Crítica: Apesar de algumas apostas ruins ,”Cidade dos Etéreos” encanta e empolga.

A continuação de “O Orfanato da Srta. Peregrine” gasta muito tempo com perseguições e confrontos insossos, mas expande o universo e a trama de maneira satisfatória.

O segundo livro de uma trilogia costuma ser o mais fraco, a meu ver. Imagino que seja complicado, para o autor, escrever uma continuação. Você não pode repetir a mesma fórmula na íntegra: a história precisa avançar e se complexificar. Ao mesmo tempo, algumas cartas tem de ser mantidas na manga para a conclusão da trama. O que fazer então no segundo ato? Em “Cidade dos Etéreos“, continuação de “Orfanato da Srta. Peregrine“, Ransom Riggs tira as crianças peculiares de sua zona de conforto e as joga em rota de colisão com os Acólitos. Embora muitas das correrias, confrontos e batalhas tenham sido desnecessárias, o livro consegue expandir o universo da franquia, encantar com algumas revelações e surpreender com dois gigantescos plot-twists. 

“Cidade dos Etéreos” foi publicado originalmente em 2014, mas só chegou ao Brasil em 2016, em uma bonita edição da editora Intrínseca. O livro continua a saga de Jacob Portman, Emma Bloom e as outras crianças peculiares em sua busca por sobrevivência. Mas dessa vez eles tem um novo desafio: encontrar as Ymbrines aprisionadas e descobrir uma forma de fazer com que a Srta. Peregrine retorne a sua forma humana. Isso enquanto um exército de Acólitos tenta prendê-los e diversos Etéreos querem comê-los. Está desafiador o suficiente para você?

A intrigante capa do livro
Um novo mundo, novos poderes e novos desafios.

O primeiro livro tem como praticamente único cenário a ilha Cairnholm e a fenda temporal da Srta. Peregrine. Na continuação, por sua vez, o mundo todo é o campo de batalha entre Peculiares e Acólitos. Em sua jornada, as crianças atravessam a Inglaterra por diferentes épocas, se enfurnando nos mais remotos lugares e conhecendo as mais distintas pessoas e criaturas.

“Cidade dos Etéreos” também marca a evolução do personagem de Jacob. Não apenas a sua percepção sobre o mundo peculiar, seu avô e si mesmo muda, mas até mesmo seus poderes. Gradualmente ele começa a entender o que é capaz de fazer e como o seu papel da jornada das crianças pode ser crucial para a sobrevivência delas. As outras crianças também conseguem, cada uma a sua maneira e em determinado momento, empregar seus poderes de maneira inovadora e em prol da missão. A exceção é Enoch, coadjuvante de luxo da trama.

“Eu nunca tinha conhecido alguém com tanta confiança quanto Emma. Tudo nela exalava isso: a postura, com os ombros jogados para trás; os dentes cerrados quando ela tomava alguma decisão; o modo como terminava cada frase com um ponto final, nunca com um ponto de interrogação. Era contagiante, e eu adorava”
(Cidade dos Etéreos)

Uma história cada vez mais peculiar

Mas não apenas os personagens evoluem nesse livro. O próprio universo ganha mais corpo, se complexifica. o background é melhor explorado nessa continuação, especialmente a organização do mundo fantástico no qual a trama se insere. O leitor começa a ter contato com a história da sociedade peculiar, explora-se com mais detalhes o que torna esses seres tão especiais e qual o papel das Ymbrines no contexto maior.

Mas a grande sacada do livro é introduzir os “Contos Peculiares“. A obra retratada dentro do livro é um compilado de fábulas e histórias passadas de geração em geração entre os peculiares. Mas esses contos não são apenas historinhas para dormir: elas contém informações secretas valiosas que podem garantir a sobrevivência das crianças peculiares! Além de tornar-se um recurso interessante para a narrativa, os Contos Peculiares tornaram-se um elemento maior dentro da franquia. Não à toa o livro foi escrito e publicado como uma obra pertencente ao mesmo universo.

” – ‘Este lugar está morrendo’, dizia a Srta. Wren
– Addison afinou a voz, imitando-a –
‘E eu não passo de uma supervisora desse extenso funeral’ ”
(Cidade dos Etéreos) 

A ação que cansa

O grande problema do livro, a meu ver, está nas sequências de ação. Principalmente as duas primeiras partes da narrativa estão repletas de correria, planos de fuga, luta contra Etéreos, embates com Acólitos, etc. A questão é que esse não parece ser o ponto forte da escrita do autor. Essas sequências não são muito bem detalhadas. Além disso, claramente Ransom Riggs faz com que alguns personagens tenham suas ações limitadas nesses conflitos. O maior exemplo é Emma: como que alguém com poderes de fogo não consegue ao menos disputar com um Etéreo na mano-a-mano?

Essa escolha por uma narrativa mais “frenética” também torna-se um incômodo porque diverge muito do que vimos no primeiro livro. Por vezes o leitor tem vontade de explorar o universo, entender melhor como funciona a sociedade peculiar ou aprender mais sobre a história ou os contos, mas se vê obrigado a acompanhar o desfecho de uma perseguição de um Etéreo às crianças. Embora gostemos de ação, lutinhas, etc, fica a sensação de que não foi para isso que viemos aqui.

“Emma deu de ombros.
– A habilidade de Horace pode ser enlouquecedoramente inútil. Ele desanda a falar de previsões da vida inteira de estranhos, mas com a gente seu poder é quase inteiramente bloqueado. Acho que quanto mais ele gosta da pessoa, menos consegue ver. A emoção turva a visão.
– Não é assim com todo mundo? – indagou uma voz às suas costas. Quando nos viramos, demos com Enoch ali parado.”
(Cidade dos Etéreos)

Conclusão

“Cidade dos Etéreos” é uma boa continuação para o “Orfanato da Srta. Peregrine”. Ainda que a aposta em muitas sequências de ação seja duvidosa, a exploração do universo e evolução da trama são muito bem-vindos. E que venha a “Biblioteca das Almas”, obra que conclui essa trilogia bastante peculiar. Abraços!

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Confira a nossa crítica do primeiro livro da trilogia: http://drophour.com.br/critica/critica-o-orfanato-da-srta-peregrine-para-criancas-peculiares/

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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