Crítica: “A Fúria do Assassino” tarda, mas não falha.

Em 1997 era lançado o último livro da Trilogia do Assassino, escrita pela estadunidense Robin Hobb, intitulado “Assassin’s Quest”. Aqui no Brasil a obra foi lançada apenas em 2014, com o título “A Fúria do Assassino”, pela Editora Leya. Para quem não conhece a trilogia, deixou aqui dois links com as críticas dos dois primeiros títulos: “O Aprendiz de Assassino” – http://drophour.com.br/2014/07/25/review-o-aprendiz-de-assassino/ – e “O Assassino do Rei” – http://drophour.com.br/2014/07/25/review-o-assassino-do-rei/. Em 831 páginas, “A Fúria do Assassino” conclui de forma digna a saga, testando os limites de Fitz Cavalaria e um pouco da paciência do leitor.

Em que ponto exatamente a história havia parado, lá no fim do também gigantesco “O Assassino do Rei”? Vamos lá: Os Seis Ducados estavam em decadência, graças aos ataques dos Navios Vermelhos. O Rei Sagaz acabara de morrer graças às artimanhas de seu filho Majestoso, que declara-se o novo regente após a morte de Fitz Cavalaria e o paradeiro desconhecido do Príncipe Veracidade. Kettricken foge com o Bobo para o Norte, a fim de evitar a fúria do mesquinho príncipe. Vitorioso, Majestoso então muda toda a corte real para o interior, a fim de fugir dos ataques a sua costa e poder viver com muito luxo e riqueza. Mas Fitz, seu eterno nêmesis e protagonista da saga, sobrevive graças à magia da Manha, que lhe permite habitar temporariamente o corpo de seu lobo, Olhos-de-Noite, enquanto seu verdadeiro receptáculo humano é desenterrado.

A estranha capa de “A Fúria do Assassino”

Agora temos de acompanhar, lentamente, a retomada de Fitz de sua própria vida. Muito ocorreu enquanto ele esteve fora: Breu e Bronco, dois de seus mentores, são foragidos; a Torre de Cervo, local no qual passou maior parte de sua vida, sofre com o descaso do Rei; Moli, sua paixão, seguira sua própria vida; e todos nos Seis Ducados o consideram morto – e pior que isso: um Manhoso, um sujeito podre, sujo, ao qual deve-se evitar qualquer tipo de contato ou menção. Por mais que muitas perguntas surjam à frente do protagonista durante o livro, a mais importante delas também é a mais simples de todas: o que ele quer fazer com sua nova vida?

 

“– Você não percebe, não pode saber. Não é sequer capaz de imaginar o que me tirou. Eu devia estar morto, mas você não quis me deixar morrer. Tudo com a melhor das intenções, acreditando sempre que estava fazendo aquilo que estava certo, por mais isso que me magoasse. Mas quem lhe deu esse direito sobre mim? Quem decretou que me podia fazer isso?”.
(FitzCavalaria)

 

É apenas nesse terceiro livro da trilogia do Assassino em que vemos Fitz tendo de agir por conta própria. Logo nas primeiras 100 páginas do livro (que aliás são as melhores de todas), o bastardo assassino percebe que estará completamente sozinho ao trilhar o caminho que escolhera. Ou melhor: sozinho jamais, pois Olhos-de-Noite torna-se, em definitivo, o coadjuvante de luxo nessa obra. A relação entre ambos se estreita e se intensifica de uma maneira muito especial, simulando diversos papéis simultaneamente: o homem e o bicho de estimação, os irmãos, o nobre e o guarda-costas, etc.

E também vemos nesse livro o mundo criado por Robin Hobb se expandir. Não ficamos restringidos à Torre do Cervo em 70% do tempo, tal qual no segundo livro da trilogia: dessa vez Fitz atravessa diferentes ducados, além do Reino das Montanhas, seja por rios, florestas, aldeias, cidades… E cada local tem alguma característica peculiar, uma história para contar, até mesmo os países apenas citados pelos personagens, como Estados de Calcede, por exemplo. Nesse ponto, o título original descreve melhor o livro: “Assassin’s Quest” seria algo como “A Jornada do Assassino”.

O problema é que essa tal jornada é longa. Muito longa. E feita quase que exclusivamente a pé, com muitos detalhes e reflexões. Até demais. Por mais que o livro tenha acontecimentos e descobertas constantemente, diversas vezes me senti preso ao ciclo: Fitz anda, Fitz fala com Olhos-de-Noite, eles vão caçar, eles dormem, Fitz reclama da vida e sonha com altas coisas. Acreditem: isso se repete à exaustão. Entendo a ideia da autora de querer aproximar o leitor de Fitz, fazê-lo partilhar suas dúvidas, sentir seu sofrimento, seu medo, mas acho que ela pesou um pouco a mão.

 

“Às vezes todas as opções são ruins, Bobo, e mesmo assim um homem tem de optar”.
(Breu)

 

Eu considerei o final previsível. A partir da página 600 do livro você já pressupõe qual será o desfecho, principalmente através dos casais que começam a se formar durante a trama. Mas o fato do desfecho não ser exatamente dos mais criativos de maneira alguma tira seu mérito. E fica um elogio para a autora no quesito elucidação de todos os pontos da história: fiquei com a nítida sensação que ela guardou para si a explicação de uns 5% da trama. Tenho a opinião de que entregar a história toda mastigada para o leitor é um desperdício, pois você pode deixá-lo imaginar os pontos que ficaram em branco ou pode guardá-los para usá-los futuramente – tal qual um verdadeiro assassino esconde suas armas.

 

 “– Honra, cortesia e justiça…Elas não são reais, Fitz. Todos nós fingimos e as erguemos como escudos. Mas elas só defendem contra pessoas que trazem os mesmos escudos. Contra aqueles que as jogaram fora, não são escudo algum, mas apenas armas adicionais para usar contra as suas vítimas”.
(Esporana Cantodave)

 

Não é fácil concluir uma trilogia, principalmente com tantos personagens importantes tão bem desenvolvidos ao longo dela – e aqui fica um agradecimento especial ao “O Assassino do Rei”, essencial nessa tarefa. Felizmente, “A Fúria do Assassino” esteve a altura do desafio e conclui a Saga do Assassino de maneira satisfatória. Com algumas páginas em excesso, é verdade, mas de qualquer forma eu recomendo demais essa leitura.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Um comentário em “Crítica: “A Fúria do Assassino” tarda, mas não falha.

  • 9 de agosto de 2015 em 22:53
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    preciso muito ler este livro!! (pena que o dimdim é curto)
    Terminei o Assassino do Rei semana passada, não sei como Robin fez, mas me fez criar odio de um personagem literário – leia-se Majestoso – mais do que acordar cedo e ir trabalhar haha

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