Contos do Luklab: Fulano e Ciclano

Desde que se entendia por gente, o homem chamado “Fulano” odiava uma pessoa: o “Ciclano”.

Os dois foram colegas de classe durante todo o colégio, desde o fundamental até o ensino médio. Fulano sempre detestou estar na presença de Ciclano. Ciclano era o tipo de pessoa que roubava a atenção: chegava dominando a conversa, fazia todos rirem, ditava o ritmo da prosa. Enquanto isso Fulano limitava-se a sorrir os sorrisos mais falsos de sua vida. Ciclano era amado por todos ao seu redor. Já Fulano era, sei lá, apenas querido, talvez? Não era o suficiente para ele, bem longe disso.

Durante o recreio, independente se a diversão fosse futebol, queimada ou baralho, Fulano queria jogar sempre contra Ciclano, só para poder derrotá-lo. Fulano só considerava uma ideia boa se ela não tivesse saído da boca de Ciclano. E se por acaso ele não tivesse dado a ideia, mas por ventura começasse a apoiá-la, rapidamente o primeiro mudava de opinião.

Alguns consideravam essas atitudes de Fulano resultado de pura inveja. Mas inveja pressupõe que a pessoa queira se transformar na outra, certo? De forma alguma Fulano queria virar Ciclano. Só a possibilidade de se colocar no lugar do outro já o irritava. O que Fulano sentia não era inveja, e sim ódio.

Mas porque logo ódio, algo tão profundo, pesado? Oras, sei lá porque! Porque alguém ama outra pessoa? O que leva alguém a tratar o outro com indiferença? Essas perguntas não foram feitas pra ser respondidas, assim como sentimentos não existem para serem interpretados racionalmente.

Por um determinado período da vida, os dois se separaram. Fulano se enveredou pelas ciências exatas, enquanto Ciclano foi para as humanas. Durante esse período, Fulano continuou de olho em seu arqui-inimigo, observando sua vida através das redes sociais, sempre desaprovando tudo o que ele falava, fazia, sonhava, etc. Mas o destino é curioso, brincalhão, e preparou o terreno para que os dois se reencontrassem.

Alguns anos mais tarde, Fulano já se encontrava bem empregado em uma famosa empresa de engenharia. Ele adorava aquele lugar. As pessoas eram divertidas, o trabalho era estimulante e até o café era delicioso. Mas em uma terça feira chuvosa foi anunciada a contratação de Ciclano, ocupando a cadeira de novo chefe do setor de Recursos Humanos.

A partir desse dia Fulano começou a detestar seus companheiros de trabalho. Suas tarefas agora pareciam maçantes e improdutivas. Até o café adquiriu gosto de água suja. Mas Ciclano, o chefe do RH, querido por todos, devia estar adorando seu novo emprego. Nada mais natural, afinal todos puxavam seu saco com medo de serem demitidos (Fulano procurava se convencer que essa era a razão para o seu sucesso entre os funcionários). Afinal, para que as empresas precisavam de Recursos Humanos? Cargo inútil e mais inútil ainda era gastar dinheiro contratando um sujeito como esse Ciclano.

Em uma sexta feira de sol e céu azul, chegou a notícia: Ciclano fora atropelado por um carro na rua em frente a empresa e agora encontrava-se em estado grave no hospital! Naquela noite Fulano não conseguiu dormir. Durante anos ele odiou o sujeito, mas nunca torceu para ele se machucar ou morrer, não é? Não é?

– Não é? – Fulano se perguntava enquanto olhava para o teto escuro do seu quarto, durante a madrugada insone. De repente ele percebeu que, talvez lá no fundo, gostasse da ideia de Ciclano estar morto. Sim, ele até sorriu ao pensar nisso. E logo depois se assustou, pensando na monstruosidade do que pensava. Imediatamente começou a rezar e implorou a Deus que o perdoasse por seus pensamentos impuros. Depois pediu para que o todo-poderoso salvasse seu companheiro de trabalho.

No dia seguinte, Fulano acordara esgotado. Mal conseguia prestar atenção em suas tarefas. De 5 em 5 minutos ele perguntava a alguém do trabalho qual era o estado de Ciclano, e só recebia a mesma notícia ruim: seu estado permanecia inalterado. Fulano tentava se convencer de que aquilo não tinha sido culpa dele, de que ele não havia provocado o acidente de forma inconsciente.  Ao voltar pra casa, sentado no ônibus, ficou aterrorizado ao perceber com que frequência as pessoas faziam piadas com uma tema tão mórbido como, bom, a morte. A própria expressão “morrer de tanto rir” lhe dava calafrios no momento.

Após outra noite em claro, Fulano decidiu que tinha de tirar esse peso das suas costas. Ele faltou ao trabalho e foi para o hospital onde Ciclano encontrava-se internado. Após alguma burocracia conseguiu chegar ao quarto do acidentado. O homem arrependido sentou-se ao lado da cama e começou a falar:

– Desculpa, eu não queria que você morresse. Quer dizer, você não morreu. E eu nem mesmo te atropelei. Mas eu te odeio tanto que, sei lá, acho que por isso você está aí agora, entendeu?

Ciclano não respondia. Óbvio: estava em coma.

– Olha, você sempre foi um saco. Sério, insuportável. Eu continuo te odiando, mas sei lá, não quero que você morra, beleza? Vou me sentir mal se isso acontecer. Melhoras.

Fulano foi embora. No mesmo dia um milagre ocorreu: Ciclano acordou e começou a perguntar pelo acidente, pelo seu estado de saúde, e principalmente por quem havia visitado-o. Após uma lista de familiares, amigos, conhecidos e colegas de trabalho, ele esbarrou no nome de Fulano.

– Enfermeira, você disse que Fulano veio me visitar?

– Sim, algum problema? Não esperava a visita dele? – perguntou a enfermeira.

– Não…é que eu não faço menor ideia de quem seja esse cara.

Semanas depois Ciclano saiu do hospital. Ele se recuperou milagrosamente bem do acidente: apenas algumas cicatrizes e hematomas indicavam do trauma que sofrera recentemente. A empresa fez uma festa de boas vindas para ele, todos comemoraram o seu retorno durante dias.  Com o tempo tudo voltou ao normal. Fulano agora estava aliviado, afinal, Deus atendera suas preces. Ambos estavam salvos.

Na semana seguinte após o triunfante retorno, Fulano observava Ciclano trabalhando. Ele exibia seu costumeiro sorriso, recebia cumprimentos de seus colegas, contava piadas, fazia todos rirem… Em resumo: era novamente aquele homem feliz. Ao contemplar sua felicidade, Fulano não conseguiu deixar de pensar: “bem que ele poderia ter morrido, hein?”.

E sorriu.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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