Crítica: Um novo amanhecer

“Dispensável ”

Eu sou um grande fã da proposta de universos expandidos. Quando uma franquia, como Star Wars, por exemplo, vai além de sua obra e mídia originais, enriquecendo seu próprio universo com novos personagens e narrativas, o público tem muito a ganhar. Novos laços entre fã e franquia são forjados e a paixão entre ambos é reforçada.

Claro que existem casos nos quais existem poucos ou nenhum benefício para a inclusão de uma nova narrativa no canon de uma franquia. Hoje escrevo a crítica de um desses casos: Um novo amanhecer, livro pertencente ao universo expandido – e atualmente canônico – de Star Wars acrescenta praticamente nada de relevante à franquia e faz o leitor se perguntar, durante as mais de 400 páginas da obra, porque não escolheu outro livro.

“Um novo amanhecer” é de autoria de John Jackson Miller, mesmo autor de outro livro de Star Wars, o “Kenobi” (cuja crítica você também encontra aqui na Drop Hour: http://drophour.com.br/2016/01/16/review-kenobi/) Publicado em 2015 pela editora Aleph, a história do livro se passa entre os eventos ocorridos no episódio III (A vingança dos Sith) e o episódio IV (Uma nova esperança). Recapitulando: ao fim do episódio III, a república sofreu um golpe, os Jedi foram acusados pelo até então senador Palpatine de tentarem tomar o poder e receberam ordens para serem exterminados. Em seguida, o Império Galáctico foi fundado e começou sua expansão pela galáxia.

Um novo amanhecer Capa livro

A capa do livro. Seria uma PENA se esse sabre de luz ai fosse meramente ilustrativo. 

Portanto, esse é um péssimo momento para ser um Jedi ou um Padawan. Esse é o drama de Caleb Dume, ou “Kanan Jarrus”, identidade assumida pelo aprendiz de Jedi para tentar escapar das forças imperiais. Kanan leva uma vida de nômade, trocando de emprego, casa e até de planeta constantemente, tentando evitar o contato com a Força, o uso de suas habilidades extraordinárias ou mesmo qualquer menção ao seu passado. Em uma de seus empregos, como transportador de carga em um planeta chamado Gorse, Kanan acaba se envolvendo em uma batalha contra o império pela sobrevivência tanto do planeta quanto também da lua que o orbita, Cynda.

Caso você acompanhe a série “Star Wars: Rebels” deve ter reconhecido o nome de Kanan. Sim, nesse livro acompanhamos não só o protagonista da série mas também o seu primeiro encontro com Hera Syndulla, outra heroína do universo expandido da franquia. Infelizmente para os dois e para os leitores, a aventura retratada no livro apresenta pouquíssimos momentos interessantes e dezenas de capítulos entediantes.

Três elementos tornam o livro dispensável, a meu ver. O primeiro ponto refere-se à própria trama. Ela nunca realmente deslancha. Repetidas vezes os heróis invadem um local, tem um confronto com algum representante do império, não resolvem a situação por completo, fogem, há uma perseguição, mas tudo fica bem. Na quinta vez que você se depara com esse ciclo, a vontade é de jogar o livro fora e partir para outra. O livro nunca parece chegar ao clímax, em nenhum momento me peguei pensando “putz, e agora, como isso vai terminar?”, porque eu simplesmente nem me importava mais como ia terminar.

O segundo atributo que enfraquece a obra são os personagens. Com exceção do vilão do livro, o ciborgue-empresário-badass Conde Vidian, um dos poucos personagens a fazer a trama minimamente andar, todos os outros são desinteressantes. A capitã do destroier imperial, Sloane, é incompetente e inútil; Skelly, o pesquisador e maníaco por explosivos te irrita tamanha sorte para escapar da morte; a especialista em circuitos de segurança, Zaluna, brilha nos capítulos nos quais suas reflexões pessoais são o foco, mas pouco acrescenta nos demais; Hera cumpre muito menos do que promete no livro todo.

Faltou falar sobre Kanan, mas para isso preciso recorrer ao terceiro aspecto da obra que me incomodou: o roteiro forçado. É claro que Star Wars tem uma série de momentos, até mesmo nos filmes, nos quais o enredo é um pouco forçado para que os mocinhos consigam encontrar a solução para os seus problemas, mas “um novo amanhecer” extrapola qualquer bom-senso nesse sentido. As tropas imperiais, assim como suas naves, bases, veículos, etc, são completamente incapazes de acertar um único tiro, evitar invasões simples, prender fugitivos, etc. Zaluna, a especialista em segurança, consegue burlar quase que qualquer sistema possível e imaginável dentro da trama. E Kanan, nosso protagonista aprendiz de Jedi, se vê em perigo mortal umas 8 vezes durante a história, mas graças ao roteiro, ele sai ileso após 416 páginas tendo recorrido ao uso da Força apenas duas vezes e a suas habilidades com sabre de luz zero vezes.

Isso mesmo: Kanan usa seu sabre de luz um total de zero (0) vezes no livro inteiro. Ele é perseguido por caças TIE – em uma delas ele está numa espécie de ônibus caindo aos pedaços, inclusive – ele entra em confronto com Stormtroopers, luta mano a mano com um big fucking Ciborgue no qual nem mesmo disparos de armas de raio surtem efeito e em NENHUMA dessas situações ele se vê obrigado a usar seu sabre de luz para salvar sua própria pele. Essa atitude, que no início parecia ser um excelente exemplo de cautela e zelo pela própria vida, a partir da metade do livro começa a parecer indicar que o personagem simplesmente sabe que o roteiro vai lhe salvar.

“Um novo amanhecer” é um livro que, para mim, não acrescentou em nada ao meu conhecimento ou simpatia por Star Wars. O livro apresenta um enredo fraco, repetitivo, que por diversas vezes recorre a eventos esquisitos ou mesmo inexplicáveis para fazer a trama andar. Recheado de personagens completamente esquecíveis e quase completamente ausente em ação no estilo Jedi, a primeiras aventura de Kanan e Hera como uma dupla de heróis passa muito longe de impressionar um fã da franquia.

Um novo amanhecer crítica nota

Facebook Comments

Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *