Crítica: 007 Goldfinger (Livro)

“Um James Bond diferente do qual a minha geração se acostumou a ver – e preso ao seu tempo”

Uma das minhas lembranças mais vívidas da minha infância é a de olhar para a estante de filmes da minha casa e ficar fascinado pela coleção de VHS (!) de 007 do meu pai. A lombada das capas das fitas faziam um desenho: a clássica posição de tiro do agente secreto, marca registrada de seus filmes. Meu pai sempre foi e continuando sendo fã da franquia: todo novo 007 lançado é devidamente adquirido, assistido e avaliado por ele.

Eu, sendo bem mais novo que ele, não posso dizer que assisti todos e com certeza não gostei de 100% dos que assisti. Só os com Pierce Brosnan e Daniel Craig me agradaram, e ainda assim alguns mais do que outros. Mesmo assim, sempre tive a curiosidade de ler um dos livros que originaram a franquia e deram base para a sequência de filmes. Queria saber se as obras do inglês Ian Flemming (autor de 007) realmente eram tão boas a ponto de justificar o sucesso da franquia. Esse ano finalmente pude matar essa curiosidade: comprei o e-book de “Goldfinger“, devorei em 3 dias e hoje posso dizer que entendo o sucesso, mas não também entendo que o James Bond original é um homem preso ao seu tempo – e que pro bem de nossa sociedade, deveria ficar por lá.

A capa do livro “Goldfinger”

“Goldfinger”, o livro, foi publicado em 1959 – nem meu pai era nascido ainda, de tão velho que é esse negócio. O nome do livro se dá a partir do nome do antagonista do mesmo. Audric Goldfinger é um empresário/gangster/esquisitão obcecado por ouro e que fez maior parte de sua fortuna milionária graças a diversos negócios – alguns legais, outros nem tanto – envolvendo a substância. James Bond acaba cruzando com Goldfinger em diferentes momentos, até que ele torna-se oficialmente sua missão: 007 deve investigar de que maneira ele tem surrupiado ouro da coroa britânica e levá-lo à justiça por isso.

É interessante que durante toda a leitura do livro eu senti um certo estranhamento com o personagem de James Bond e com a própria narrativa. Novamente eu lembro que só acompanhei a franquia fielmente a partir dos filmes de Pierce Brosnan. Mais recentemente Daniel Craig tornou-se o ator principal da franquia e houve algumas alterações no formato dos filmes. Os longas estrelados por Craig tem alguns elementos em comum: muitas cenas de ação, todas rápidas e com muita ênfase em combates corporais, menor destaque às chamadas “Bond Girls“, uma construção mais detalhada do comportamento de 007, mais detalhes sobre seu passado, dentre outros. Lendo “Goldfinger”, percebi que no livro praticamente não temos nada disso.

Só para vocês terem uma ideia – e me perdoem se isso é um pequeno spoiler – Bond não dispara um só tiro o livro todo. O 007 de Goldfinger é muito mais um agente secreto do que um agente com licença para espancar, correr, pular e claro, matar. No livro, Bond é obrigado a realizar truques de espionagem, desvendar trapaças dos vilões, usar de artifícios para escapar de armadilhas, etc. A violência física é pouca e os confrontos armados quase nulos: há muito mais bate-papo com os vilões do que qualquer outra coisa.

É curioso perceber também como que os personagens do livro são praticamente bidimensionais. Quase todos podem ser resumidos em dois adjetivos simples sem haver injustiças. Oddjob, o capanga de Goldfinger e clássico vilão de 007, é forte e mau. Tilly Masterson, a bond-girl do livro, é fria e sensual. Goldfinger é ganancioso e cruel. Bond é esperto e eficiente. Ainda que por vezes o autor se ponha a fazer reflexões sobre o comportamento das personagens – especialmente do vilão – elas são sempre rasas e raramente mexem com os arquétipos pré-definidos. Quem é mocinho é mocinho e pronto, o vilão é mau porque é e segue o jogo.

“O Sr. Goldfinger estendeu a mão: ‘É um prazer, senhor Bond’. Bond apertou a mão. Era dura e seca. Depois de uma ligeira pressão, retirou-se. Por um momento, os olhos claros, azul-porcelana do sr. Goldfinger deram um olhar fixo e duro para Bond. Perscrutaram seu rosto até a nuca. Em seguida as pálpebras caíram, o obturador de raios X fechou, e o sr. Goldfinger pegou a chapa exposta e arquivou-a no seu cérebro”

(007 Goldfinger)

Ai você deve estar se perguntando “ok, ele só está falando mal do livro, então porque disse que entende o sucesso da obra?”. Porque imagino que se eu fosse um leitor, homem, da década de 50, provavelmente acharia 007 o máximo. James Bond é um agente secreto com licença para matar – o que por si só já torna sua personagem no mínimo interessante – que se envolve em diversas missões perigosas e escapa ileso delas graças a sua sagacidade. Ele tem dinheiro, frequenta lugares lindos, contracena com pessoas podres de ricas, bebe todo tipo de drink caro, dorme em hotéis, dirige carros de luxo e transa com diversas mulheres maravilhosas. O que mais um homem da década de 50 – e que provavelmente não levava essa vida – poderia querer em um protagonista? Imagino que havia uma projeção muito forte acontecendo: o leitor lia as aventuras de 007 para poder se imaginar naquela vida.

E aí eu chego no meu segundo ponto principal dentro desse texto: o James Bond de “Goldfinger” é um personagem preso ao seu tempo. É constrangedor e até revoltante se deparar com tantos preconceitos e discursos machistas durante a leitura. O agente secreto abertamente ofende os coreanos, alegando que esses são desonestos, cruéis, e constantemente chama Oddjob – que é coreano – de “macaco”. Todas as personagens femininas do livro tem sua beleza descrita em detalhes, com direito à menção a tamanho de seios e bunda, além de diversos momentos nos quais elas são colocadas na narrativas em situações sexualmente sugestivas (existe uma determinada cena na qual uma das mulheres está apenas de lingerie e permanece assim até o final sem nenhuma lógica aparente). Isso sem falar dos comentários preconceituosos com mulheres lésbicas e questionamentos do próprio Bond sobre as “qualidades” e “instintos” femininos. É melhor colocar trechos do livro e deixar que você tire suas próprias conclusões.

“As mulheres, com seu jeitinho, eram boas em coisas que exigiam finesse. O instinto lhes dizia o que fazer. Bond não precisava se preocupar com ela” 

“Como resultado de cinquenta anos de emancipação, as qualidades femininas estavam se extinguindo ou se transferindo para os homens. Havia invertidos de ambos os sexos em tudo que é lugar, que sem serem completamente homossexuais, e sim confusos, não sabiam o que eram. O resultado era um rebanho de inadaptados sexuais infelizes – estéreis, cheios de frustrações, as mulheres querendo dominar e os homens querendo ser paparicados. Dava pena, mas não tinha tempo a perder com eles” . 

(007 Goldfinger)

E quanto mais me deparava com trechos e discursos como esses, maior estranhamento eles me causavam. E nesses momentos eu percebia a enorme distância temporal e paradigmática entre mim e o livro. Em 1959, esses discursos eram válidos e provavelmente faziam parte do senso comum vigente. Hoje, um livro com esses elementos pode ser lançado e certamente ainda terá algum público (infelizmente) mas certamente encontrará uma resistência de boa parcela da população. No cinema, então, dificilmente veríamos um Daniel Craig interpretar um Bond com tantos preconceitos, porque provavelmente o estúdio não iria querer comprar uma briga com sua audiência.

Fazendo todas essas ressalvas, é justo dizer que esse é um bom livro. A trama é envolvente e te deixa ansioso para saber como aquela cena vai terminar, os duelos entre Bond e Goldfinger são diversificados e interessantes, a história envolvendo o contrabando de ouro e o grande golpe planejado pelo vilão são bem detalhados… Eu realmente consigo entender como esse livro fez sucesso em 1959 a ponto de originar um filme, lançado em 1964. Mas imagino que, atualmente, se fosse lançado nesses contornos, recebia uma enxurrada de críticas negativas – e todas elas merecidíssimas, diga-se de passagem. “Goldfinger”, para os padrões da década de 50, é excelente. Para os padrões atuais, é um alívio, porque fica nítido o quanto melhoramos, ainda que um pouquinho só, enquanto sociedade.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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