Crítica: “Guerra Civil” (livro) é familiar e novo simultaneamente.

Você pode ter todas as críticas do mundo à Marvel Comics, mas um mérito você não pode tirar dela: a empresa sabe vender bem seus produtos de sucesso. Provavelmente o maior exemplo moderno que corrobore essa afirmação seja “Guerra Civil“, a saga de 2006  que, nos quadrinhos, vendeu mais de 500.000 exemplares. O evento redefiniu o universo das HQs, expandiu-se até os games – através de “Marvel Ultimate Alliance 2” e referências presentes em “Marvel vs Capcom 3”, por exemplo, – será adaptada para os cinemas em 2016, no filme “Capitão America: Civil War” e, mais recentemente, as livrarias brasileiras receberam o livro homônimo baseado na trama. E é desse livro que eu faço a minha review de hoje.

Originalmente, “Civil War” foi escrita por Mark Millar e Steve McNiven, mas coube ao aclamado Stuart Moore adaptar o quadrinho de sucesso para a linguagem em prosa. Felizmente o resultado faz jus ao material original: Suart nos apresenta a velha e conhecida Guerra Civil, com os mesmos acontecimentos e até mesmo diversos diálogos originais, mas ao mesmo tempo nos apresenta novos pontos de vista para a trama.

O livro é bom quando até a capa já me emociona.

Nesse livro, acompanhamos a história através do olhar de alguns super-heróis. Os mais recorrentes são o Homem-Aranha, o mais indeciso dos personagens envolvidos; Tony Stark, o líder do movimento Pró-Registro; e Sue Storm, a Mulher Invisível, provavelmente a mulher mais afetada pelo conflito super-heroico. O Capitão América, o outro grande protagonista da trama e líder dos heróis rebeldes, infelizmente tem poucos capítulos próprios, o que me desagradou – já que sou fã do personagem e escolhi o seu lado durante a história -, mas isso não torna a adaptação menos fiel ou pertinente.

“Tony pairava um pouco acima do solo, ela notou, o que lhe conferia além de altura, um ar adicional de autoridade. Parecia uma criatura de um filme de ficção científica dos anos 50, um soberano alienígena que veio cheio de bondade governar a terra. A armadura do Homem de Ferro cobria cada centímetro do corpo dele, não deixando nenhum traço visível de sua humanidade”. 

Agora vamos a um ponto polêmico: adaptações. O livro não é 100% fiel à trama, e antes de qualquer tipo de reclamação sobre isso, convenhamos: ele nunca prometeu isso. Na própria capa há a mensagem “adaptado dos quadrinhos de Mark Millar e Steve McNiven”. Alguns personagens presentes na HQ não aparecem no livro, mas quase todas essas ausências não interferem em nada no enredo – como Cable, por exemplo; por outro lado, alguns heróis como o Gavião Arqueiro, na época morto no Universo Marvel devido aos eventos ocorridos em “Vingadores: A Queda“, marcam presença, mas também não se destacam. Com relação aos acontecimentos em si, o livro é muito fiel: as mesmas batalhas ocorrem nos mesmos locais, com a mesma trágica morte e o mesmo desfecho. Apenas alguns episódios se desenrolam de maneira diferente, mas quase todas as adaptações são até positivas: corrigem falhas no enredo original.

A pergunta ainda é a mesma do quadrinho original: de que lado VOCÊ está?

A escrita de Suart Moore é tão parecida com a que os melhores quadrinhos da Marvel nos fornecem, que nem senti a diferença entre os meios (HQ e Livro). Os dramas e conflitos existenciais que humanizam os super-heróis da empresa estão ali; o humor, tão presentes nos filmes da Casa das Idéias, também aparecem no livro, principalmente através das infames piadas do Homem-Aranha. A leitura é fácil e fluida: li a obra em dois dias e teria feito até em menos, se tivesse mais tempo livre.

“- Suzie, eu dei uma bela olhada em volta depois que a batalha acabou. Naquela fábrica. Tinha uma gosma tóxica no chão todo, cacos de vidro, pedaços de metal, não restava uma parede em pé. (…) eu vi o que nós fizemos, todos nós, lutando como ratos famintos naquele espaço apertado. Não pude deixar de pensar: e se tivesse pessoas em volta? E se um único civil tivesse passado pelas barricadas, um repórter talvez, e se ele ficasse esmagado entre mim e Luke Cage?”
(O Coisa)

Um grande destaque, na minha opinião, são os capítulos de Sue Storm. Muitas vezes quando falamos sobre Civil War, nos lembramos imediatamente dos protagonistas: Capitão América, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Thor, Golias, etc. E acabamos nos esquecendo de que Sue Storm é uma peça chave fundamental no enredo, tanto pelas ações durante a batalha na fábrica abandonada, tanto quanto pelo seu relacionamento com Reed Richards, um dos líderes da facção Pró-Registro. Além disso, em um mundo tão masculino como o dos comics, a presença de uma personagem feminina forte como Susan Storm é muito bem-vinda. Outro destaque: o prólogo do livro, a infame ação dos Novos Guerreiros que leva à tragédia de Stanford, é narrada através do ponto de vista de Speedball, e torna-se um dos melhores capítulos de toda a obra.

“Todos eles permaneceram imóveis, fitando o corpo de seis metros de altura de um herói que ousou desafiar a Lei de Registro de Super-Humanos. Sua não sentia nada, só frio. Só conseguia pensar em uma coisa: a única que vinha a sua mente, a frase que Tony Stark pronunciara em sua famosa coletiva de imprensa: “Stamford foi meu momento de clareza”. Este, ela percebeu, é o meu. 
(Sue Richards – anteriormente Sue Storm)

“Guerra Civil’, de Stuart Moore, foi meu presente de Amigo Oculto nesse ano (obrigado, Isadora!) e posso dizer agora: que presentaço! Fiel ao que é importante e cirúrgico nas adaptações, a obra é um ótimo título para a coleção de qualquer Marvel maníaco. O preço é justo pela qualidade do material, tanto em conteúdo quanto em encadernação.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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