Crítica: “Dívida de Honra” é uma das mais incríveis experiências Star Wars.

A continuação de “Marcas da Guerra” é ainda mais surpreendente, divertido e gostoso de ler. Com certeza um dos melhores livros- se não o melhor – do novo cânone.

Em minha jornada pela vertente literária de Star Wars, vivi muitas aventuras. Já encarei muitas batalhas espaciais e terrestres. Já testemunhei Sith e Jedi em ação. Já acompanhei de perto romances intergalácticos. Já acompanhei dilemas morais, discussões sobre o certo, o errado e o justo. Mas até hoje, até a leitura de “Dívida de Honra“, eu não havia encontrado tudo isso em uma mesma obra. Na continuação de “Marcas da Guerra“, o leitor se depara com uma das mais incríveis experiências Star Wars.

“Dívida de Honra” é o segundo título da trilogia “Aftermath“. O livro foi publicado originalmente em 2016 e chegou ao Brasil em 2017 pelas dedicas e competentes mãos da editora Aleph. Os eventos narrados na trilogia se passam após o episódio VI, momento no qual o Império se encontra em xeque – e pertíssimo do xeque-mate. Em “Marcas da Guerra”, as poucas lideranças sobreviventes do Império foram presas ou eliminadas. A esperança do antigo regime reside na agora Grã-Almirante Rae Sloane e no misterioso Gallius Rax. Enquanto a dupla prepara um contra-ataque, a Nova República tenta reunir os pedaços da galáxia, ainda que muito lentamente. Essa reconstrução passa pela ação precisa do grupo montado por Norra Wexley. Infelizmente, ela não tem o resgate de Han Solo como prioridade.

A vibrante capa de “Dívida de Honra”
Um elenco de primeira

O livro começa com um apelo especial da Princesa e General Leia Organa. Ela pede que Norra Wexley reúna seu grupo de operativos eficientes em uma missão de resgate de seu marido. E quem melhor para procurar um contrabandista desertor do um bando de desajustados? A equipe da Halo é composta por um piloto adolescente rebelde, seu droide maníaco homicida, um ex-agente imperial alcóolatra, uma caçadora de recompensas e um soldado de temperamento explosivo. Ainda assim, eles são a melhor equipe que a Nova República poderia ter.

A trilogia, e especialmente o Dívida de Honra, tem o melhor elenco de personagens que já vi em um produto Star Wars. Todos os personagens da equipe principal são interessantes de se acompanhar. Eles possuem personalidade própria e bem definida. Seus passados são bem construídos, mas ao mesmo tempo ainda dão brechas para futuras novas tramas. Eles apresentam relações humanas e complexas uns com os outros, alternando momentos de amizade, raiva, frustração, desconfiança… E além de tudo isso, cada um acrescenta uma nova perspectiva aos confrontos intergalácticos.

“Brev disse:
– Veja que nave bonita, Galli.
Narrawall, a garota com um olho morto, afastou os lábios rachados, sangrando, e respondeu:
– Não vai ficar bonita por muito tempo. Nada fica bonito por aqui – Ela diz isso com alguma autoridade.
O garoto tinha que ver. Precisava ver a nave bonita antes que Jakku a arruinasse. Antes que os ventos de pedra esfregassem seu casco, antes que o sol lavasse a cor”.
(Star Wars: Dívida de Honra, p. 14)

 

Dilemas e questionamentos existenciais que enriquecem a trama.

Em um livro no qual até os coadjuvantes restritos a 1 capítulo são bem construídos, é difícil definir quem são os melhores personagens. Entretanto, me vejo obrigado a apontar Sinjir e Jas Emari como os grandes destaques. Sinjir é o ex-agente de lealdade imperial que não sabe o que quer fazer da vida. Ele é bom em interrogar e torturar, mas não se sente bem fazendo isso. Ele queria ajudar a Nova República, mas não consegue ser otimista quanto ao novo regime. Ele queria conseguir ser afetuoso e amoroso com seu novo companheiro, mas já se esqueceu como é não ser discreto. Qual o seu papel na galáxia, então?

Jas Emari, por sua vez, é uma caçadora de recompensas com uma enorme dívida que precisa ser paga. Mas ela não sabe se consegue voltar ao seu estilo de vida solitária, com muitas missões e poucos amigos. O grupo de Norra dá a ela um propósito, mas ela tem dúvidas se consegue ser boa nessa nova vida. Pode uma ex-caçadora de recompensas simplesmente tornar-se uma campeã dos fracos e oprimidos?

Do lado dos “vilões”, o destaque continua sendo a Grã-Almirante Sloane. Nesse livro o leitor acompanha muitos dos questionamento da almirante quanto ao seu papel na guerra. Sloane é o rosto do Império Intergaláctico – mas que Império ela quer representar? Ela verdadeiramente acredita no propósito da organização que a representa, mas tem desconfianças do que aquilo está se transformando. Ela ama o se trabalho, ama a sua assistente e sonha com uma galáxia melhor. Mas ao mesmo tempo consegue ver as cicatrizes e falhas no sistema. Eu só citei três personagens e alguns dos seus dilemas. Já deu para perceber que a narrativa é boa, não é?

“- Estou totalmente desnorteado nove em cada dez vezes. Só consigo parecer que estou bem. Eu também não sei o que estou fazendo. Suspeito que, no momento em que eu entender, eu provavelmente morrerei meio segundo depois. Porque, se há alguma energia mística que dá impulso à galáxia, não é a Força. É pura IRONIA e nada mais”
(Sinjir Rath Velus – Star Wars: Dívida de Honra, p. 149)

 

Uma galáxia fragmentada

No plano macro da história, a galáxia está fragmentada. Mas felizmente, não há apenas dois grandes pedaços, mas múltiplos. A velha dicotomia Império x Rebeldes, que marcou a segunda triologia, cai por terra. Piratas percorrem o espaço buscando tornar-se uma força a ser reconhecida na equação do poder intergaláctico. Os misteriosos Acólitos do Além buscam trazer a vingança das trevas aos seus inimigos. Centenas de mundos buscam a paz, o fim dos conflitos, seja através da ajuda da República ou do Império. Bilhões de cidadãos buscam a verdade e a justiça, cada um a seu modo.

E esse é o grande mérito do livro: ele traz muitas perguntas e não indica respostas. O Império não é um monolito malvado: alguns de seus métodos tem suas qualidades  debatidas. Assim como alguns pecados da Nova República começam a ser colocados em evidência. O papel de cada soldado também é posto em questionamento. Quem luta pela Nova República ou pelo Império merece morrer pelo seu posicionamento político? Quando esses indivíduos agem ou se omitem em prol de sua facção, eles tornam-se diretamente responsáveis pela destruição promovida por ela? Não há respostas fáceis, porque não há situações simples: genocídios, espionagem, traições, escravidão, esses são alguns dos elementos expostos e explorados dentro da história.

“Eles saem do Distrito da Verdade e entram no Federal – onde as luzes ainda estão acesas. Ninguém se atreverá a violar esta região, ela suspeita, a menos que queiram enfrentar toda a força do Departamento de Segurança Imperial. Mas, de novo: no fim dos tempos, todas as montanhas desmoronam e sucumbem. Tornam-se colinas, depois pó, e então os ventos as sopram para longe. A maioria das montanhas erode lentamente, mas às vezes uma mudança tectônica pode acelerar sua inevitável destruição. A galáxia está passando por uma mudança dessas”.
(Star Wars: Dívida de Honra, p. 113)

 

O livro brilha dentro do universo expandido

Para os fãs de um universo expandido e crossovers, esse livro traz algumas recompensas. Principalmente nos Interlúdios da obra – capítulos que mostram episódios ocorridos em outros planetas da galáxia – pipocam referências a outros livros, HQs e filmes da franquia. Além das referências óbvias às produções cinematográficas, algumas outras são mais “underground” e, por isso, mais gostosas de se perceber e entender. Ryloth, por exemplo, é citada no livro, assim como Cham Syndulla, o protagonista de Lordes dos Sith. A piloto alderaaniana Evaan também aparece nessa obra, a mesma companheira da General Organa na HQ “Princesa Leia”. Essas e outras referências valorizam a imersão do leitor no universo expandido da franquia.

Conclusão

“Dívida de Honra” é um dos melhores livros de Star Wars que li até agora – se não o melhor deles. O elenco de personagens é único e o melhor que já encontrei em um produto da franquia. As tramas macro e micro são igualmente interessantes e recheadas de questionamentos existenciais e éticos. A narrativa oferece reviravoltas surpreendentes e que deixam o leitor ansioso para o seu desfecho. Estou ansioso pelo próximo livro que concluirá essa excelente triologia.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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