Crítica: “Sonho Febril” é Game of Thrones com vampiros.

George Martin é um demônio. Se eu já desconfiava disso, finalmente me dei por certo do fato ao terminar de ler “Sonho Febril“. Mas ele não é um demônio no sentido religioso, mítico ou nada do gênero. Martin é um verdadeiro monstro desalmado movido por uma brutalidade elegante e febril ao escrever suas obras. Suas maiores vítimas somos nós, leitores, obrigados a devorar suas sublimes criações, sofrendo durante todo o processo. Ao final do banquete que o autor nos obriga a saborear, percebemos que mal acabamos e já estamos prontos para o próximo massacre literário. E ficamos ansiosos por ele.

“Sonho Febril” foi publicado em 1982 mas – adivinhem – só chegou ao Brasil oficialmente em agosto de 2015 pelas mãos da Editora Leya. Nada do universo medieval das Crônicas de Gelo e Fogo, nem tampouco as imensidões do espaço e a perdição de um planeta moribundo de “A Morte da Luz“: dessa vez o cenário são os arredores de Nova Orleans, região pluvial dos Estados Unidos. A história se passa na década de 1850, pouco antes da famosa Guerra de Secessão, conflito que terminou com a derrota dos estados confederados do Sul e a abolição definitiva da escravidão no país. Na obra encontramos um protagonista bem menos interessado nessas questões nacionais e muito mais focado no Rio e em barcos. Abner Marsh, um capitão de uma companhia de apenas um barco a vapor, endividado, fracassado e sem esperanças, recebe uma proposta tentadora de um homem muito rico chamado Joshua York. Os termos: Joshua banca a construção do navio mais lindo e rápido que já existiu naquela região, uma embarcação digna dos dois sócios comandarem como capitães. Em troca, Joshua pede apenas que seu companheiro faça poucas perguntas acerca de sua história ou costumes.

edf8FgxJoshua York, o sócio misterioso, estrela a elegante capa de “Sonho Febril”

Marsh obviamente aceita, pois do contrário não teríamos livro. O problema é que os hábitos de Joshua são muito, mas muito peculiares. Ele dorme de dia e sai à noite. Sua pele é muito branca, assim como seu cabelo, seus olhos são firmes e enxergam muito bem à noite, ele bebe um líquido rubro de gosto ruim… Hábitos parecidos com os de outro nobre sinistro de Nova Orleans, chamado Damon Julian. Damon e seu fiel guarda-costas Sour Billy promovem verdadeiros shows de horrores em sua fazenda particular, com direito à gritos de jovens donzelas e muito, muito sangue.

Você já deve ter ligado os pontos, não é? Sim, estamos falando de vampiros aqui.

“Naquelas névoas dos olhos de York, Abner Marsh viu coisas, vislumbres fugazes que logo se perdiam. Havia uma inteligência fria espreitando por aquelas névoas. Mas havia também uma fera, escura e assustadora, acorrentada e raivosa, irada em meio à neblina. Gargalhada, solidão, paixão cruel. York tinha tudo isso em seus olhos.”
(p.9) 

Quando soube que Martin havia escrito uma obra sobre vampiros, me perguntei se sairia algo de novo dali. Boa parte da caracterização do autor já é velha conhecida de qualquer que tenha um mínimo de leitura sobre o gênero. Os hábitos noturnos, a sede por sangue, os sentidos ampliados… Mas existe uma brutalidade ali que só George Martin consegue trazer a tona sem tornar seus personagens simples psicopatas desalmados. As motivações por trás de cada ação, de cada morte, de cada escolha – sobrenatural ou não – são tão bem desenvolvidas, argumentadas, que por vezes você se pega pensando “ok, esse cara é o heroi ou é o vilão?”. Em um livro com tantos personagens vampirescos e humanos interagindo, por vezes é difícil escolher um lado para torcer.

Por mais que o início do livro seja lento e os capítulos com vampiros tendam a ser muito melhores do que os sem, Martin nos presenteia com uma reta final que torna impossível parar de ler. Tudo se desenrola de uma maneira que você não espera. As surpresas se esgueiram entre as páginas e lembram aquelas reviravoltas maravilhosas de ASOIAF. E em muitos capítulos o leitor se sente impotente. Impotente em adivinhar o desfecho, o próximo capítulo, qual a próxima sacada desse gênio.

– Tenho uma impressão ruim, Abner. Essa cidade, o calor, as cores vivas, os cheiros, os escravos, essa New Orleans é muito cheia de vida, mas acho que por dentro está podre e doente (…) Você vê todos aqueles pátios lindos, cada um com sua bela fonte no meio. E depois vê os carroceiros vendendo água do rio em barris, então conclui que a água da fonte não é para beber. Você saboreia os ricos molhos e temperos da comida, e então descobre que os temperos têm a intenção de disfarçar o fato de que a comida está estragando. (…) Amo a beleza, mas às vezes uma coisa bonita de se olhar esconde algo desprezível e mau por dentro”.
(Joshua York, p.129) 

Falando em impotência, talvez essa seja a principal dicotomia abordada no livro: poder e submissão. Claro que os binômios luz-trevas, vida-morte, noite-dia estão ali, mas o que realmente torna a obra diferente é a abordagem refinada de Martin acerca do que significa estar no poder ou o contrário, ser submisso a alguém. O que é preciso para tornar-se um líder, um mestre, um Deus para sua própria espécie? Dinheiro, astúcia, um sonho febril…ou apenas crueldade?

Apesar de Joshua e Abner formarem uma dupla muito carismática e por diversas vezes tocante, atentem para Damon Julian. Ele é o grande astro do livro, exibindo a cada aparição sua todo um trabalho de caracterização e desenvolvimento psicológico que Martin repetiria em figurinhas consagrados do universo de ASOIAF, como Jaime, Stannis, Tywin, etc etc. Mesmo sendo apenas um personagem de um livro, ele é capaz de meter medo no leitor. Talvez eu tenha pesadelos com ele essa noite.

“Você precisa entender, querido Joshua, que não existe nem bem nem mal, apenas força e fraqueza, senhores e escravos. Você se exalta com questões como culpa e vergonha. Tudo isso é bobagem. São palavras deles, não nossas. Você prega um novo início, mas o que é que nós devemos iniciar? Começar a ser como o gado? Arder sob o sol deles, trabalhar quando podemos tomar, abaixar a cabeça para os deuses do gado? Não. Eles são animais, naturalmente inferiores a nós, são a nossa magnífica e bela presa. É assim que as coisas são”.
(Damon Julian, p.196) 

Ironicamente terminei a leitura com febre. Provavelmente é apenas o meu corpo dando sinais de fraqueza após os últimos dias de estresse e muito esforço, mas talvez, e apenas talvez, tenha ficado um pouco mais de “Sonho Febril” em mim do que eu gostaria. Venha conhecer, se surpreender, deliciar e amedrontar com a visão de George Martin do que é o mundo sombrio dos Vampiros.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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