Pokémon Sun/Moon: a geração que eu queria conseguir amar

“Tenho certeza que esse é o jogo certo para alguém – mas não para mim”

Pokémon é o produto de cultura nerd com o qual eu tenho uma conexão mais íntima. Por anos pensei que Sonic ocupasse esse papel de destaque em minha ainda breve existência. Mas de uns tempos para cá, percebi que só os monstrinhos de bolso conseguiram marcar, simultaneamente, minha infância, adolescência e minha vida adulta, seja através dos jogos, do anime, do trading card game e até mesmo do mangá.

Sendo eu então esse grande fã da franquia, era completamente natural que comprasse e jogasse Pokémon Sun and Moon (no meu caso, a versão Moon) assim que possível. E foi assim que aconteceu: comecei a jogar ainda na semana do lançamento e zerei o game poucos dias depois. De lá pra cá, terminei algumas side-quests mas principalmente tentei me responder uma pergunta: porque eu não consegui amar esse jogo?

Solgaleo e Lunala são os dois lendários representantes da geração

A essa altura vocês pokemaníacos já leram 357 críticas sobre o jogo, todas detalhando minuciosamente o game (e distribuindo spoilers nesse processo), então não me alongarei explicando a história do jogo, as novas mecânicas, etc. O que quero debater nesse texto é porque a nova geração de Pokémon, ainda que tenha trazido inovações bem interessantes e até divertidas para a franquia, não me conquistou.

Eu admiro o empenho que os desenvolvedores de Sun e Moon tiveram em tentar criar uma história bacana não só para o seu personagem e para os NPCs ao seu redor, mas também para o próprio continente. Alola é a região mais diferente até hoje: ela transborda personalidade. O problema é que ao executar essa tarefa de desenvolver essa ambientação, os roteiristas do jogo exageraram nos diálogos e cutscenes. Nas duas primeiras horas de jogo, tive a oportunidade de visitar apenas duas rotas diferentes, batalhando pouquíssimas vezes nesse período, tamanha a quantidade de bate-papo que rola. Entendo que isso seja importante para atrair novos jogadores para a franquia (principalmente crianças) mas esse tornou-se meu maior incômodo do início ao fim de Sun e Moon. Eu jogo Pokémon pelas batalhas, pela emoção de vencer os desafios com meus monstrinhos favoritos, e não para assistir personagens conversando durante 10 minutos seguidos – para isso eu tenho meus “The Walking Dead” e “Life is Strange”.

Toda vez que Hau aparecia no jogo, instantaneamente eu parava de prestar atenção nos diálogos – e por incrível que pareça não perdi nada da história. 

Sun e Moon prestam diversas homenagens à história de Pokémon mas ao mesmo tempo não deixam de olhar para o futuro. É como se o jogo tentasse dizer a você o tempo todo “eu sei que antes de mim vieram diversos títulos fodas, mas eu também serei especial”. E em alguns pontos eu sinto que ele consegue fazer isso. Vejamos as Alola Forms, por exemplo: desde o século passado eu não me via ansioso para treinar um Marowak! Porque agora ele está diferente, com um novo estilo, novo tipo e novos ataques. Ainda que algumas Alola Forms sejam um tanto quanto desnecessárias – to falando de você, Golem – gostei demais dessa sacada da Nintendo.

Se o Vulpix já era fofinho sendo fogo, imagina agora que também pode ser um lindo floquinho de neve…

Pena que não posso dizer o mesmo dos chamados “Z-Moves”. Em todo jogo a Game Freak tenta dar uma chacoalhada nas dinâmicas de batalha, introduzindo um elemento a mais que faça o jogador repensar suas estratégias. Já tivemos introdução de habilidades, batalhas em dupla – e depois em trio – as mega evoluções… Os Z-Moves vieram somar à essa lista com uma proposta simples: agora o seu pokémon pode usar um mega-ataque super forte e com uma apresentação bonitinha. O grande problema é que na minha opinião, os Z-Moves não são pertinentes, não são tão divertidos e em grande parte tiram o caráter original de cada pokémon.

Quando digo que eles não são pertinentes, não estou negando que possam decidir uma batalha. Apenas questiono o quanto isso pode ser benéfico para o jogo – e aqui estou tratando dos modos offline. Poder recorrer a ele em um momento de dificuldade para assim vencer a batalha é muito cômodo. Quase tira a graça de ter que pensar nas estratégias. Além disso, eles também são desnecessariamente lentos. O Z-Move exclusivo do Eevee, por exemplo, leva inacreditáveis 30 segundos para ser concluído. E não há possibilidade de se resumir a apresentação do ataque: a cada vez que você decidir usar serão mais 30 segundos de jogatina desperdiçados.

E aí chegamos no ponto mais crítico dos Z-Moves, ao meu ver. O fato de todo pokémon poder utilizar-nos tirou bastante a graça. Cada pokémon tem determinadas habilidades, ataques que podem aprender, status, etc… mas de repente, tanto um Golem quanto um Rockruff podem igualmente utilizar o Z-Move de pedra, o “Continental Crush”. Parece que ao tornar todos os pokémon capazes de fazer a mesma coisa, a Nintendo acabou tornando-os todos um pouco menos especiais. (Claro que aqui cabe uma ressalva aos Z-Moves exclusivos, como o Pulverizing Pancake, do Snorlax, por exemplo. Esse são os mais divertidos de todos).

“Quando alguém te acorda às 6 da manhã só para te perguntar alguma coisa” – todos somos Snorlax nessa hora.

Mas o aspecto que me deixou com o coração mais angustiado por querer amar essa nova geração e não conseguir são os novos Pokémon introduzidos. Olhando para alguns dos novos monstrinhos é nítido como que os desenvolvedores ainda tem ideias brilhantes – tanto conceituais quanto em matéria de design. Poderia destacar aqui como pertencentes a esse grupo de excelência pokémon como Rockruff, Lycanroc, Wishiwashi, Salandit, Decidueye, Incineroar… mas ao mesmo tempo é impossível fechar os olhos para tantas ideias que, ao meu ver, estão distantes da proposta do jogo. Aqui eu destaco especialmente as chamadas “Ultra-Beasts”. A história contada de que esses são pokémon de outras dimensões e tem toda uma relação diferente com as pessoas não conseguem justificar os design bizarros e aleatoriedade nos tipos. Essa é a pior side-quest do jogo e faz com que a história perca muito de seu brilho.

Para vocês eu deixo meu adeus e meu sincero desejo de que nunca mais nos reencontremos.

“Pokémon Sun and Moon” são dois grandes jogos que definitivamente marcam a história da franquia. O problema é que não consigo ter a convicção de que esse é um marco majoritariamente positivo. Há grandes ideias aqui e lá, um desejo real de fazer história dentro da franquia, agradando velhos jogadores mas também atraindo novos, mas por esses defeitos que mencionei e algumas outras ressalvas que tenho ao jogo, infelizmente não fui capaz de amá-lo completamente. Quem sabe um dia possamos deixar os erros de lado e tornar nosso relacionamento mais próximo e bacana, não é?

OBS: já desisti de tentar amar a Black and White. Essa geração aí pra mim foi uma gigantesca perda de tempo.

 

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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