Porque “Sonic Mania” pode indicar um novo caminho para os games.

O que um jogo em 8 bits, com menos de 1gb e que custa menos de 70 reais pode trazer de positivo para o mercado de games? Um novo caminho.

Um dos meus passatempos preferidos é bem consumista: olhar catálogos de games de lojas online. Vejo quais são os lançamentos disponíveis no mercado, comparo preços, vejo as opções… Raramente compro algum título, afinal, no momento estou desempregado. Como colunista de um site geek, também tenho a responsabilidade de acompanhar o mercado de games por outra perspectiva, mais ampla. Eu olho o momento dos consoles, o que as desenvolvedoras vem anunciando, as novas tecnologias que entram no mercado, etc. Juntando essas duas perspectivas, chego a uma conclusão: o mercado de games está saturado. Existe uma crise, mas não creio que ela seja financeira, mas sim de ideias.

Mas o que Sonic Mania tem a ver com isso, afinal? Eu creio que ele pode ser um dos games pioneiros nessa nova direção que esse mercado pode seguir.

O que queremos em um jogo?
Só eu nunca vejo diferença alguma nessas comparações gráficas?

Essa é uma pergunta que poucos jogadores se fazem, e isso é um pecado. Na verdade, eu acho que muitas desenvolvedoras também não se fazem essa pergunta. O resultado: jogos dispensáveis lotando as prateleiras das lojas. Darei um exemplo com a própria SEGA, já que nesse texto falarei do Sonic Mania. Na década de 2000, a empresa conseguiu produzir diversos títulos horrorosos de sua principal franquia. Em Sonic Riders, ele disputava corridas com skates. Em Sonic and The Black Night, ele lutava com espadas (?!). Era isso que os jogadores queriam em um game do ouriço? Dificilmente.

Mas será que realmente sabemos o que queremos? Acompanho grupos e tópicos de debates sobre games e a impressão que tenho é que muitos gamers só sabem falar sobre 1080p ou 4k, 30 ou 60 fps, DLC ou não… Em algum momento, parece que esquecemos que queremos JOGAR algo e estamos nos contentando em ASSISTIR um jogo. Darei um do problema nesse cenário. O tão esperado “The Order”, exclusivo da Sony, não fez o sucesso esperado. A campanha do jogo tinha menos de 10 horas de duração, nenhum multiplayer e uma enxurrada de cinematics. Resultado: era melhor ter ido assistir um filme. Por isso eu admiro a SEGA por ter colocado no mercado o Sonic Mania: ela sacrificou gráficos e outras inovações superficiais e priorizou a diversão.

Money, money, money.
280 reais em 1 jogo kkkk rindo de nervoso e pobreza

Vamos falar a verdade: está ficando muito caro ser gamer. Um console já custa caro – montar um pc gamer também não é barato. Os títulos físicos e digitais para consoles de mesa ou portáteis também são salgados. Se você mora no Brasil e é Nintendista então, pior ainda. Cada jogo novo te tira entre 200 e 300 reais. Claro que é possível achar promoções ou esperar o preço baixar, mas em resumo: essa brincadeira custa muito dinheiro. Como muitos jogadores lidam com esse cenário? Optando por dar tiros precisos na hora de ir gastar seu dinheiro. Em vez de comprar dois jogos que podem ser muito bons, optamos por comprar só aquele que temos quase certeza que é ótimo.

Cada vez mais estamos nos enganando assistindo a E3 e achando que vai dar para comprar todos aqueles lançamentos. Opções tem de ser feitas. E com isso perdemos a oportunidade de jogar alguns títulos que valiam um investimento. Por isso, quando vejo um game novo e de qualidade saindo por menos de 70 reais, eu fico feliz. Pois ele mostra ao mercado que existe uma possibilidade de lançar bons títulos a um preço mais acessível. É claro que o game AAA que usa a tecnologia mais cara, roda o gráfico a 4K e etc. tem um investimento muito alto e precisa subir o preço de venda. Mas se o mercado precisa entender que também existe espaço para jogos mais “baratos” – e não necessariamente produzidos apenas por Indies.

Retorno às origens.
Só o que queríamos era um Sonic com a velha fórmula e alguns sutis avanços tecnológicos. Era tão difícil assim?

Não existe piada velha, apenas alguém que já a ouviu. Também não existe game necessariamente velho ou fórmula ultrapassada se existir um novo público para comprá-la. Percebi isso na prática quando vi minha afilhada de 7 anos se divertindo jogando o pré-histórico Sonic CD. Ela não se importou com os gráficos. Ela não ligava pro jogo ser de 20 anos atrás. Ela só queria ir pulando, girando e correndo até o fim da fase. A diversão importa mais do que o pacote no qual ele vem.

A Nintendo é mestre na arte de recauchutar jogos: a quantidade de remakes aprimorados já lançados pela empresa não está no gibi. A Sony também tem gostado muito de relançar seus jogos. Mas o que considero um passo importante para o mercado de games não é esse, mas sim o de voltar a beber da velha fórmula em novos títulos. O próximo Splinter Cell, por exemplo, tem que ter mais infiltração e menos tiroteio. O próximo The Walking Dead tem que ter mais diálogos e exploração dos cenários, ao invés de batalhas. O novo Resident Evil tem que ser de terror, não um game de ação. Assim como Sonic Mania foi um jogo plataforma, não um game de corrida ou ação em 3D. Existe um público ansioso por se divertir com jogos desenvolvidos com essas fórmulas de sucesso. Porque não dar a ele o que ele quer?

Conclusão

Sonic Mania não é o melhor jogo do mundo. Provavelmente não será o Game of the Year. Mas ele carrega alguns elementos que podem tornar-se uma tendência dentro mercado de games. Um jogo mais leve, menos tecnologicamente desenvolvido, que bebe em velhas fontes consagradas e mais barato pode encontrar, no mercado atual, um público ávido por essa experiência. Tomara que a crise passe e a diversão volte a reinar nas nossas vidas gamers. Abraços!

 

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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