Crítica: “TWD – Declínio” é uma grande história sobre a Fé.

Qual o espaço que a religião ocupa na sua vida? Deus (ou qualquer que seja a divindade em que você acredita) é a razão pela qual você levanta da cama todos os dias? Ou é meramente um ídolo ao qual você recorre quando todas as outras opções se esgotam? Você sabe até onde a sua fé seria capaz de levá-lo? “The Walking Dead – Declínio” é o quinto livro da franquia (lembrando que a “A Queda do Governador” foi publicado em duas partes). Novamente escrito pelo brilhante Jay Bonansinga e publicado no Brasil em 2015 pela Galera Record, “Declínio” continua contando a saga da população sobrevivente de Woodbury, liderados pela heroína-por-acaso Lilly Caul. Após a investida mal sucedida à prisão na qual Rick e cia viviam, os poucos moradores devem se virar para resistir ao apocalipse zumbi com os poucos recursos que lhe restam.

twdEu já disse que sou muito fã das capas dos livros de TWD? Pronto, agora falei

Tratando-se de um livro de The Walking Dead, então obviamente o enredo se foca na questão da sobrevivência. Mas apesar de Woodbury já ser uma locação conhecida pros fãs, é a primeira vez que vemos a cidade sem a presença do Governador. E já adianto que a coisa não é bonita. Sim, a democracia voltou, ninguém é obrigado a se degladiar nas arenas, coisa e tal, mas de resto…O combustível está acabando, a comida também, e não há pessoas suficientes para proteger a cidade de uma super horda de zumbis esfomeados que se avizinha. Esses e outros são os desafios que Lilly, a nova “governadora”, deve resolver.

“Ao contrário do que diz o velho ditado, o tempo não cura todas as feridas. Com algumas, não faz diferença quanto tempo passe, ou quanto se beba, ou com quantos terapeutas se consulte. Geleiras poderiam partir continentes e a dor continuaria viva em algum lugar nas câmaras secretas do coração. Para os sortudos, uma cicatriz se forma, e a passagem do tempo acumula mais e mais cicatrizes até que a dor se torne simplesmente parte da constituição da pessoa, parte de que ele ou ela é – o sulco da madeira”. 

Mas há um elemento novo, por assim dizer, no plot desse livro: a . Se o tema aparecia pipocava aqui e ali nos títulos anteriores, de maneira discreta, dessa vez temos essa questão é o foco da história. Afinal: ter Deus em seu coração durante o apocalipse é a receita para se manter vivo ou o estopim para a resignação completa? Cada personagem, de maneira direta ou indireta, terá de responder a essa pergunta. E o leitor, por sua conta em risco, também pode tentar encontrar a solução para essa questão. Só cuidado para não perder a sanidade durante esse processo!

“Sei que você não é crente, mas isso ainda não muda o fato de que o Armagedom é exatamente isso. Olhe ao redor, abra os olhos. Este é o fim dos Tempos, Lilly, e mais do que nunca o que uma pessoa faz importa, porque Deus está observando. Entende?
Ele está nos observando com ainda mais atenção do que antes”.
(Calvin Dupree)

Senti que nesse livro o autor teve mais liberdade para criar. Pela primeira vez vemos alternativas no combate à hordas de zumbis. Também percebemos que os sobreviventes estão se adaptando rapidamente ao novo mundo, procurando alternativas para à escassez de recursos naturais e combustível. E a principal sacada do livro é a introdução de uma nova dinâmica: túneis subterrâneos. Durante o decorrer da obra é descoberta uma conexão entre Woodbury e alguns túneis, construídos ainda na época da escravidão estadunidense, e um leque de possibilidades (algumas delas trágicas) se abre com a inserção desse elemento na trama.

“Declínio” é o melhor livro de The Walking Dead desde “A Ascensão do Governador”. Com novos dilemas e reflexões ímpares sobre fé e religião aliados à costumeira habilidade de Jay Bonansinga de colocar personagens carismáticos e intrigantes no meio de situações de vida e morte, o livro te prende da primeira à última página. Já digo isso há algum tempo, mas não custa reafirmar: The Walking Dead vai muito além da série da AMC. Esse livro, assim como o game, exploram o universo de Robert Kirkman de maneira mais intensa, grotesca e cruel do que o seriado. Caso ainda não conheça o trabalho do autor nos outros livros, deixou o link de algumas reviews minhas sobre as outras obras (ainda está faltando a do “O caminho para Woodbury”, eu sei, peço desculpas por isso). No mais: compre, leia e sofra com mais esse ótimo livro de The Walking Dead!

Review de “A Ascensão do Governador”: http://drophour.com.br/2014/07/25/review-the-walking-dead-a-ascensao-do-governador/

Review de “A Queda do Governador Parte 1 E Parte 2”, numa tacada só: http://drophour.com.br/2014/11/03/review-a-queda-do-governador/

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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