Review: Nos Bastidores da Nintendo

“Um híbrido de livro para fãs e ensaio acadêmico”

Quem acompanha o mundo dos games costumeiramente está sempre ligado nos lançamentos, notícias sobre possíveis remakes, críticas dos games do momento, etc. Mas um menor número de gamers procura saber a história das empresas que produzem os títulos e consoles que alimentam esse meio. Um dos motivos é a escassez de obras que se dediquem a estudar esse objeto: é mais comum lermos sobre a história de franquias específicas do que dessas empresas. Felizmente, hoje faço a crítica de uma exceção a essa regra, o livro “Nos Bastidores da Nintendo”, de Jeff Ryan.

A Editora Saraiva foi a responsável por trazer esse título ao Brasil. E por mais que eu e outros fãs sejamos gratos por isso, cabe aqui um puxão de orelha já na capa. O título original do livro é “Super Mario: How Nintendo conquered America”. A versão tupiniquim trazer o título e subtítulo: “Nos Bastidores da Nintendo: o jeito Wii de reinventar negócios e transformar clientes em fãs” o que sugere uma obra muito voltada para a história do Wii, o que não ocorre: a ele é dedicado apenas 1 capítulo. Propaganda enganosa é feio, hein galera?

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Capa clean, com poucas informações? Não, obrigado, vamos escrever tudo que for possível nela.

Aliás, cabe fazer uma observação sobre o foco do livro: Mario. O livro é sobre a Nintendo segundo a ótica do Mario. Quer saber mais sobre “The Legend of Zelda”? Esse livro não vai acrescentar muita coisa. E sobre o Yoshi? Aí até temos mais informações, já que ele faz parte do núcleo Mario, mas vale frisar de novo: o astro do Livro é o Mario. Acompanhamos sua evolução desde o primeiro game, as mudanças pelas quais o mascote oficial da Nintendo teve que passar para continuar conquistando o público.

“A verdadeira criatividade veio depois que os itens fáceis de vender já haviam sido tomados. Quem, por exemplo, pensou em usar à conexão do Mario com encanamentos para fabricar uma ducha portátil licenciada? Ela traz bonecos de plástico do Mario e do Luigi, um sobre o ombro do outro, criando uma alça para uma mangueira de água. (…) Perfeito para enxaguar o xampu do Mario com a esponja do Mario e brincar com os brinquedos para banho do Mario! (Todos reais, a propósito!). (p.146).

Apesar do Mario roubar a cena, o show ainda é sobre a Nintendo. Tá curioso para saber começou sua empreitada nos Estados Unidos? Tem essa história aqui. Quer entender o que ocasionou o fracasso do Virtual Boy? Jeff Ryan explana tudo. Que tal reviver a gloriosa batalha entre Sonic e Mario na década de 90, um conflito tão intenso que faz com que até hoje muitos fãs se recusem a aceitar os dois como companheiros de games? Existe um capítulo divertidíssimo sobre esse assunto.

O Sonic era diferente. Ele era o pôster infantil para a geração com Transtorno de déficit de atenção com Hiperatividade, um corredor de anime com cabelo espetado, sorriso afetado constante e com o que, em retrospecto, seria a marca registrada característica da nascente década de 1990: ‘atitude’. (…) Se você deixasse o controle inativo, ele bateria os pés, impaciente. Como personagem, ele foi expressamente criado para mostrar a fraqueza da Nintendo. Mario era alegre; Sonic era rude. Mario era o contentamento sem pressa; o propósito expresso do Sonic era acelerar. Mario usava vários figurinos inteligentes. O Sonic não precisava se trocar – ele era cruelmente perfeito como um tubarão. (p.104).

A narrativa de Jeff Ryan é divertida, cheia de trocadilhos que só fãs de games – e da Nintendo – irão compreender. Ele conta a história com a propriedade de quem pesquisou bastante sobre o assunto e viveu aquilo de perto, mas com um distanciamento saudável para qualquer autor. Exemplo: diversas vezes ele critica atitudes da Nintendo, seja com relação a sua política de lançamento de títulos, a complicada linha do tempo de algumas franquias – cc Zelda -, o tratamento dado aos seus empregados ou a relação da empresa com o meio-ambiente. Tudo isso proporciona ao leitor uma abordagem crítica, que aponta as qualidades que levaram a empresa a tornar-se uma gigante do ramo de games mas sem deixar de expor as dificuldades e erros de suas gestões.

Em resumo: se você é um fã da Nintendo, invista nesse livro. Caso você seja um pesquisador, um estudante que quer entender um pouco mais sobre o ramo de games e uma de suas maiores empresas, essa obra também vai se encaixar muito bem na sua estante. O preço é acessível (R$ 50), mais barato do que quase todos os jogos da empresa. Um tributo bem bacana para Mario, Link, Donkey Kong, Pikachu e tantos outros que tanto fizeram pela nossa infância.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

4 comentários em “Review: Nos Bastidores da Nintendo

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