Opinião: A competição é a morte da diversão

“Quando a vitória torna-se necessidade, a diversão torna-se dispensável”

Domingo à noite estava eu à caça de informações sobre Pokémon Sun & Moon, pois pretendia que a minha coluna dessa semana fosse sobre minhas expectativas para esse jogo. Entretanto, enquanto vasculhava os grupos de discussão sobre o assunto – eles são uma ótima fonte não só de informações, mas também de novos olhares – me deparei com um post que me incomodou. Não interessa de quem era a postagem – confesso que nem lembro agora – e nem as palavras exatas do título, mas o conteúdo da chamada era uma análise de como o cenário competitivo de pokémon poderia ser afetado pelos novos monstrinhos introduzidos nessa versão. Em resumo: jogadores que ainda nem tiveram contato com o jogo e com os pokémon já especulavam qual deles seriam bons ou não para se jogar nos campeonatos.

É nessas horas que eu me lembro o quanto odeio jogar, qualquer que seja o tipo de jogo, de maneira mais “competitiva”.

Esse não é um tema inédito aqui na Drop Hour. Lá no início do site fizemos um Dropcast intitulado “Diversão que não diverte” no qual debatemos de maneira ampla como que algumas práticas como videogames e card games, por exemplo, que deveriam divertir, às vezes graças ao espírito competitivo acabam mais irritando do que dando prazer aos jogadores. Se volto a esse tema hoje é porque sinto que ele ainda precisa ser debatido e porque talvez não tenha conseguido expor totalmente o meu ponto de vista sobre o assunto.

Em primeiro lugar, preciso deixar claro que não tenho nada contra quem se dedica a jogar competitivamente seja lá qual for o seu e-sport, seu card game, etc. Cada um faz o que quiser com a sua vida, seu tempo livre e não pretendo virar fiscal de gamer. Outra ressalva: também não tenho nada contra quem dedique seu tempo a acompanhar ou até assistir campeonatos de videogames, torneios de Magic, Pokémon, etc. Até porque seria hipócrita da minha parte, já que assisto por exemplo Campeonato Brasileiro, o que nada mais é do que pessoas praticando um esporte dentro de um sistema competitivo. Dito isso, vamos à minha argumentação.

Eu acredito que games e card games, os principais objetos dessa discussão aqui, deveriam ser meios para provocar diversão entre os jogadores. Repito: entre os jogadores. Digo isso porque é óbvio que para a empresa que desenvolve esses jogos o objetivo deles é gerar um lucro, então ela vai organizar campeonatos, torneios, ligas etc. se julgar que isso vai dar um retorno financeiro. Mas voltando aos jogadores: todos os jogos que ele compra e/ou usufrui deveria ser, ao meu ver, uma fonte de diversão. Alguns podem ser mais casuais, outros mais desafiadores, mas enfim, todos deveriam atingir esse objetivo.

E acreditem, é possível se divertir até mesmo na derrota. Você provavelmente já ouviu seus pais dizerem essa frase após você perder algum campeonato na escola ou uma partida de qualquer que fosse o jogo em casa: “o importante é competir”. Eu acho que ela precisa de uma pequena alteração para fazer sentido: “o importante é se divertir”. Eu consigo sim me divertir após perder uma partida de FIFA para um amigo meu, por exemplo. Eu consigo me divertir mesmo perdendo um duelo de Pokémon TCG para a minha namorada. E antes que vocês digam que é só porque essas são pessoas queridas para mim então acabo não me importando com o resultado, eu digo que é mais do que isso. Eu consigo me divertir nessas situações porque sou capaz de admirar que meu amigo tenha feito uma jogada sensacional que resultou no gol da minha derrota. Consigo admirar também, de maneira lúdica, quando minha namorada usa o Absol dela (um Pokémon que adoro) para trucidar minha Gardevoir (outro dos meus preferidos).

Não serei hipócrita de dizer que se perdesse 100 partidas seguidas de um mesmo jogo eu ainda estaria rindo à toa. É claro que uma sequência de derrotas uma hora te cansa, te irrita e te desmotiva de jogar. Imagine-se jogando Street Fighter cem vezes seguidas contra alguém e perdendo todas: mesmo que você fosse fã de carteirinha do jogo, provavelmente não jogaria a 101ª porque aquilo não faria sentido. Mas não é porque a derrota em si te irrite, mas sim porque a previsibilidade do resultado não é estimulante. O jogo precisa do acaso. O jogador precisa saber que pode vencer caso seja esperto – ou mesmo sortudo – o suficiente.

Mas existe um ponto no qual o jogador começa a não apenas querer saber que pode vencer, mas começa a precisar ter certeza que vai vencer. É nesse ponto que ele começa a selecionar com cuidado, por exemplo, os Pokémon que vai escolher para montar seu time ou deck, porque ele vê que alguns são mais fortes ou adaptáveis à estratégias que outros. É nesse mesmo ponto que ele começa a selecionar um ou mais times específicos antes de jogar online o seu FIFA ou PES porque sabe que aquelas equipes tem os jogadores com melhores atributos. E é nesse exato ponto que eu paro, porque é aqui que o jogo, da forma que entendo que ele deveria ser, acaba. O que antes era jogo, torna-se competição. E a competição é a morte da diversão.

Em um torneio de Pokémon com 128 jogadores, te garanto que 127 pessoas, no mínimo, não se divertiram ao final. Eles jogaram, vibraram, sofreram, tiveram picos de euforia e depressão, e no final perderam. 1 deles venceu e pode-se dizer que ficou feliz, mas sinceramente, acho que nem ele se divertiu. Acho que ele ficou satisfeito e talvez até aliviado de ter acabado aquilo tudo como o vitorioso, mas tenho minhas dúvidas se realmente se divertiu.

Digo isso porque provavelmente ele não jogou da forma que queria. Eu explico, mas para isso preciso recorrer a alguns exemplos. Meu irmão, Marcos, durante o ano de 2016 jogou alguns torneios organizados pela Nintendo de Pokémon para 3DS. Eram todos desafios internacionais, quase “amistosos”, por assim dizer. Em média ele disputou 20 partidas em cada um desses torneios. Ele disse que pelo menos em 80% das vezes ele enfrentava oponentes com os mesmos 3 pokémon: Mega Kangaskhan, Kyogre e Groudon. Raríssimos eram os times que utilizavam Pokémon ditos “não competitivos” no meio. Outro exemplo: essa semana li o relato de um jogador de Mario Kart 8 chateado com o modo online do game, no qual praticamente só encontrava jogadores com Koopalings dirigindo mini-veículos porque essa combinação, competitivamente, oferece os melhores resultados. Poderia citar diversos outros exemplos, como as partidas de Smash Bros Meele e sua infestação de Fox, ou como bem lembrou nosso colunista Rafael em nosso podcast sobre o tema, o modo online do FIFA e suas infinitas partidas Barcelona x Barcelona. Todos esses casos representam uma mesma ideia: na maioria dos casos o jogador competitivo não joga da maneira que quer ou mais gosta, mas sim da maneira que ele acredita que vai oferecer o melhor desempenho.

Talvez esse seja o ponto mais cruel do jogo competitivo: a perda da identificação do jogador com aquilo que ele está jogando. Quando o lógico racional supera, em importância, os aspectos lúdicos do jogo – e agradeço ao meu amigo Serrão pela síntese desse aspecto – a competição vence e a diversão perde. Colocando em termos práticos, quando o indivíduo que é fã do Pidgeot deixa de usá-lo no torneio de Pokémon porque o considera fraco e opta por usar o Kangaskhan porque ele é “forte”, ele não está mais jogando Pokémon ou se divertindo com aquilo: ele está querendo apenas ganhar. E seguindo por esse caminho ele não só se prejudica, mas também pode incomodar outros jogadores. Tiro isso por mim mesmo: não vejo a graça de disputar a maioria dos jogos online justamente porque sei que encontrarei quase os mesmos times, pokémon, cartas, personagens, etc. E qual é a graça de disputar centenas de partidas iguais?

Me parece óbvio que os jogadores tem direito de, mesmo em um nível mais leve e informal de prática do seu game ou card game, poder querer aprimorar seu jogo. É natural que após um certo tempo ele já comece a entender melhor o cenário e perceba que algumas estratégias são mais eficazes que outras. Trazendo um exemplo um tanto bobo, mas mesmo assim pertinente: é como se o jogador de Uno, após algumas partidas, percebesse que talvez seja melhor segurar a carta +4 como sua última para poder evitar que os jogadores prejudiquem sua última jogada. Isso não é o jogo competitivo: isso é querer jogar com inteligência. O jogador competitivo, dentro desse cenário inventado, seria aquele que joga com todas as estatísticas já prontas na cabeça sobre qual carta deve jogar para se aproximar da vitória e às vezes até mesmo desiste da partida antes do fim porque percebe que terá chances ínfimas de vencer. Ele não está se divertindo com o Uno, ele está competindo.

E chegamos agora ao que talvez seja o ponto mais negativo do jogo competitivo: o desgaste físico e mental ao qual um jogador que encare a prática de maneira mais profissional pode ser submetido. Basta olhar o tempo de treino de jogadores de e-sport: às vezes são mais de 15 horas diárias dedicadas a se aperfeiçoar naquele jogo. 15 horas são quase o dobro da carga horária de trabalho no Brasil. Afinal, isso é um jogo ou uma profissão para aquele indivíduo? Se realmente for uma profissão, tudo bem, podemos oficialmente afirmar que o jogo nesse caso perdeu sua função, e nesse caso acredito que essa pessoa deva ser remunerada de acordo com o seu esforço, tal qual o seria em um emprego convencional. Ou vocês acham que um jogador profissional de futebol só recebe tão bem porque os Barcelonas da vida tem dinheiro para pagar? Eles recebem milhões em boa parte porque seus corpos e mentes são submetidos diariamente ao limite em treinos constantes – e porque aos 40 anos eles não serão mais capazes de fazer o mesmo. Porque um jogador de LoL, por exemplo, deveria receber menos, se ele faz, basicamente, a mesma coisa?

Em resumo, na minha perspectiva a competição é a morte da diversão. O jogo deveria ser uma fonte de diversão e isso significa que o jogador deve poder ganhar ou perder, mas principalmente, deve ser livre para jogador como quiser e se sentir feliz com aquilo. Quando a vitória torna-se não apenas um objetivo possível, mas sim uma necessidade, e o jogador começa a restringir sua liberdade de escolha ou ação para alcançá-la e/ou desloca seu olhar para os aspectos racionais do jogo em detrimento do lúdico, a competição começou. E nos campeonatos não há espaço para diversão, apenas para vencedores ou derrotados.

 

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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