Crítica: “Novos Vingadores – Motim” acerta e erra na mesma medida que a HQ original.

O livro adaptado da HQ de Brian Michael Bendis e David Finch entrega uma boa história, mas que infelizmente comete os mesmos erros da obra original.

Quando uma HQ é adaptada para outra mídia, existe sempre um risco. O roteiro pode não funcionar tão bem na nova mídia. O autor da adaptação pode mexer em elementos fundamentais da obra original e fazer tudo desandar. Ou a história simplesmente pode perder o seu charme especial. “Novos Vingadores – Motim“, estranhamente, não se encaixa em nenhuma dessas situações. A adaptação para livro apresenta mudanças fundamentais no enredo, mas ainda assim mantém os pontos fortes da HQ. Infelizmente, os defeitos também se repetem no livro, impedindo que a obra alcance vôos mais altos.

“Novos Vingadores – Motim” foi publicado em 2016 no Brasil pelos eficientes profissionais da editora Novo Século. O livro é de autoria de Alisa Kwitney. A história tem quase a mesma sinopse da HQ na qual o livro se inspira: quando um blecaute atinge a Balsa, o presídio de segurança máxima para super-criminosos, mais de 80 vilões aproveitam para tentar escapar do complexo. Alguns super-heróis são pegos no foco cruzado e devem lutar para conter o motim. Desse episódio inesperado surge uma parceria que pode resultar na criação dos Novos Vingadores.

A diferença mais contundente entre livro e HQ são esses heróis envolvidos no motim. Enquanto que na HQ o grupo era composto por Capitão América, Homem de Ferro, Homem-Aranha, a Mulher-Aranha, Luke Cage, Wolverine e o misterioso Sentinela, no livro a coisa é diferente. Wolverine e Sentinela dão lugar à Viúva Negra e o Gavião Arqueiro. Provavelmente a troca tenha sido motivada pela popularidade desses dois heróis na atualidade. Independente do motivo, fato é que a Viúva e o Gavião são os dois grandes protagonistas do livro.

A capa do livro. Ela quase não entrega quem são os protagonistas, hein?
Festa estranha com gente esquisita.

O primeiro ato do livro é focado justamente na tentativa de fuga em massa da balsa. Nesse início o leitor é bombardeado de cara com uma sequência alucinante de pancadaria e referências. Diversos vilões são brevemente citados e apresentados. As relações entre eles e os heróis também são mencionadas rapidamente. Os poderes, habilidades e o passado de cada um dos Vingadores também são introduzidos sem demora. Tudo isso é feito de maneira competente pela autora usando poucos parágrafos, ela consegue apresentar dezenas de personagens, ajudando até mesmo um leitor novo da Marvel a se situar no universo da empresa.

A composição dos Novos Vingadores nesse livro foi bem escolhida pela autora. Além de grandes ícones como Homem-Aranha, Capitão América e Homem de Ferro, novatos e desajustados como Luke Cage e Mulher-Aranha também se destacam positivamente. Os heróis interagem de maneira leve e divertida entre si e o livro brilha justamente nesses momentos. A equipe pode até não ter entrosamento em batalhas, mas seus diálogos são excelentes. Por vezes preferimos apenas ler os personagens discutindo entre si do que propriamente lutando contra o crime.

“- Eu o vi lutando, Gavião Arqueiro – Steve disse simplesmente (…) Na época da guerra, eu o teria colocado em minha equipe. Eu poderia enviá-lo a uma missão com apenas o arco e algumas flechas, e você voltaria, confiaria mais em você do que em um pelotão de caras armados até os dentes – Steve fez uma pausa, e o sol nascente coloriu de dourado seus cabelos – as pessoas falam sobre superpoderes, mas alguns caras… algumas garotas, têm algo a mais. (…) E você tem esse algo a mais”.
(Novos Vingadores – Motim, p. 81)

O casal que rouba a cena.

Embora seja um livro dos Vingadores, existem dois protagonistas muito bem definidos na trama. Natasha Romanoff e Clint Barton são os dois personagens principais da história, às vezes fazendo o papel de companheiros, em outras de inimigos, e por vezes até mesmo o de amantes. Ambos os personagens recebem, no livro, uma espécie de “introdução” no universo Marvel: ambos são retratados como novatos na esfera dos Vingadores. Cada um deve se mostrar digno de ser um dos maiores super-heróis da terra. Mesmo sendo eles pessoas de passado e moral bastante questionáveis.

Ainda que eu goste dos dois personagens, senti que às vezes a trama foca demais nos dois. Outros personagens tão interessantes quanto são sub-aproveitados,  tendo pouquíssimo tempo dedicado a eles. Talvez se o livro fosse um pouco mais extenso, esse problema poderia ter sido resolvido. Ainda teríamos a dupla de assassinos com grande destaque, mas ao menos os outros vingadores poderiam ter seus momentos também.

“E de repente as mãos dele estavam enroladas em seus cabelos, e as unhas deles enfiadas nos ombros dele, e ele a beijava com tanta força, que ela sentia fagulhas descendo pela espinha, eletrificando cada centímetro de seu ser. E então estavam lutando novamente, mas dessa vez a raiva havia se transmutado em outra coisa. Ou talvez tivesse sido isso o tempo todo. Eles não eram gentis um com o outro, e nem com eles mesmos, enquanto rolavam no chão duro, tentando arrancar as roupas que formavam uma barreira para um contato mais próximo”.
(Novos Vingadores – Motim, p. 138)

O vilão que não merecíamos.

Lembro que quando terminei de ler a saga que originou o livro, fiquei com a sensação que a história merecia melhores vilões. Ao ler o livro, permanecei com esse feeling. Não revelarei a identidade de nenhum dos antagonistas para não entregar o enredo. Mas mesmo que dissesse o nome, talvez ele não dissesse nada a você, leitor dessa crítica. Isso porque os antagonistas do livro tem pouquíssima relevância dentro do Universo Marvel.

Essa ausência de um antagonista forte se torna ainda mais incômoda porque alguns vilões bem mais famosos e interessantes aparecem de maneira discreta no próprio livro. Vou citar apenas dois: Electro e Kilgrave, o Homem-Púrpura. Quando ambos aparecem, o leitor poder pensar “opa, aí sim temos uma história!”. Mas infelizmente eles ficam de lado e temos que nos contentar com vilões classe B ou C. Parece aquela história de Expectativa x Realidade, aquela que normalmente não nos favorece.

“Jessica começou, mas parou quando Luke deixou escapar um xingamento em voz baixa.
– Homem-Púrpura – ele disse enquanto passavam por uma tela que exibia um belo homem com porte aristocrático por volta de seus trinta anos com um distinto tom violeta de pele. O modo como Luke disse seu nome soou pior do que qualquer explicação que ele poderia ter dado”.
(Novos Vingadores – Motim, p. 38) 

Conclusão

“Novos Vingadores – Motim” é uma adaptação que erra e acerta tanto quanto a obra original. O livro cresce e diverte nos momentos nos quais os Vingadores interagem entre si, mas sente a falta de um antagonista mais forte. Gavião Arqueiro e Viúva Negra levam nas costas boa parte do enredo, uma escolha que tem suas virtudes e defeitos. Ainda que o livro não seja a história mais empolgantes dos Vingadores, vale a leitura.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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