Cinco jogos que poderiam ser adaptados para livros

“É tanta história para contar que, às vezes, não cabe tudo no jogo”.

Você, jogador, ao terminar um game já ficou com a sensação de que queria permanecer naquele mesmo universo criado só mais um pouquinho? Quem sabe ouvir mais alguns diálogos entre as personagens ou enxergar alguns eventos da campanha por outras perspectivas? Alguns jogos conseguem despertar esse desejo em nós de imergir cada vez mais na história criada por ele. Esses títulos, a meu ver, poderiam muito bem se valer de uma adaptação para outra mídia: os livros.

É claro que toda adaptação de história entre diferentes mídias é um processo difícil: esse transporte pressupõe adaptações também à própria natureza dos meios de comunicação e isso acarreta em cortes, perdas de elementos da obra original. Adaptar um game para um livro significa abrir mão não apenas dos gráficos, da construção visual de ambientes e personagens, mas principalmente da jogabilidade. Por mais que um livro possa oferecer leituras variadas, com escolhas de enredo e finais alternativos, o transporte da experiência do jogo para um título literário pressupõe um “engessamento” natural da narrativa. Entretanto, alguns jogos possuem uma história tão bem escrita, personagens complexos a serem desenvolvidos, uma proposta rica e criativa de cenário que os livros podem sim contribuir para nos fazer explorar ainda mais a riqueza desses universos.

Sem mais delongas, vamos a minha singela lista de jogos que poderiam muito bem receber uma adaptação para livros:

1. The Legend of Zelda: Majora’s Mask (N64/WII/WIIU/3DS)

O trailer da versão de 3DS do game: mais bonita e mais sombria do que nunca

Não, eu não acho a história de “Majora’s Mask” melhor que a de “Ocarina of Time” e tampouco o considero um melhor game, como um todo, que o seu brilhante antecessor. Então porque entrou o Majora’s Mask nessa lista e não o Ocarina of Time? Por dois motivos: o primeiro deles é o número de elementos da narrativa que permaneceram inexplorados pelo game. Qual a história por trás da Majora’s Mask? Como se dava a relação entre o Skull Kid e a máscara até os momentos finais do game (ele ouvia vozes na cabeça dele incentivando-o a fazer suas travessuras, por exemplo?). Como se originou a Fierce Deity Mask? Como Link lida com a sequência interminável de três dias que é obrigado a viver? Mesmo que a Nintendo já tenha dado dicas de background para o game e o próprio mangá de Majora’s Mask tenha oferecido outras possíveis respostas, seria ótimo poder ler – e devorar – um livro que explorasse esses pontos que permanecem em aberto após zerarmos.

O segundo motivo, ao meu ver, que torna o MM um candidato até melhor do que o OoT a adaptação para um livro é sua ambientação mais sinistra. Ocarina of Time é a saga do herói em sua essência: o valente guerreiro, o vilão malvado, a princesa a ser salva, o reino em perigo, a fonte de poder que dá ao herói a capacidade de salvar o mundo… esses são elementos presentes em milhões de outras narrativas. Agora vejamos Majora’s Mask. Coisas estranhas acontecem em Termina, o reino ameaçado pela queda iminente de sua lua. Um Deku morre petrificado; um Goron é assassinado e seu fantasma tenta desesperadamente salvar seus parentes do frio avassalador; um Zora agoniza na sua frente e pede, antes de morrer, que você proteja quem ele ama. Enquanto isso, Link vive um ciclo de três dias nos quais tem de resolver uma série de problemas de desconhecidos, arranjar um jeito de derrotar monstros e ainda evitar o apocalipse de Termina ocasionado por um velho amigo possuído pelo ritmo ragatanga por uma máscara caótica. E no final de tudo isso, você chega a conclusão de que muitos que foram salvos não irão te dar crédito porque não se lembram de ter vivido com você, pois só você lembra das suas aventuras em outros ciclos. Isso não é um excelente material para começar um livro?

2. Life is Strange (PS3/PS4, XBOX360/XBOXONE, PC)

Talentos de Max Caulfield: viajar no tempo, fotografar e se meter em confusão. 

É estranho pensar que um jogo no qual suas escolhas são decisivas possa tornar-se um livro. Mas, como o título do jogo sugere, a vida é estranha mesmo (desculpa pela piada, galera). Falando sério agora, “Life is Strange” é um game que impressiona tanto pela história criada quanto pelo cenário visual no qual a história se passa. Max Caulfield, uma jovem estudante e fotógrafa descobre, um belo dia, que tem o poder de voltar no tempo alguns minutos e assim reviver algumas cenas, fazendo diferentes escolhas nesse processo. Com essa nova habilidade, ela deve desvendar um desaparecimento ocorrido em sua faculdade, ajudar os amigos, prejudicar os valentões e, ainda por cima, evitar um desastre natural. Na narrativa do game suas escolhas são essenciais para escrever a história, entretanto, a habilidade de Max permite que o jogador observe as consequências mais imediatas de cada escolha feita. Logo, o jogador consegue saber qual a reação de cada personagem a diferentes opções de diálogos, por exemplo. Por isso, a meu ver, a adaptação para o livro não tiraria a qualidade da história original, pois só o que aconteceria seria a oficialização de uma timeline – ou não, já que é possível, em um livro, oferecer capítulos apresentados diferentes desfechos.

Sobre os elementos visuais que enriquecem o game, obviamente a adaptação para o livro acarretaria em uma perda grande de qualidade. Entretanto, uma alternativa bacana para a construção do livro seria a inserção de fotos entre capítulos que retratem momentos da história. Além de proporcionar descrições visuais de personagens e cenário, esse recurso da inserção de fotos durante o livro é uma forma legal de nos apegarmos ainda mais a Max: já que ela é uma fotógrafa apaixonada, nada melhor do que vermos a história ser contada pelas palavras e lentes dela, certo?

3. Fire Emblem: Fates (3DS)

Escolha o seu caminho – e, quem sabe, até mesmo o seu livro favorito. 

Fire Emblem: Fates” não é exatamente 1 jogo, mas sim 3: “Conquest”, “Birthright” e “Revelations” são três versões distintas de um mesmo jogo da franquia que oferecem jogabilidade ligeiramente distintas mas, principalmente, história bem diversas. O enredo inicial une todos os games: você é Corrin, um príncipe (ou princesa) do reino de Nhor, eterno inimigo do reino de Hoshido. Em um belo dia, em meio à guerra, Corrin descobre que, na verdade, é um príncipe (ou princesa) de Hoshido: o rei de Nhor o/a sequestrou quando ainda era um bebê. No campo de batalha, cabe à Corrin decidir: lutará por seus irmãos de criação e, portanto, pelo exército de Nhor; se unirá a sua família de sangue nas fileiras de Hoshido; ou Corrin deverá tentar seguir seu próprio caminho? A riqueza da história de “Fire Emblem: Fates” está, ao meu ver, justamente nesse dilema entre família, dever e honra (Casa Tully na veia). Todo o jogo propõe debates éticos e morais sobre o caminho que Corrin deve seguir em meio à guerra na qual Nhor e Hoshido se inserem. Em qualquer caminho escolhido pela protagonista, pessoas irão se decepcionar e, provavelmente, irão morrer. O que é o mais correto a se fazer nesse cenário?

Ao meu ver, o melhor jeito de transportar a narrativa do game para os livros seria a publicação de três livros diferentes. Cada um deles exploraria uma timeline na qual Corrin fez uma escolha distinta – assim como os jogos fazem. A vantagem dessa estratégia seria inserir diferentes perspectivas para uma mesma história – às vezes até os mesmos eventos! No livro no qual Corrin decide se unir à sua famíia de sangue, poderíamos acompanhar algumas batalhas pelo olhar de Ryoma, o príncipe de Hoshido; no livro no qual Corrin se mantém fiel à coroa de Nhor, Xander poderia nos fornecer uma perspectiva diferente. Cada livro teria finais distintos, até mesmo relacionamentos amorosos diferentes – é bom lembrar que casamentos são um elemento importante de Fire Emblem. Acompanhei a trajetória de Corrin três vezes e adoraria ler novamente sua história mais três.

4. Grand Theft Auto: San Andreas (PS2/PS3, XBOX360/XBOXONE, PC)

O trailer mais antigo da lista, mas na moral… que trailer, que jogo! E se tudo der certo… que livro!

Dizer que a franquia GTA possui excelentes histórias para os seus games pode ser uma surpresa para aqueles adeptos da jogabilidade pobre de apenas andar por ai, colocar cheats e cometer crimes aleatoriamente. Costumo alertar essas pessoas, sempre que posso, do desperdício que elas cometem ao escolher ignorar a história de “GTA: San Andreas”, por exemplo. Carl Johnson (mais conhecido como CJ) é o protagonista do game. A história começa quando ele retorna de Libert City (Nova York, na real) para o enterro de sua mãe, em Los Santos (Los Angeles, na prática). Em San Andreas ele reencontra sua família, amigos e um cenário bastante conturbado: a guerra de gangues está mais acirrada do que nunca, e a Grove Street Families (sua gangue) está em maus lençóis. Além disso, o policial corrupto Tempenny está constantemente no seu pé obrigando-o a fazer certos favores para ele. Cabe à CJ a sobreviver nessa guerra civil, à epidemia de drogas, às ciladas de Tempenny e às traições de amigos próximos. A história dessa game é baseada em eventos reais ocorridos na década de 90 em São Francisco e adição de personagens ricos como CJ e Tempenny, além de eventos espetaculares (com direito a perseguições de carro, moto e barco e assaltos a cassinos) tornam o game um ótimo candidato à adaptação para um livro.

Uma sugestão que faria a quem fosse escrever essa adaptação seria explorar alguns pontos do enredo que, no game, acabam ficando em segundo plano pela natureza da mídia. No jogo, até mesmo pelas características dos consumidores finais (idade, gênero, mentalidade, etc.) o jogo focava muito mais, em determinados momentos, nas perseguições e bang-bang, por exemplo. Os livros, por sua vez, poderiam aproveitar a diferente mídia e até mesmo o envelhecimento da “geração GTA” para amadurecer a narrativa. Menos tiroteios, mais debates sobre questões como racismo ou as consequências do uso de drogas, por exemplos. Menos roubos, mais debates sobre como a corrupção das forças policiais se deriva e simultaneamente alimenta uma série de problemas sociais. Esse aí seria, mais do que nunca, um GTA para adultos.

5. 999 – Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors (DS/PS4)

“Procurem pela porta que tem um 9…” e também procurem jogar esse excelente game!

O mais desconhecido da lista, mas também o jogo mais “óbvio” da lista. “999” ou “Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors” é um jogo do tipo point and click no qual a exploração do ambiente, os diálogos entre personagens e a resolução de puzzles fazem a história andar. Aliás, a história é o carro chefe do game: os ambientes e eventos são descritos majoritariamente através de diálogos e frases, assim como os sentimentos e reflexões do protagonista, Junpei. Nosso herói no jogo, Junpei acorda em um navio sem saber como foi parar lá. Em sua aventura ele encontra uma antiga colega de infância, Akane, e mais 7 pessoas totalmente desconhecidas. Logo eles descobrem que foram trazidos ao local por uma pessoa desconhecida – que se intitula Zero – e que elas devem jogar um jogo de sobrevivência. Elas têm 9 horas para escapar desse navio que está afundando. A única escapatória é atravessar a porta com o número 9 escrito – em sangue, diga-se de passagem.

A proposta de enredo não é exatamente original, mas a maneira com a qual a trama se desenrolar é muito, mas muito diferente do que a maioria dos livros, jogos e filmes de suspense costumam se desenvolver. As personagens fogem de estereótipos comuns à obras do gênero: a personagem feminina com roupas curtas é a mais inteligente da trama;  o grandalhão moreno é um dos mais simpáticos e prestativos; a garota baixinha e delicadinha é perigosa… Além disso, o game oferece caminhos distintos a serem feitos e, por consequência, temos finais diferentes também. Em alguns deles, você morre. Em um deles, o desfecho é mais positivo. Em todos eles, um pedaço da trama maior é revelado. Portanto, acredito que o ideal para o livro seria desenvolver, na narrativa, todos esses diferentes caminhos que você, no jogo, desenvolve com Junpei. Essa narrativa meio “No limite do amanhã” conseguiria explorar todos os personagens, cenários, relações entre Junpei e os outros jogadores. A meu ver, também seria essencial para o livro funcionar haver apenas um ponto de vista: o de Junpei. Afinal, observar os acontecimentos pelos olhos e mentes dos outros personagens estragaria boa parte das surpresas que aguardam o jogador, ops, o leitor!

É isso, pessoal. Essa foi a minha lista de cinco jogos que poderiam muito bem virar ótimos livros. Histórias boas eles já tem: com esse material rico em mãos, basta apenas um pouquinho de boa vontade e mãos criativas de um escritor capaz de explorar esses diferentes universos e nos fazer imergir nessa nova experiência. E você, se lembra de mais algum ótimo game que poderia virar livro? Abraços!

 

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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