Crítica: “1Q84” (Livro 1) marca o início de uma história densa e imprevisível.

No primeiro livro de sua trilogia, Haruki Murakami apresenta ao leitor o seu jeito peculiar de contar uma história imprevisível.

Ler é um dos meus maiores prazeres. Adoro pegar um livro (seja físico ou digital) e me surpreender com o mundo que irei encontrar. Muitas vezes me deparo com uma boa experiência. Em outras, infelizmente sou obrigado a abandonar uma péssima história. E em alguns poucos, mas memoráveis casos, tenho dificuldade de avaliar o que encontrei. O primeiro livro da trilogia “1Q84” se encaixa nessa categoria. Em alguns momentos, me peguei entediado durante a leitura. Em outros, fui obrigado a reconhecer a genialidade do autor. No geral, fiquei muito feliz em ter tido a oportunidade de ler uma obra tão densa e contada de uma maneira tão peculiar.

“1Q84” é uma trilogia do escritor japonês Haruki Murakami. Publicada originalmente entre 2009 e 2011, o primeiro livro chegou ao Brasil em 2012 através da editora Alfaguara. A história gira em torno de dois personagens que, a um primeiro olhar, nada tem em comum. Aomame é uma mulher misteriosa, sensual e decidida, com um emprego um tanto quanto incomum e perigoso. Tengo, por sua vez, é um jovem escritor com a missão de reescrever um livro e torná-lo um bestseller. As duas tramas são contadas de maneira intercalada e, aos poucos, começam a se cruzar. A trama se passa no longínquo ano de 1984, em Tóquio – ou seria no ano de 1Q84?

A bonita capa do livro
Devagar e sempre

Já nos primeiros capítulos é possível sentir o estilo de escrita de Murakami. Se eu tivesse que defini-lo em uma frase simples, seria “devagar e sempre”. Haruki quer lhe contar uma história. E essa história tem muitos detalhes, muitas nuances, elementos com maior ou menor importância, mas que ele faz questão que você conheça. Seus personagens, especialmente os protagonistas, são tão aprofundados que até o último capítulo do livro ainda estamos aprendendo sobre eles.

E além dessa profundidade e detalhismo, Murakami ainda adota um ritmo próprio diferente do que estamos acostumados. Consumimos muitos filmes hollywoodianos e outros produtos baseados na fórmula ação/reação. Uma crise acontece; busca-se uma resolução; ela ocorre e tudo volta ao normal. Imediatamente parte-se para a próxima cena/ato/aventura e a vida continua. Em 1Q84, a coisa é diferente. O autor quer lhe contar essa história, mas não tem pressa nenhuma em fazê-lo. Fatos ou diálogos sem menor relevância são colocados na narrativa sem nenhum pudor ou medo de tornar a história mais lenta. Os momentos cruciais são colocados aqui e ali, sem aviso prévio. Se esse livro fosse um filme de terror, não haveria o silêncio programado antes do grito ensurdecedor: simplesmente tomaríamos o susto, sem estarmos preparados.

Um quebra-cabeça confuso e imprevisível

Muitas obras seguem uma fórmula de narrativa próxima a do quebra-cabeça. Muitos fatos e/ou personagens são jogados na narrativa de forma aleatória no início. Com o tempo, essas pequenas peças vão se encaixando e antes do fim já vislumbramos o desenho formado pelo quebra-cabeça. No fim, a paisagem completa pouco difere do que imaginamos que seria. Em 1Q84, a narrativa não é tão previsível – nem mesmo linear. Murakami aos poucos vai te dando as peças do quebra-cabeça, mas o leitor não tem ideia de como elas vão se encaixar.

Mesmo que as histórias de Aomame e Tengo comecem, com o tempo, a se cruzar, o “desenho” final permanece disforme. Alguns elementos se repetem e muitas vezes sentimos que as peças começam a indicar alguma figura conhecida. Mas no capítulo seguinte uma nova peça, com um formato totalmente diferente, bagunça nossas ideias. Ao fim do primeiro livro, minha imaginação ferve com inúmeras hipóteses e teorias, mas ainda tenho dificuldade em vislumbrar a paisagem final.

Uma escrita sem pudores

1Q84 não é uma história para crianças. Em praticamente todo capítulo, Murakami praticamente berra isso ao leitor. O autor não economiza em descrições de órgãos e atos sexuais, crimes hediondos, dentre outros tópicos mais “pesados”. Além disso, suas personagens apresentam comportamentos pouco convencionais, que podem chocar os mais conservadores ou puritanos. Mulheres procurando e desfrutando de sexo casual com estranhos é recorrente no livro. Homens praticando atos abusivos contra namoradas e esposas também. Não é um livro para amadores, definitivamente.

Infelizmente, com relação a esse tópico, algo me incomodou. Por vezes o autor escolhe se repetir em descrições e reflexões desagradáveis. Darei um exemplo: Tengo com frequência observa (mentalmente ou explicitamente) que a escritora do bestseller, Fukaeri, tem seios grandes e bonitos. É bom que se diga que, dentro da narrativa, existe uma lógica para esse seu comportamento. O problema é que essas descrições ou observações são MUITO recorrentes. Se daqui a 10 anos eu esquecer quase tudo que li desse livro, tenho certeza de que acabarei lembrando que essa personagem tinha seios grandes. Esse é o problema, a meu ver: o foco sobre a personagem acaba sendo transferido para um elemento secundário.

Conclusão

O primeiro livro da trilogia “1Q84” é único, é denso e oferece ao leitor uma narrativa complexa e apaixonante. Ainda que o seu ritmo lento e o excesso de detalhes possa parecer um problema, o talento do autor está justamente em seu estilo de contar histórias. Fiquei empolgado para continuar acompanhando as aventuras Aomame e Tengo.

Curta a nossa fanpage! https://www.facebook.com/realdrophour/

Se você se interessou pelo livro, confira a oferta que a Amazon tem preparada para você: http://amzn.to/2gZz4je

Facebook Comments

Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *