Contos do Luklab #5 : Pipoca

“Amanteigada ou comum?”

O relógio do celular marcava 23:01 no momento em que o rapaz fechara o largo portão do seu prédio atrás de si. A chuva, que caíra durante todo o dia de maneira teimosa, ameaçava prosseguir pela noite toda. Não era exatamente uma tempestade: aqueles pingos eram capazes de destruir penteados e nada mais que isso. Mas o tempo era ruim o suficiente para afastar as pessoas das ruas, convidando-as gentilmente a ficarem debaixo das suas cobertas assistindo seus filmes ou séries favoritas.

Mas esse rapaz essa era uma exceção. Ele estava disposto a encarar as ruas sombrias, os ventos cortantes e a chuva intermitente. Tudo isso porque ele queria comer pipoca.

Por algum erro bobo – mas agora terrível – ele se esquecera de comprar milho em sua última ida ao supermercado. Graças à Lei de Murphy, ele só se deu conta do esquecimento nessa quase madrugada de sábado, quando pensou em fazer uma pequena sessão de cinema. Talvez o mais racional a se pensar nessa conjuntura seria “bom, fazer o que, comerei outra coisa” ou até “beleza, vou jogar videogame em vez de assistir um filme”. Entretanto, a noite já estava tão depressiva… O rapaz bem que tentou, mas não conseguiu marcar nenhum compromisso interessante para aquele sábado. Nem ao menos haveria uma companhia interessante em seu minúsculo apartamento solitário essa noite.  Então pelo menos uma pipoca ele merecia, não é?

Era essa estranha lógica que o fazia percorrer agora as desérticas ruas de sua pequena cidade em busca de um milho de pipoca – e talvez um pouco de amor-próprio, caso vendessem isso também. Ele saíra com a roupa que usava em casa, um short velho qualquer, chinelo e uma camiseta azul-marinho ligeiramente rasgada no ombro. Devido ao horário, sua única esperança de estabelecimento comercial aberto eram as lojas de conveniência, refúgio de motoristas, adolescentes bêbados e trabalhadores noturnos. E também lar dos mais variados produtos superfaturados. Após atravessar cinco quadras e desviar de 28 poças de lama, encontrou um posto de gasolina. Imediatamente o rapaz se dirigiu para a “conveniente” loja.

Em uma rápida olhada pelas prateleiras percebeu que o sábado à noite lhe reservava mais um contratempo. Não havia milho de pipoca. Mas pelo menos havia pipoca de microondas, aquelas que, apesar de mais práticas, eram menos gostosas do que as de panela (na visão do rapaz, claro). O grande problema é que só havia pipocas amanteigadas. “Porque meu Deus, porque as pessoas insistem em pipocas amanteigadas?”, o rapaz se perguntava desesperadamente. Ele não gostava de pipocas com manteiga, nem com leite condensado, nem com queijo, nem com qualquer outro tipo de tempero ou condimento possível. Ele era um homem metódico e simplório que gostava de pipocas exatamente do jeito que elas vêm ao mundo. Isso era uma futilidade total, claro, mas se não podia controlar coisas mais importantes – e inconvenientes – de sua vida como família, trabalho, trânsito e até mesmo essa irritante chuva, pelo menos a sua alimentação ele se reservava o direito de dar a palavra final.

O rapaz exigente foi até o balcão da loja de conveniência e dirigiu-se à sonolenta atendente:

– Boa noite. Gostaria de saber se vocês tem pipoca de microondas sabor natural – ele foi direto ao ponto.

– Sim, está ali naquela prateleira – ela apontou para o local exato onde não havia as pipocas que ele queria.

– Não, ali só tem as amanteigadas. Tem certeza que você não tem isso no estoque?

– Eu não faço a menor ideia, senhor – a atendente lhe respondeu, demonstrando mais sinceridade do que propriamente irritação.

– A senhorita se incomoda de procurar no estoque para mim?

– São quase 11 e meia da noite, porque você quer tanto assim essa pipoca? Pegue a outra – sugeriu a atônita atendente.

– Eu sei, são quase meia noite de um sábado, mas tudo que conseguirei de bom nessa noite será essa pipoca. Por favor não me tire essa única felicidade.

O rapaz nunca saberia se foi por medo dele ou pena, mas o fato é que ela realmente decidiu levantar da cadeira e ir procurar no fundo da loja pela maldita pipoca. Agora que não havia ninguém com quem conversar dentro do estabelecimento e fazia um calor danado ali dentro – o ar condicionado devia estar com problema – decidiu esperar pela conclusão da busca pela pipoca perdida no lado de fora.

Ele sentou-se na entrada da loja, debaixo da marquise. Protegido da chuva e menos molhado do que anteriormente, agora curtia a leve brisa gelada. Logo que se acomodou percebeu que não estava sozinho. Perto dele, embora não exatamente do lado, havia uma garota. Já que estava à toa, o rapaz decidiu dedicar alguns minutos de seu tempo a observá-la.

Normalmente, quando conhecemos uma pessoa nova, existe um traço específico que acaba sobrepujando os demais. Às vezes é um atributo físico; em outros casos é um trejeito marcante; pode ser até um aspecto da personalidade do novo conhecido que acaba se destacando e dita nossa percepção sobre a pessoa. Essa garota não era uma exceção a essa regra, mesmo que praticamente tudo nela fosse interessante. Seu vestido preto de festa, elegantemente simples, caía bem em seu corpo magro e delicado. Sua pele morena combinava bem com as gotas de chuva que ainda lhe percorriam. Seus cabelos cor de ébano, cortados na altura do pescoço, exibiam-se simpaticamente despenteados, graças à ação da chuva anterior, provavelmente. Seus lábios eram bonitos, carnudos, realçados com um batom vermelho-sangue que ameaçava roubar a cor do resto do mundo. Mas além de tudo isso, de toda essa confusa beleza arrebatadora, o que realmente o impressionou e tornou a garota diferente de todas as outras que já vira foram seus olhos. Olhos grandes, verdes, olhos que ameaçavam perfurar quem quer que entrasse em seu campo de visão. Eram olhos que pareciam vislumbrar passado, presente e futuro simultaneamente. A garota, encolhida, apoiava sua cabeça nos braços e joelhos, enquanto encarava fixamente alguma coisa. E o rapaz se descobriu com uma vontade desesperada de descobrir o que ela via que ele era incapaz.

– Oi, tudo bem com você? – ele iniciou o contato sem nem mesmo pensar o que estava fazendo.

A garota sobressaltou-se com a súbita fala do rapaz que ela nem mesmo percebera que estava por perto. Virou a cabeça em direção a ele e por alguns poucos segundos seus imponentes olhos o fitaram. Nesses exatos segundos o coração do rapaz também bateu um pouco mais forte, por coincidência ou não.

– Tudo sim. Obrigada – ela respondeu, em um tom semelhante a uma máquina em piloto automático. Em seguida voltou a encarar o desconhecido.

O rapaz não desistiu de completar seu objetivo de compreender que garota era aquela. Ele sentou-se um pouco mais perto dela, mas ainda o suficientemente longe para não assustá-la.

– De qual tipo de pipoca você gosta mais: amanteigada ou comum? – ele reiniciou a conversa pelo único assunto que julgou pertinente. Obviamente a garota não tinha ideia do porque ele estava lhe perguntando aquilo, o que ela demonstrou claro pela sua expressão de “que merda você ta falando, cara?”:

– Sei lá…amanteigada, acho – ela respondeu, ainda observando o nada.

– Poxa, é sério? Cara, pipoca comum é ótima, porque as pessoas misturam com outras coisas? Não gosto das amanteigadas, não mesmo. A pipoca comum é mais leve e faz menos mal à saúde…eu acho.

– Você é algum tipo de idiota? – ela lhe perguntou de maneira tão espontânea e aparentemente sincera que nem mesmo parecia um insulto.

– Cara, eu acho que devo ser – ele também optou pela sinceridade ao respondê-la – porque eu saí da minha casa a essa hora da noite só para comprar pipoca. Meio depressivo isso, não acha?

– Não é mais depressivo do que terminar seu namoro pelo whatsapp. E ser largada na chuva. Na mesma noite.

Silêncio constrangedor.

– Acredito que você esteja falando de si mesma, não é – o rapaz fez a pergunta retórica mais imbecil possível, respondida apenas com um olhar da garota que parecia querer dizer “eu juro que se você der mais uma bola fora eu te mato”.

– Meu avô costumava me dizer uma coisa. Eu demorei a entendê-la, mas hoje vejo que faz todo o sentido – ele começava a falar quando foi interrompido pela garota:

– Se você for começar uma velha história de família, por favor, que ela tenha algo a ver com esse momento e possa ser contada em menos de 30 segundos.

Por sua conta em risco, o rapaz decidiu atender às condições pré-estabelecidas e resumiu todos os ensinamentos de seu antepassado:

– Segundo meu avô havia três coisas que realmente o entristeciam no mundo: a guerra, a fome e o choro de uma mulher. A guerra e a fome eram coisas que a humanidade deveria se unir para resolver. Mas a terceira delas, a tristeza de uma garota, estava dentro do alcance de uma pessoa. Então ele sempre terminava a história me dizendo: “sempre que você vir uma garota chorando, tente consertar seja lá o que estiver errado”.

– E agora você galantemente tentará me fazer esquecer dos problemas da minha vida, só sendo simpático, gentil e carinhoso comigo, é isso? – ela agora já o olhava diretamente, esquecendo momentamente do que quer que fosse que observava anteriormente.

– Não exatamente. Quer dizer, acho que provavelmente não conseguirei fazê-la esquecer dos seus problemas assim, de bate e pronto, mas pelo menos podemos conversar sobre eles. Seu namorado terminou com você pelo whatsapp, é? Que droga, cara. Porque o idiota fez isso?

– Porque ele arranjou outra mulher, simples. Ele me mandou mensagem falando que está apaixonado por essa outra e que acha melhor nós terminarmos. E como você sabe que ele é um idiota? Nem o conhece, nem mesmo sabe o nome dele. Você deveria conhecer uma pessoa primeiro antes de chamá-la de idiota.

– Até segunda ordem ele é um idiota para mim, e pronto. Você também não me conhece e já presumiu que eu fosse um idiota – ele a relembrou da sua pergunta, lá no início desse esquisito encontro.

– Na verdade eu lhe perguntei se você era, o que tecnicamente é diferente de tirar conclusões – ela se defendeu.

– É essa diferença “técnica” que torna uma pipoca amanteigada muito inferior a uma pipoca comum.

A garota esboçou um meio sorriso, o que parecia ser o mais próximo de alegria que ela já havia chegado naquela noite. O silêncio retornou, mas dessa vez não de maneira constrangedora, mas como uma espécie de impasse sobre qual dos dois deveria retomar a conversa. Por fim, a garota falou:

– Olha, desculpa se fui ignorante com você, mas é que realmente tem sido uma noite difícil. Meu namorado me largou, como eu falei, justo hoje que íamos para um aniversário de uma amiga. Aí eu fiquei aqui, sozinha, na chuva. Estou esperando meu pai passar pra me dar carona para casa.

– Uma noite fácil para as inimigas, não é? – o rapa sorria para ela. Ele também se aproximou um pouco mais dela, agora que a conversa fluía com mais naturalidade.

– Tipo isso – ela concordou após uma breve risada. Seus olhos agora já não pareciam tão preocupados em procurar por aquilo que tão fixamente encarava até pouco tempo atrás.

– Eu não conheço você. E sim, sou meio idiota. Mas sou aquele idiota que viu uma garota misteriosa sentada num posto de gasolina e pensou “cara, isso tá errado”. E sabe porque achei que estava errado? Porque o seu olhar, tão forte, parecia perdido. E isso me parece um desperdício tão grande.

Agora o coração do rapaz ameaçava pular do seu peito, tal qual um milho de pipoca explodindo na panela.

– Essa deve ter sido a pior cantada que eu já ouvi na minha vida – ela foi curta e grossa em sua observação.

Ele gargalhou. Definitivamente não esperava tal resposta e mesmo que não tenha sido exatamente positiva ou carinhosa, de alguma forma estranha o alegrou. A noite ficava mais leve a cada minuto:

– Não foi uma cantada, exatamente. Mas se fosse, realmente teria sido horrível. O que quero dizer, se é que estou falando alguma coisa com sentido essa noite, é que você não parece estar no lugar certo. Você me parece merecer mais do que uma noite fria em um posto de gasolina quase abandonado, enxugando as lágrimas de um relacionamento acabado. Isso é coisa dos solteiros ridículos que não comem pipoca amanteigada.

Dessa vez ela não respondeu imediatamente. A garota sorriu, desviou o olhar do rapaz, passou a mão pelo seu cabelo bagunçado, e só então o respondeu:

– Obrigada. Digo, por estar perdendo tempo comigo, se preocupando e tudo mais. E também acho que não deveria estar aqui sofrendo, mas a vida tem dessas coisas, eu acho, então aqui estamos. De qualquer forma, obrigada por me alegrar um pouco.

– Relaxa, foi um prazer. Como eu disse, é uma tradição da família tentar consolar mulheres tristes.

A conversa dos dois jovens foi interrompida por uma buzina. Um carro azul acabara de entrar no posto de gasolina e agora piscava os faróis.

– Ah, meu pai chegou. Então, eu já vou indo. De novo, muito obrigada, mesmo, por…bom, tudo – ela levantou-se, ajeitou o vestido amassado e o agradeceu timidamente. Ela parecia não saber exatamente o que fazer nesse momento, se já devia ir, se devia falar mais alguma coisa, quando ele solucionou o impasse.

O rapaz a abraçou. Foi um abraço bom, sem malícia ou segundas intenções, uma pura manifestação de carinho, zelo e lealdade gratuita. Pela primeira vez na noite a garota sentiu-se querida, confortável, aquecida… A chuva havia diminuído, mas a torrente de lágrimas voltara a cair. Mas agora eram gotas de agradecimento.

– Tenha um bom resto de noite, tá? Relaxa que amanhã vai ser um dia melhor. Boa noite pra você – ele falou no seu ouvido, enquanto ainda estavam abraçados, durante esse singelo momento que durou alguns poucos segundos, mas também uma eternidade. Quando eles se encararam novamente, ele sentia a mesma potência no olhar da garota, a mesma força da natureza, mas agora ela parecia mais otimista. Seja lá o que fosse que ela visse, parecia bom. E isso era suficiente para ele.

A garota entrou no carro, deu “tchau” para ele pela janela e logo depois sumiu por trás do vidro. Dentro do carro, seu pai lhe perguntou:

– Seus olhos estão vermelhos. Você esteve chorando? Aconteceu alguma coisa ruim essa noite?

– Um pouco… É, aconteceu, mas já passou.

O pai decidiu não perguntar mais nada. Se ela quisesse falar sobre sua noite, falaria no tempo certo. Sem pressão.

E ela realmente falou novamente. Mas sua pergunta foi bem diferente de qualquer coisa que ele estivesse esperando:

– Nós temos pipoca em casa?

– O que? Eu sei lá…deve ter no armário.

– Amanteigada ou comum?

– Não faço a menor ideia, filha – respondeu o pai, confuso sobre o que aquilo tudo significava.

– Então dá meia volta. Vamos voltar pro posto.

Antes que seu pai pudesse lhe perguntar o porque de tudo aquilo, ela falou, decidida:

– Não saio de lá sem essa pipoca.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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