Crítica: “Prince of Thorns” muito ladra e pouco morde.

No fim de 2014 me peguei envolvido em um dilema literário. Eu tinha quatro livros para ler, mas por qual começar? Como decidiria distribuir meu tempo e minha vista? Depois de avaliar diversos critérios, desde tamanho da obra até ano de publicação, dei a honra de ser o primeiro da lista à “Prince of Thorns“, um livro de fantasia cheio de grandes pretensões escrito pelo escritor inglês Mark Lawrence. Hoje, ao término da leitura, percebo que foi tempo perdido.

“Prince of Thorns” foi publicado originalmente em 2011, mas graças ao já tradicional delay nacional, o livro só chegou às prateleiras brasileiras em 2013, pelas mãos da editora Darkside. Aliás, parabéns à editora: que edição! Cada dura, papel resistente, alguma páginas coloridas, marcador de páginas interno…Uma edição de luxo por um baixo custo: aproveitei uma promoção da americanas.com e comprei por menos de R$ 20. Pena que o conteúdo não mantenha o mesmo nível.

Vender um livro fraco desses com uma capa tão bonita deveria se configurar como propaganda enganosa.

Eis a sinopse – que diga-se de passagem, vende muito bem o livro: a história se passa em um mundo medieval, no qual o príncipe Jorg Ancrath, do Reino de Ancrath, percorre as estradas do seu império com uma guilda de ladrões, assassinos e estupradores, buscando uma vingança. Seu alvo é o Conde Renar, o homem que encomendou o assassinato de sua mãe, seu irmãos mais novo e dele próprio.  Quatro anos atrás, quando Jorg tinha 10 anos, sua carruagem foi atacada por homens de Renar. Sua mãe foi assassinada, seu irmão foi arremessado da carruagem em movimento e também faleceu, e Jorg quase teve o mesmo destino. Ele caiu em cima de roseiras-bravas, que perfuraram sua pele e inocularam veneno em seu corpo. Preso pelos espinhos, o príncipe viu sua família morrer e jurou matar o Conde.

“Os espinhos me ensinaram o jogo. Fizeram-me entender o que todos esses homens sérios e carrancudos que lutaram na Guerra Centenária ainda precisam aprender. Você só pode vencer o jogo quando que se trata de um jogo. Deixe um homem jogar xadrez e diga a ele que todos os peões são seus amigos. Diga a ele que ambos os bispos são santos. Faça-o lembrar de dias felizes à sombra das torres. Deixe-o amar sua rainha. Veja-o perder tudo.
(Jorg Ancrath)

Essa experiência definitivamente mexeu com Jorg. Ele tornou-se um rapaz cruel, sádico, com sede de sangue. Por mais que essa seja uma ótima justificativa para criar um anti-herói, não acho que seja embasamento suficiente para 350 páginas de mortes e demonstrações fúteis de autoridade. Não contei quantas mortes ocorrem no livro, mas garanto que pelo menos 90% delas são banais, mal explicadas, e várias delas acompanham frases de efeito de Jorg sobre como ele é esperto, mal ou badass. A partir da terceira delas, você já fica com a sensação de “po cara, legal, entendi já, você é mal”.

E não há muito mais do que isso na história. O livro é muito focado em Jorg: na sua vingança, nos seus distúrbios mentais, nas suas opiniões sobre seus irmãos de estrada, ou sua relação conturbada com o pai. Simplesmente não há espaço para outros personagens se destacarem: no máximo pegamos um pouco da personalidade de alguns dos outros membros de sua guilda, principalmente seu braço direito, o Sir Markin de Trent, mas mesmo assim é pouco. Ao fim da leitura, fiquei com a nítida sensação que não conheço nada sobre os outros personagens.

Aliás, a ação é tão focada no protagonista que, por vezes fiquei com a nítida sensação de que ele resolve seus problemas com a ajuda da entidade chamada “roteiro”. Tem sempre um golpe de sorte, uma providência divina, ou até mesmo a falta de malandragem de outros personagem que fazem com que Jorg escape com vida das situações nas quais se mete. Por mais que no fim do livro haja uma tentativa de explicação sobre esses fenômenos, não a considerei convincente.

Outro aspecto que me deixou com uma péssima impressão da obra: a falta de informações sobre o universo no qual a história se passa. O castelo melhor descrito é o Castelo Alto, fortaleza dos Ancrath, e mesmo assim acho que nem 2 páginas são dedicadas a ele. A história do reino não nos é contada, tampouco a do Império. Em determinado momento desisti de tentar imaginar as paisagens e locais, tamanha insuficiência de informações sobre eles.

Como disse anteriormente, o livro tem pouco mais de 350 páginas. Não é um tamanho ruim para um livro de fantasia, mas para a quantidade de eventos ocorridos, o livro torna-se pequeno demais. Os personagens se movem de um reino a outro em menos de 3 páginas! Simplesmente não há tempo hábil para desenvolver side-quests, background de personagens, dilemas existenciais que não sejam do protagonista, história do universo, etc. Acho que se o autor tivesse tido mais calma e imaginação para desenvolver melhor o enredo, poderíamos ter um bom livro com 700 a 800 páginas.

“Penso se nós não morremos todos os dias. Se não nascemos a cada amanhecer, um pouco mudados, um pouco adiante em nossa própria estrada. Quando muitos dias ficam entre você e a pessoa que você foi, vocês não se reconhecem. Talvez seja isso o que significa amadurecer”.
(Jorg Ancrath)

“Prince of Thorns” é só o primeiro livro da “Trilogia dos Espinhos“. O segundo título, “King of Thorns”, já foi publicado no Brasil e o último livro, “Emperor of Thorns”, será lançado em breve. Mas já aviso: não pretendo continuar essa leitura. “Prince of Thorns” não me convenceu, e por mais que o segundo livro seja melhor – o que normalmente acontece – prefiro dedicar meu tempo de leitura à outras obras mais promissoras.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Um comentário em “Crítica: “Prince of Thorns” muito ladra e pouco morde.

  • 1 de Fevereiro de 2016 em 10:35
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    Tenho que dizer, é exatamente esse misterio de não contar o cenario e se focar muito em Jorg que mantem os segredos dos proximos livros.

    (SPOILER ALERT)

    O Livro se passa em um futuro alterado pelos construtores, eles deram o controle do tempo/controle do destino, na mão das pessoas normais. no Segundo livro voce começa a perceber mais isso, quando um dos castelos tem uma grande placa escrita “Estacionamento” e é descrito como um shopping.
    Se voce não se apegou ao menos ao Nubano no primeiro livro, voce não se apega a mais ninguem (Talvez Kent, o Rubro, ou Makin) mas o livro mostra coisas como, previsões do futuro nem sempre estão certas e que a força de vontade pode mudar tudo (Esse é o controle que os construtores deram)

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