Crítica: Eu sou a Lenda (Livro)

“Um milagre literário”

Antes de começar propriamente a crítica do livro, peço que você, leitor, se imagine agora como um escritor. A sua frente está a página branca do Word – ou a folha de papel mesmo, como preferir – e nela você deve escrever uma história. Mas você não pode escrever uma história qualquer. Nela devem ter, no máximo, 5 personagens. Além disso, toda a trama deve se passar, praticamente, em apenas 1 ambiente. Ah, e o personagem principal não pode ter ninguém com quem dialogar durante 80% do livro. E pra completar, essa sua obra deve tornar-se um ícone do seu gênero, tornando-se tão relevante que mesmo após 60 anos de sua publicação as pessoas continuem-na lendo e exaltando-a. Não parece uma tarefa muito fácil, certo? Pois foi exatamente isso que Richard Matheson conseguiu fazer ao escrever Eu sou a Lenda, um livro do qual sempre ouvi falar bastante e que hoje posso dizer que entendo a excelente fama.

Eu sou a Lenda foi publicado em 1954 e tornou-se tão popular que já recebeu três adaptações diferentes para o cinema: em 1964 recebeu o título de “The Last Man on Earth“, em 1971 retornou às telonas com o nome de “Omega Man” e em 2007 recebeu sua mais atual adaptação, Eu sou a Lenda, estrelado por Will Smith. A edição brasileira do livro é da editora Aleph.

Eu sou a Lenda Livro Capa

A artística capa de Eu sou a Lenda

Apesar do livro ser da década de 50, a história se passa nos anos 70. Robert Neville é o protagonista de uma trama que se passa em um cenário pós-apocalíptico vampírico. A sociedade sucumbiu a essas criaturas e agora Robert (possivelmente) é o último homem normal a viver sobre a terra. Ilhado em sua residência fortificada com tábuas, espelhos, dentes de alho e cruzes, o personagem sobrevive através de uma rotina de remendos em sua casa, precauções contra os hábitos dos seus inimigos e uma boa dose de música e bebida para fazer passar o tempo. Mas passar o resto da eternidade sozinho pode ser um problema ainda maior do que os vampiros do lado de fora.

Com o passar do tempo – e dos capítulos – Robert começa a enfrentar inimigos muito piores que os mortos-vivos. Sua abstinência sexual por vezes tenta impeli-lo a saciar-se com uma das vampiras. Suas explosões de raiva e frustração frequentemente o colocam em situações de autodestruição. O uso abusivo de álcool ameaça sua saúde física e mental. A depressão decorrente da perda de sua mulher e filha para a peste vampírica, além da sua constante solidão, frequentemente o fazem questionar se o suicídio não é uma boa ideia.

Robert Neville não perde a luta em definitivo contra os vampiros durante seu isolamento porque encontra maneiras de manter sua mente ativa e, consequentemente, sã. A partir de determinado momento ele decide começar a investigar, cientificamente, a causa da epidemia vampírica, o que rende a ele – e ao leitor – bastante conhecimento técnico sobre os vetores da doença. Além disso ele promove estudos práticos com os vampiros ao seu redor, utilizando-se de cobaias, estudando o comportamento dos mesmos, testando novas formas de matá-los, etc. Em alguns outros momentos ele cria outras razões para o seu viver, como por exemplo o cachorro que ronda a sua casa. Esses elementos o mantém ocupado e esperançoso de que, no fim de tudo, de alguma forma, triunfará sobre os mortos-vivos.

Percebam que os últimos dois parágrafos que escrevi são bem opostos: o primeiro trata de doenças, distúrbios e traça um cenário pessimista para Neville. O segundo, entretanto, apresenta atitudes tomadas pelo protagonista que o mantém ativo, são e permitem a ele vislumbrar um futuro positivo. Escolhi construir o texto dessa forma porque assim é feita a narrativa do próprio livro: idas e vindas, reviravoltas, momentos de euforia e depressão se alternam e deixam o leitor com a dúvida de qual Robert Neville encontrarão no próxima capítulo. Será o Robert centrado, focado em como acabar com os vampiros ao seu redor, ou o protagonista perdido em lembranças dolorosas de sua família, lentamente tentando acabar com seu próprio sofrimento através da bebida?

É essa alternância de estados de humor e mergulhos profundos na psique de Robert Neville que dá ao livro o seu diferencial. Sabemos que estamos lendo um livro no qual, em 80% do tempo, temos apenas um personagem atuando, mas não sentimos isso porque ele é complexo demais. Quando achamos que entendemos Robert, ele surpreende com um novo plano, uma nova descoberta, um novo flashback que revela outro aspecto de sua personalidade. O livro não perde ritmo nem mesmo durante os capítulos no qual Robert apenas reflete sobre sua vida, porque em cada pensamento há novos questionamentos sobre sua própria vida, sobre o seu passado, sobre o novo mundo ao seu redor, seus inimigos… Não há momento de paz e serenidade para Neville – e nem para o leitor.

Um outro aspecto do livro que me surpreendeu foi o destaque dado aos antagonistas, os vampiros. Por ser um ávido leitor de “The Walking Dead”, outra obra situada em um universo pós-apocalíptico, acabei pressupondo que de forma análoga às HQs de Robert Kirkman, nas quais os zumbis são apenas pano de fundo para a ação, o foco não fosse recair muito pouco sobre as entidades sobrenaturais – no caso do livro, os vampiros. Entretanto, eles são peça fundamental para o enredo. Roberto Neville passa boa parte do seu livro realmente estudando não apenas a biologia dos seus inimigos, mas também a mente dos monstros, seus hábitos quando em grupo, etc. Além disso, seu vizinho Ben Cortman, agora um dos vampiros, torna-se um coadjuvantes da trama, destacando-se como uma das criaturas que Neville aprende a amar odiar (ou odiar amar, não sei ao certo).

Como um livro com um cenário tão restrito (praticamente toda a trama se passa na casa de Neville) e pouquíssimos personagens tornou-se tão importante para o seu gênero? Acredito que a resposta passe por duas palavras: simplicidade e atemporalidade. Quando digo que a história é simples, afirmo isso como um elogio porque é a partir dessa simplicidade que é possível traçar paralelos entre a obra do autor e outras questão. A catástrofe vampírica e a solidão de Neville podem ser comparados ao individualismo do homem moderno, obrigado a confiar apenas em si mesmo, encarando todos a sua volta como inimigos mortais. O cenário traçado também pode ser encarado como uma leitura fantasiosa de um fenômeno mais simples, o de um homem que vê a sociedade ao seu redor transformar-se em um coletivo que ele não entende e do qual não faz parte, obrigando-se a retirar em si mesmo para se defender, como por exemplo, uma pessoa que cresceu em uma época na qual homossexuais não tinham tanto espaço dentro da sociedade e hoje, com as mudanças paradigmáticas em curso, reage com pensamentos e atos homofóbicos a essa nova configuração social emergente (esse é apenas um dos exemplos possíveis).

Uma outra chave para entender o sucesso da obra está em seu caráter atemporal. Não apenas a obra propõe debates como esses que citei acima – e que desafiam o percurso do tempo – mas ela mesma apresenta poucas marcadores que “envelheçam” a obra. No livro é dito que os eventos ocorrem na década de 1970, mas se por acaso trocássemos o período histórico pela década de 1980, 90 ou 2000, por exemplo, não haveria perda significativa do enredo. Isso facilita demais a adaptação da trama para os cinemas, por exemplo, o que explica em parte porque já existiram três filmes relacionados ao livro.

Eu sou a Lenda sempre me foi recomendado como um dos clássicos da literatura fantasiosa e de terror e hoje posso dizer que entendo o porquê. Transformando o “menos” em “mais”, contando uma história simples, atemporal e inesquecível, Richard Matheson transforma Robert Neville sua própria obra em verdadeiras lendas. Recomendo demais a leitura.

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Eu sou a Lenda Crítica nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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