Crítica: Dias de um futuro esquecido (Livro)

“Cauteloso e comum”

Certa vez um grande homem disse que “o medo de perder às vezes nos tira a vontade de ganhar”. Creio que tenha sido Wanderlei Luxemburgo. Brincadeiras à parte, algumas obras deixam de alcançar todo o seu potencial pelo receio dos autores em acabar se perdendo no processo. Quando estamos falando então de uma adaptação de um conteúdo para outra mídia, esse receio tende a aumentar, pois qualquer ligeira mudança mal feita pode acarretar em reclamações dos fãs da obra original. Acredito que esse seja a grande falha do livro “X-Men: dias de um futuro esquecido”: o medo de ousar tornou a obra simplesmente mediana em qualidade.

“X-Men: dias de um futuro esquecido” é um livro escrito por Alex Irvine e adaptado do famoso arco homônimo de histórias dos nossos mutantes favoritos, arco esse publicado no longínquo ano de 1981.  O livro foi publicado no Brasil em 2016 pela editora Novo Século e traz a mesma sinopse da trama original: em um futuro distópico, os Sentinelas dominaram os Estados Unidos e praticamente exterminaram a raça mutante. Os poucos sobreviventes vivem em campos de concentração e são proibidos de usarem os poderes. Mas um pequeno grupo de sobreviventes rebeldes traça um audacioso plano: enviar a consciência de Kitty Pryde (ou Kate Pryde, ou Lince Negra, como preferir) para o futuro, muitos anos antes, a fim de evitar um evento crucial para a derrocada dos X-Men e de todos os mutantes.

X-men Dias de um futuro esquecido Livro capa

Capa do livro publicado pela Novo Século

Mas não é só na sinopse que o livro se iguala ao quadrinho e infelizmente é nesse ponto que diagnostico o principal problema da obra. O livro ficou tão fiel à obra original que ao final do mesmo fiquei com a sensação de que não precisava ter lido a adaptação. Poucos são os momentos no qual o autor se aprofunda nas reflexões dos personagens ou tenta explorar elementos da maneira que a narrativa de um livro permite e que a HQ não era capaz. Quando Irvine se dá essa chance, a história cresce: posso citar como exemplo um dos capítulos de Magneto, no qual o autor nos dá um vislumbre da mente do já velho e debilitado mutante e dos desafios que ele enfrenta, físicos e psicológicos, para utilizar seus poderes em prol da rebelião mutante. É uma pena que esses momentos sejam raros dentro da história.

” – Nunca mais – disse Magneto, e os deixou cair.
Ele saiu flutuando por sobre o pátio devastado do campo. Viu o que tinha feito e achou bom. O trabalho, contudo, ainda não estava completo. E quanto mais tempo ficasse ali, mais Sentinelas viriam.
O edifício Baxter, pensou. Talvez eu não consiga andar. Talvez não ande nunca mais.
Mas agora, mais uma vez, podia voar”.
(página 121). 

Quando digo que faltou ousadia para ir além do quadrinho original, acho até que uma atualização da história seria muito boa para o livro. Vou explicar: a HQ original é de 1981, um tempo no qual as histórias em quadrinho de super-heróis eram um pouco mais “inocentes” do que hoje. Isso explica, ao meu ver, furos na história, como por exemplo, Sentinelas que dominaram o mundo e subjugam dezenas de mutantes serem facilmente picotados pelas garras do Wolverine. Ou serem afetados diretamente pelos poderes de Magneto. Ok gente, eu sei que eles são poderosos e são os mocinhos da história, então qualquer vantagem é bem-vinda, mas fica a dúvida de como os X-Men perderam para esses robôs, afinal de contas. Olhem o filme, lançado em 2014, adaptado da mesma história: lá, os sentinelas são máquinas de destruição, impiedosos, se adaptam às habilidades mutantes e matam os seus inimigos sem nenhum desenrolo. Os do livro se limitam a dar avisos e tiros ocasionais nos mutantes. A história soa falsa, entendem?

Para que não fique a impressão de que o livro é ruim, o fato dele ser fiel à história original o torna uma boa leitura para qualquer fã dos mutantes mais famosos da Marvel. A luta em duas linhas do tempo diferentes pela sobrevivência, o dilema mutante de proteger os humanos que tanto os rejeitam, a tentativa dos X-Men de seguir o caminho de paz de Xavier mesmo que a alternativa reacionária de Mística e Magneto seja tentadora… Esses elementos são interessantes, dão profundida à história e tornam o livro uma autêntica leitura de X-Men.

“A câmara estava lotada, como sempre acontecia em audiências sobre questões que provocam agitadores. Audiências sobre política eram conduzidas perante plateias aborrecidas de repórteres e politiqueiros. Mas bastava mudar o tópico para problemas sociais, e bocudos largavam de lado sua carpintaria para entupir a galeria e interromper os procedimentos com slogans ensaiados”
(página 127). 

“X-Men: dias de um futuro esquecido” é um bom livro que poderia ter sido excelente com um pouco mais de ambição. Caso o autor tivesse expandido um pouco a história, principalmente através da elaboração dos pontos de vista dos personagens envolvidos – como acontece no livro de Guerra Civil, por exemplo – teríamos uma releitura brilhante de um arco clássico em mãos. Mas pelo medo de errar, temos uma adaptação fiel que pouco acrescenta ao original.

X-men Dias de um futuro esquecido Crítica nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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