Crítica: “Novembro de 63” é uma viagem pelo tempo e pelo talento de King.

Novembro de 63“, mais um livro do incansável Stephen King, envolve viagem no tempo. Pronto, já tá bom demais né, não preciso falar mais nada sobre o livro, pode começar a ler.

Ok, escreverei sim uma crítica mais completa da obra, afinal ela merece. “Novembro de 63” foi publicado em 2011 e chega ao Brasil pelas mãos da Suma de Letras. O título conta com todos os elementos que fazem de Stephen King um sucesso mundial: suspense, um toque sobrenatural, personagens complexos e controversos, além de uma pesquisa extensa por parte do autor que o torna capaz de criar um cenário quase palpável ao leitor. Ah, mas dessa vez temos um elemento chave que já mencionei no passado: viagens no tempo.

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A histórica capa de “Novembro de 63”

Entra a sinopse! Jake Epping, um professor de colegial com uma vida bem marromenos, é convocado por seu amigo Al Templeton, dono da lanchonete local, para uma aventura. Al lhe apresenta uma legítima “máquina do tempo”, capaz de fazê-los retornarem para 9 de setembro 1958! O cozinheiro apresenta as peculiaridades da coisa toda e lhe encarrega de uma missão: evitar que John Kennedy seja assassinado em novembro de 63! Jake aceita o desafio (caso não o fizesse, acabaria o livro, né?) mas percebe que deve fazer uma coisa primeiro: tentar evitar que um de seus alunos mais velhos, o zelador Harry, tenha sua família brutalmente assassinada por seu pai, ainda em 1958. Com seus objetivos traçados, o professor parte em sua jornada para criar um pretérito-mais-que-perfeito! (perdão pelo trocadilho de conjugação verbal).

“Atravessei a rua, me perguntando rapidamente o que aconteceria se eu fosse atropelado. Sumiria da existência? Acordaria caído no chão da despensa de Al? Provavelmente, nenhum dos dois. Provavelmente apenas morreria aqui, num passado do qual muita gente provavelmente sentiria saudades. Talvez porque esqueceram como o passado cheirava mal, ou porque nunca tinham pensado nesse aspecto dos bacanas anos 1950”. (Jake Epping)

Mais uma vez fiquei impressionado pelo cuidado com o qual Stephen King constrói o ambiente no qual se passa seu livro. Os anos de 1958-1963 são descritos nos mínimos detalhes, desde os preços da gasolina e comida, as gírias utilizadas, quais musicas estavam nas paradas de sucesso, até mesmo quais tecnologias já existiam e quais ainda viriam a ser inventadas. É incômodo e revelador perceber como que a sociedade americana pregava o racismo abertamente, até mesmo através de leis, no início da década de 60, pouco mais de 5 décadas atrás. Por mais a sociedade estadunidense ainda seja extremamente discriminatória, é inegável a evolução da mentalidade nesse sentido.

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As andanças de Jake Epping (sob o pseudônimo de George Amberson) são, digamos, 70% do tempo (sem trocadilhos aqui) muito interessantes. As pessoas que ele conhece são ótimas, compondo um grande elenco para a obra. Suas tentativas de mudar os eventos da história e a resistência do passado em não mudar são angustiantes: graças a esse gancho, King ficou livre para pesar a mão no enredo e prejudicar o personagem das maneiras mais estapafúrdias possíveis sem tornar a coisa forçada (shame on you, Sob a Redoma!).  As pequenas porém marcantes coincidências que o protagonista vai encontrando durante seu percurso no passado aliado ao eterno mistério do que está sendo alterado no seu futuro fazem com que o leitor fique ansioso para saber o que vem a seguir.

“Por um instante ficou tudo claro e, quando isso acontece, a gente vê que o mundo mal existe. Em segredo, todos não sabemos disso? É um mecanismo de gritos e ecos que se equilibra com tanta perfeição fingindo ser rodas e engrenagens, um relógio de sonhos que toca atrás de um vidro de mistério que chamamos de vida. Atrás? Embaixo e em volta? Caos, tempestades. Homens com martelos, homens com facas, homens com armas de fogo. Mulheres que distorcem o que não podem dominar e desdenham o que não conseguem entender. Um universo de perdas e horrores a cerca um único palco iluminado onde os mortais dançam em desafio às trevas”.

Mas, como eu já deixei implícito momentos antes, tem uns 30% que não achei tão empolgantes assim. Pasmem: eles correspondem exatamente à saga do protagonista para impedir o assassinato de John Kennedy. Vamos entender porque eu não curti essa parte: eu não sou estadunidense, tampouco fã da história do país. Não vivi a década de 60 e se li algo sobre Kennedy, não foi o suficiente para me apegar a sua trajetória em vida ou lamentar seu assassinato. Durante o livro acompanhamos com detalhes, mas muitos, muitos, muitos detalhes mesmo (quase todos fiéis à história real) a vida do seu (possível) assassino, Lee Harry Oswald, este investigado sempre de perto por Jake-George.  Então, para mim, a grande jornada para impedir o atentado e salvar a vida do presidente tornaram-se…digamos…chata. Vazia. Em certos momentos, a insistência do protagonista em completar a missão mesmo com todos os contratempos me pareceu até sem sentido. Tipo, “cara…para, sai daí, para com isso, get over it!”.

“Quando alguém veste uma fantasia de palhaço e põe um nariz de borracha, ninguém tem ideia de como é por dentro”

Tirando esse pequeno-grande detalhe que tornou parte da narrativa desinteressante para mim, “Novembro de 63” é mais um ótimo livro de Stephen King. Caso você seja mais fã do tema Viagem no Tempo do que propriamente do autor, pode vir com tudo, porque aqui todos os elementos clássicos do gênero, como por exemplo os divertidos e inesperados paradoxos, estão aqui. Não perca mais tempo (sério, sem trocadilhos!) e comece a ler!

90

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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