Crítica: “A Morte da Luz” é melancolicamente belo.

As Crônicas de Gelo e Fogo” é a franquia da moda. Graças à qualidade dos seus cinco livros lançados até agora e o sucesso da série desenvolvida a partir dela – intitulada Game of ThronesGeorge Martin tornou-se um dos ícones da literatura e uma das figuras mais importantes do mundo geek. Mas tanta fama e idolatria após uma série de livros levanta uma questão: o autor é realmente tão competente ou ele tem colhido frutos de um único bom trabalho? A Morte da Luz é a prova de que quando George Martin escreve, vale a pena você ler.

“A Morte da Luz” chegou ao Brasil em 2012 através da editora Leya, a mesma que publicou “As Crônicas de Gelo e Fogo”, mas confesso que só vi o livro com destaque nas livrarias no fim de 2013. Isso significa um pequeno atraso de 35 anos, já que o livro foi publicado originalmente em 1977! Isso mesmo, “A Morte da Luz”, no original “Dying of the light”, é mais velho que todos os membros da Drop Hour e possivelmente é mais velho que você, meu caro leitor.

A belíssima capa de “A Morte da Luz”, publicação da Editora Leya

Após o susto inicial, resolvi dar uma chance ao livro, afinal, George Martin mostrou-se digno da minha confiança após seis livros muito bem escritos (também li “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, do qual falarei melhor em outro post). E eu, que achei que teria uma leitura agradável e interessante, tive outra surpresa: o livro é fantástico.

Esqueça o mundo medieval: agora estamos no futuro, e fora do planeta terra. “A Morte da Luz” se passa em um mundo muito à frente do nosso, no qual a humanidade desenvolveu tanto sua tecnologia que tornou-se capaz de explorar o universo. A trama principal do livro se passa em um dos planetas distantes colonizado pelos humanos: Worlorn. Mas o que há de tão especial em Worlorn para que este seja o cenário de um livro inteiro? Seu trágico destino: o planeta está transitando para longe dos sóis que fornecem sua luz. Estima-se que em uma década sua superfície congele e toda a vida que há nele desapareça. E um efeito colateral desse distanciamento é o eterno crepúsculo que o planeta vive durante as horas do dia.

“Um planeta errante, um viajante sem objetivo, um pária da criação: esse mundo era todas essas coisas” 

Um cenário deslumbrante merecia um enredo envolvente, e George Martin é generoso nesse quesito. A trama gira em torno de Dirk t’Larien e Gwen Delvano, um casal que fez juras de amor em sua juventude, mas que não se vê há anos. Quando Dirk é chamado de volta por sua amada, ele pensa que recebeu uma segunda chance de ser feliz. Mas a felicidade é um luxo que Worlorn não pode oferecer, um planeta onde até a luz está fadada a morrer. Dirk descobre que Gwen está casada com um homem de um planeta distante, e é obrigado a descobrir qual o seu papel na vida de sua antiga paixão.

Um cenário melancólico, bem adequado a uma história sobre arrependimentos e amores nunca esquecidos

Uma mistura de romance com drama, o livro só desenvolveria bem sua proposta se possuísse personagens fortes e profundos, e felizmente isso ele apresenta aos montes. Apesar do protagonista não ser nem de longe o personagem mais interessante, felizmente o leitor se depara com outros cujas personalidades, historias e culturas te impressionam, confundem e conquistam. Aos poucos o leitor descobre que ninguém é bom ou mal, nem tampouco feliz ou triste: todos são cinza, e sofrem com o peso de suas escolhas.

“O problema era que você amava Jenny…só que eu não era Jenny. Ela era baseada em mim, talvez, mas em grande parte era um fantasma, um desejo, um sonho que você desenhou todo para si. Você a fixou em mim e amou nós duas, e, com o tempo, me surpreendi me transformando em Jenny. Dê um nome para uma coisa e ela, de algum modo, passará a existir. Toda a verdade está nos nomes, e todas as mentiras também. pois nada distorce tanto quanto um nome falso, um nome falso que muda a realidade assim como as aparências. Eu queria que você me amasse, não a ela”.
(Gwen Delvano)

“A Morte da Luz” é um grande livro, e mostra que o autor de “Game of Thrones” não é um fenômeno mundial por acaso. De maneira semelhante a “Crônicas de Gelo e Fogo”, o universo no qual a historia principal se insere é confuso a um primeiro olhar, mas o Glossário ajuda o leitor a se encontrar. E quando a trama engrena e a ação começa, é impossível parar de ler.

No mais, tenha em mente que você está lendo George Martin, então qualquer personagem pode morrer, pessoas serão traídas e em algum momento seu queixo irá cair durante a leitura. E quando terminar a última página, você terá certeza de que fez bem ao dar uma chance para esse velho, desconhecido e ótimo livro.

Facebook Comments

Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *