vários médicos presentes na multidão correram para socorrê-lo e foram unânimes ao declarar o óbito. A população entrou em choque, as redes sociais caíram devido às milhões de publicações, e os meios de comunicação fizeram uma cobertura completa sobre a morte de um homem completamente desconhecido. Mesmo depois de muita investigação, nem imprensa nem polícia conseguiram descobrir quem era o sujeito. E assim a vida seguiu.

Mas não da mesma forma. Os cidadãos sentiam falta do homem parado. Eles precisavam vê-lo no caminho para o trabalho. Muitos queriam conversar mais uma vez com ele. Todos sentiam a necessidade de serem vigiados pelo seu olhar frio e constante. A saudade da população foi tanta, mas tanta, que o governo da cidade se viu obrigado a construir uma estátua de pedra e colocá-la exatamente no lugar onde a “Estátua sem nome” ficava.

E a partir desse dia ninguém mais sentiu-se só naquela cidade.

Conto originalmente publicado no Jornal “O Casarão” – http://jornalocasarao.com/2013/04/20/lutandocontraa

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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