Cinco jogos que poderiam ser adaptados para livros

Life is Strange

Alguns games tem tanta história para contar que chega a ser um desperdício não transformá-la em um livro

Você, jogador, ao terminar um game já ficou com a sensação de que queria permanecer naquele mesmo universo criado só mais um pouquinho? Quem sabe ouvir mais alguns diálogos entre as personagens ou enxergar alguns eventos da campanha por outras perspectivas? Alguns jogos conseguem despertar esse desejo em nós de imergir cada vez mais na história criada por ele. Esses títulos poderiam muito bem se valer de uma adaptação para outra mídia: os livros.

É claro que toda adaptação de história entre diferentes mídias é um processo difícil. Esse transporte pressupõe adaptações também à própria natureza das mídias e isso acarreta na perda de elementos da obra original. Adaptar um game para um livro significa abrir mão da construção visual de ambientes e personagens e principalmente da jogabilidade. Por mais que um livro possa oferecer leituras variadas, com escolhas de enredo e finais alternativos, o essa adaptação pressupõe um “engessamento” natural da narrativa. Entretanto, alguns jogos possuem uma história tão bem escrita, personagens complexos a serem desenvolvidos, uma proposta rica e criativa de cenário que os livros podem sim contribuir para nos fazer explorar ainda mais a riqueza desses universos.

Vamos a minha singela lista de jogos que poderiam muito bem receber uma adaptação para livros:

1. The Legend of Zelda: Majora’s Mask

Não, eu não acho a história de “Majora’s Mask” melhor que a de “Ocarina of Time”. Então porque entrou o Majora’s Mask nessa lista e não o Ocarina of Time? Por dois motivos: o primeiro deles é o número de elementos da narrativa que permaneceram inexplorados pelo game. Qual a história por trás da Majora’s Mask? Como se dava a relação entre o Skull Kid e a máscara até os momentos finais do game (ele ouvia vozes na cabeça dele incentivando-o a fazer suas travessuras, por exemplo?). Como se originou a Fierce Deity Mask? Como Link lida com a sequência interminável de três dias que é obrigado a viver? Mesmo que a Nintendo já tenha dado dicas de background para o game e o próprio mangá de Majora’s Mask tenha oferecido outras possíveis respostas, seria ótimo poder devorar um livro que explorasse esses pontos.

O segundo motivo, ao meu ver, é sua ambientação sinistra. Termina é um reino ameaçado pela queda iminente de sua lua. Um Deku morre petrificado. Um Goron é assassinado e seu fantasma tenta desesperadamente salvar seus parentes do frio avassalador. Um Zora agoniza na sua frente e pede, antes de morrer, que você proteja quem ele ama. Enquanto isso, Link vive um ciclo de três dias nos quais tem de resolver uma série de problemas de desconhecidos, arranjar um jeito de derrotar monstros e ainda evitar o apocalipse de Termina. E no final de tudo, muitos que foram salvos não irão te dar crédito porque não se lembram de ter vivido com você.  Isso não é um excelente material para começar um livro?

2. Life is Strange

É estranho pensar que um jogo no qual suas escolhas são decisivas possa tornar-se um livro. “Life is Strange” é um game que impressiona tanto pela história criada quanto pelo cenário visual. Max Caulfield, uma jovem estudante e fotógrafa descobre que tem o poder de voltar no tempo alguns minutos e reviver algumas cenas. Com essa nova habilidade ela deve desvendar um desaparecimento ocorrido em sua faculdade, ajudar os amigos e evitar um desastre natural. Na narrativa do game suas escolhas são essenciais para escrever a história. A habilidade de Max também permite que o jogador observe as consequências mais imediatas de cada escolha feita. Logo, o jogador consegue saber qual a reação de cada personagem a diferentes opções de diálogos, por exemplo. A meu ver, a adaptação para o livro não tiraria a qualidade da história original, pois só o que aconteceria seria a oficialização de uma timeline. Ou mesmo oferecer capítulos apresentando diferentes desfechos.

Sobre os elementos visuais que enriquecem o game, obviamente a adaptação para o livro acarretaria em uma perda grande de qualidade. Entretanto, uma alternativa bacana para a construção do livro seria a inserção de fotos entre capítulos que retratem momentos da história. Além de proporcionar descrições visuais de personagens e cenário, esse recurso é uma forma legal de nos apegarmos ainda mais a Max. Já que ela é uma fotógrafa apaixonada, nada melhor do que vermos a história ser contada pelas palavras e lentes dela, certo?

3. Fire Emblem: Fates

Escolha o seu caminho – e, quem sabe, até mesmo o seu livro favorito. 

Fire Emblem: Fates” não é exatamente 1 jogo, mas sim 3. “Conquest”, “Birthright” e “Revelations” são três versões do mesmo game que oferecem jogabilidade ligeiramente distintas mas história bem diversas. O enredo inicial une os games: você é Corrin, um príncipe (ou princesa) do reino de Nhor, eterno inimigo do reino de Hoshido. Em um belo dia, em meio à guerra, Corrin descobre que, na verdade, é um príncipe (ou princesa) de Hoshido! O rei de Nhor o/a sequestrou quando ainda era um bebê. No campo de batalha, cabe à Corrin tomar uma posição. Ela lutará por seus irmãos de criação e, portanto, pelo exército de Nhor? Se unirá a sua família de sangue nas fileiras de Hoshido? Ou Corrin deverá tentar seguir seu próprio caminho? A riqueza da história está justamente nesse dilema entre família, dever e honra (Casa Tully na veia). Em qualquer caminho escolhido pela protagonista, pessoas irão se decepcionar e se machucar. O que é o mais correto a se fazer nesse cenário?

A meu ver, o melhor jeito de transportar a narrativa do game seria a publicação de três livros diferentes. Cada um deles exploraria uma timeline na qual Corrin fez uma escolha distinta. A vantagem dessa estratégia seria inserir diferentes perspectivas para uma mesma história. As vezes até os mesmos eventos! No livro no qual Corrin decide se unir à sua famíia de sangue, poderíamos acompanhar algumas batalhas pelo olhar de Ryoma, o príncipe de Hoshido. No livro no qual Corrin se mantém fiel à coroa de Nhor, Xander poderia nos fornecer uma perspectiva diferente. Cada livro teria finais distintos, até mesmo relacionamentos amorosos diferentes. E bom lembrar que casamentos são um elemento importante de Fire Emblem.

4. Grand Theft Auto: San Andreas

Dizer que a franquia GTA possui excelentes histórias pode ser uma surpresa para adeptos da jogabilidade pobre de andar por ai, colocar cheats e cometer crimes. Em “GTA: San Andreas”,  Carl Johnson (CJ) é o protagonista do game. A história começa quando ele retorna de Libert City para o enterro de sua mãe, em Los Santos. Em San Andreas, ele reencontra sua família, amigos e um cenário bastante conturbado. A guerra de gangues está mais acirrada do que nunca e a Grove Street Families (sua gangue) está em maus lençóis. Além disso, o policial corrupto Tempenny está constantemente no seu pé obrigando-o a fazer certos favores para ele. Cabe à CJ sobreviver nessa guerra civil, à epidemia de drogas, às ciladas de Tempenny e às traições de amigos. A história dessa game é baseada em eventos reais ocorridos na década de 90 em São Francisco e adição de personagens ricos como CJ e Tempenny, além de eventos espetaculares (como um assalto a um cassino) a tornam memorável.

Uma sugestão que faria a quem fosse escrever essa adaptação seria explorar alguns pontos do enredo que, no game, acabam ficando em segundo plano. No jogo, até mesmo pelas características dos consumidores finais (idade, gênero, mentalidade, etc.) o jogo focava muito mais nas perseguições e bang-bang, por exemplo. Os livros poderiam aproveitar a diferente mídia e até mesmo o envelhecimento da “geração GTA” para amadurecer a narrativa. Menos tiroteios, mais debates sobre questões como racismo ou as consequências do uso de drogas, por exemplos. Menos roubos, mais debates sobre como a corrupção das forças policiais se deriva e simultaneamente alimenta uma série de problemas sociais. Esse aí seria, mais do que nunca, um GTA para adultos.

5. 999 – Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors

O mais desconhecido da lista, mas também o jogo mais “óbvio”. “999” ou “Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors” é um jogo do tipo point and click no qual a exploração do ambiente, os diálogos entre personagens e a resolução de puzzles fazem a história andar. Aliás, a história é o carro chefe do game. Os ambientes e eventos são descritos majoritariamente através de diálogos e frases, assim como os sentimentos e reflexões do protagonista, Junpei. Nosso herói no jogo, Junpei acorda em um navio sem saber como foi parar lá. Em sua aventura ele encontra uma antiga colega de infância, Akane, e mais 7 pessoas totalmente desconhecidas. Logo eles descobrem que foram trazidos ao local por uma pessoa desconhecida – que se intitula Zero – e que elas devem jogar um jogo de sobrevivência. Elas têm 9 horas para escapar desse navio que está afundando. A única escapatória é atravessar a porta com o número 9 escrito.

A proposta de enredo não é exatamente original, mas a maneira com a qual a trama se desenrolar é muito diferente do que a maioria dos livros, jogos e filmes de suspense costumam se desenvolver. As personagens fogem de estereótipos comuns à obras do gênero. Por exemplo: a personagem feminina sensual com roupas curtas é a mais inteligente da trama. Além disso, o game oferece caminhos distintos a serem feitos e, por consequência, temos finais diferentes também. Em alguns deles, você morre. Em um deles, o desfecho é mais positivo. Em todos eles, um pedaço da trama maior é revelado. Portanto, acredito que o ideal para o livro seria desenvolver, na narrativa, todos esses diferentes caminhos que você, no jogo, desenvolve com Junpei. Essa narrativa meio “No limite do amanhã” conseguiria explorar todos os personagens, cenários, relações entre Junpei e os outros jogadores.

Conclusão

Essa foi a minha lista de cinco jogos que poderiam muito bem virar ótimos livros. Com o material rico desses games em mãos, basta apenas mãos criativas e eficientes de um escritor para nos fazer explorar novos caminhos. E você, se lembra de mais algum ótimo game que poderia virar livro? Abraços!

Se você quiser saber mais sobre “Fire Emblem: Fates”, confira a nossa crítica aqui!

 

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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