Crítica: “Homem Formiga – Inimigo Natural”

Caso você ainda não conheça a linha de livros lançada recentemente pela Marvel, não deixe de conferir algumas críticas que já fizemos aqui na Drop Hour a alguns dos títulos já publicados – links ao final do post! O sexto título dessa coleção especial, lançado quase que simultaneamente à estreia do minúsculo herói Marvel nos cinemas, é “Homem-Formiga – Inimigo Natural“. Devorei a leitura em menos de 12 horas – literalmente – e posso me dizer gigantescamente satisfeito com o que encontrei nesse livro. OK, sem trocadilhos a partir de agora, prometo.

“Homem-Formiga – Inimigo Natural” é escrito por Jason Starr, sujeito um tanto quanto below the radar, apesar de alguns prêmios em sua carreira. Jason deve ter recebido o briefing básico que qualquer autor recebe ao trabalhar com um produto Marvel: explorar o lado humano do personagem, o que torna esse heroi “gente como a gente”, etc. Os livros então vem se notabilizando ainda mais por essa abordagem, mas o que vemos nessa obra leva essa proposta ao extremo: muito mais importante do que acompanhar o que faz o Homem-Formiga é sentir o que é o cotidiano de Scott Lang.

page_1Um homem. Uma formiga.

Sinopse Time! Scott Lang vive seu dia-dia de pai solteiro. Ele trabalha com TI no horário comercial, combate o crime de maneira solitária ou com os Vingadores nas horas vagas, mas ainda encontra um tempinho para marcar encontros com outras mulheres solteiras que possam vir a topar dividir essa sua louca vida. Entretanto, ele concilia todas essas tarefas com a prazerosa obrigação de cuidar de sua filha, Cassie Lang, uma adolescente de 14 anos de idade. Parece difícil fazer tudo isso ao mesmo tempo, não é? Principalmente quando um ex-colega de crimes de Scott foge da prisão e ameaça matar sua família.

Ao contrário da DC, no qual os heróis – em sua maioria – vivem seus dilemas míticos, existenciais e até quase divinos, os heróis Marvel são pessoas. Pessoas com problemas tão reais que acabam tornando-se seus amigos íntimos. É difícil não compartilhar a decepção de Scott quando seu encontro romântico não dá certo – quem nunca, não é? É legal ver o quanto ele se esforça para ser um pai legal, principalmente quando você percebe que algumas atitudes suas claramente não são as mais sábias ou sensatas, mas que se ele erra é porque é humano! Ele é um super-heroi, claro, mas passa a maior parte do seu dia ocupando o mesmo espaço que nós, reles humanos comuns, sofrendo com as mesmas aflições do cotidiano que nós também sofremos.

Jason_StarrO autor, Jason Starr.

Não compre esse livro ansioso por grandes aventuras épicas do herói em miniatura da Marvel, porque simplesmente não rola. Só há uma luta de destaque no livro todo. Se Soctt Lang usa seu traje especial quatro vezes durante toda a história, é muito. As formigas super diferentes e atuantes que vemos no filme do super-heroi aqui são meras simpáticas coadjuvantes. O foco da história é a conturbada vida civil e familiar de Scott, em como o seu passado criminoso e seu presente heróico tornam o seu futuro e o de Cassie incertos.

(Cassie) tinha cabelos loiros compridos e uma beleza natural. Meio moleca, meio nerd, não curtia muito coisas de menina, tipo fazer compras ou usar um monte de maquiagem. Não gostava muito de esporte também, o que não era problema para Scott. Uma das atividades favoritas dos dois era desmontar computadores e outros eletrônicos, para depois recomentar os aparelhos novamente”. (p.36)

A narrativa alterna entre a perspectiva de Scott Lang e de sua filha, Cassie – às vezes até o mesmo fato é narrado pelos dois olhares. O ponto de vista da menina Lang acaba tornando-se um pouco chato às vezes por focar demais na sua paixão por um garoto da sua escola, forçando o estereótipo da menina boba que vive em função do seu rapaz. Mas quando não há essa insistência ridícula em reduzir à personagem a essa leitura, o que vemos é uma adolescente em crise, tendo que se acostumar a uma vida sem sua mãe por perto, envolta pelas intrigas colegiais e tendo de se adaptar a uma situação conturbada em casa na qual não tem nenhuma responsabilidade. Ah, e com direito à passeio com o traje do Homem-Formiga!

“Tony, assim como o Capitão e o Aranha, chamava atenção: já Scott preferia espreitar, despercebido, ao fundo, e certamente não precisava dos holofotes. Seu objetivo principal era ser um grande homem, um bom pai. Se formassem uma banda de rock, Tony seria o vocalista, o Aranha ficaria na guitarra, o Capitão seria o baterista e Scott tocaria baixo. Ou talvez nem o baixo. Seria o cara com o chocalho”. (p.40)

Para não dizer que tudo são flores no livro, tenho de ressaltar um velho problema que a Marvel vem enfrentando em suas últimas empreitadas: a ausência de um vilão forte. Não foi dessa vez que me empolguei com a personalidade, as motivações ou os planos do antagonista da história. Nesse livro a sensação que fiquei foi a de que o tal “Inimigo Natural” foi introduzido apenas como pretexto para fazer a história andar e encontrar um clímax.

“O único motivo pra gente ter ser protegido era aquele cara maluco, o Willie Dugan, que tava atrás de você. E porque ele tava atrás de você? Por causa do outro segredo que eu e a mamãe guardamos pra você, e eu não aguento mais, não aguento. Sempre tem outro segredo, e outro e mais outro. Com você, não tem fim. Tem sempre alguma coisa nova que eu não posso fazer, ou que não posso contar pra ninguém. Porque é tudo sempre em torno de você e dos seus segredos? E eu? Quando é que eu vou poder viver?” (Cassie Lang, p.192). 

“Homem-Formiga: Inimigo Natural” traz em suas páginas a essência da Marvel: dilemas humanos em super-heróis. Scott Lang – e mais precisamente o seu alter-ego – é o veículo perfeito para mostrar o quanto os grandes embates super-heroicos podem afetar de maneira pouquíssimo significativa as nossas vidas. Muito mais importante do que os poderes e habilidades do herói são as batalhas que o homem trava em seu cotidiano. Uma última observação sobre a publicação: na compra do livro você recebe um marcador personalizado e uma prévia do próximo título, o “Guardiões da Galáxia: Rocket Racoon e Groot”.

90

Review do livro “Guerra Civil”: http://drophour.com.br/2014/12/03/review-guerra-civil-livro/

Review do livro “Homem-Aranha: Entre Trovões”: http://drophour.com.br/2015/06/14/review-homem-aranha-entre-trovoes/

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

2 comentários em “Crítica: “Homem Formiga – Inimigo Natural”

  • 11 de novembro de 2015 em 09:46
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    Olá, gostei do artigo, aguardo mais dicas como esta. Para mim que estou começando agora são dicas muito importantes.

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    • 27 de novembro de 2015 em 01:30
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      Fala Antonio!

      Obrigado pelo feedback. Fica ligado na Drop Hour que vira e mexe a gente dá umas dicas de livros e quadrinhos famosos e alguns até mesmo bem obscuros, haha. Abraços!

      Resposta

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