DLCs: a benção e a maldição dos games modernos

“Um olho no preço, outro olho no jogo”

Há anos (literalmente) eu venho pensando em colocar para debate, aqui na Drop Hour, a questão dos DLCs (os Downloadable Content, ou em uma tradução livre e descompromissada, “conteúdos disponíveis por download”. Mas eu sempre ia adiando esse post porque algum assunto mais urgente ou polêmico surgia. Entretanto, esse mês houve um anúncio inesperado e que reacendeu essa minha vontade de discutir esse assunto: a Nintendo anunciou que “Zelda: Breath of the Wild” terá dois DLCs, tanto no Wii U quanto no Switch. É a primeira vez na história que um game da série principal dessa franquia recebe esse tipo de conteúdo. Como toda novidade no mundo geek, ela foi imediatamente recebida com alegria por muitos e nariz torto por outros. Mas afinal, os DLCs são uma coisa boa ou ruim?

Como eu desteto ficar em cima do muro em qualquer das discussões, já adianto que a minha resposta para essa pergunta (que eu mesmo propus) não é “depende”. Eu acho que os DLCs são um elemento nocivo ao mundo dos games por alguns problemas que consigo ver nessa prática e que colocarei para debate aqui. Entretanto, também consigo enxergar algumas vantagens nessa prática e que podem servir de argumentos para os defensores.

A coisa está MAIS OU MENOS assim…

Vamos começar batendo um pouco nos famigerados DLCs. O primeiro problema, ao meu ver, nessa estratégia de muitas empresas desenvolvedoras de jogos é que elas se utilizam desse recurso para disfarçar o real preço do jogo. Eu explico: quando um novo Call of Duty é lançado, normalmente ele chega ao mercado para ps4 e Xbox-One pelo preço de 60 dólares (no Brasil, pelos inacreditáveis 250 reais). É um preço salgado, de fato, mas se o jogo for bom e capaz de te prender durante muitas e muitas horas…talvez não seja um negócio tão ruim. O problema é que o número de mapas disponíveis para o multiplayer e para o modo Zumbi não é muito grande… mas a empresa se antecipa a esse “problema” e lança um maldito negócio chamado “Season Pass” que te permite baixar, durante o ano, mais mapas, as vezes armas, uns bônus loucos, etc. Com esses DLCs, o jogo fica complexo e mais divertido. Mas sua carteira fica mais vazia, pq o jogo saiu por uns 350 reais em vez de 250.

O problema não é o dinheiro em si, até porque você gasta o quanto quiser com seu videogame. A questão é que a empresa te vende um “meio jogo” por um preço de um inteiro para depois te vender mais uma parte. Na minha opinião, isso é um tanto quanto desonesto, porque claramente explora o consumidor fazendo-o gastar de pouco em pouco sem perceber que poderia ter comprado uns dois ou até três bons jogos com essa mesma quantia.

“Olha todos esses mapas que poderiam já estar no jogo original mas nem quisemos colocar”

Mas acho que o DLC que realmente me irrita e talvez seja o mais problemático é aquele que, além de caro, é visível que foi retirado do game original para ser vendido à parte. Tenho um exemplo disso: “Ultimate Marvel vs Capcom 3” tinha DLCs que consistiam em skins alternativas para os lutadores. Quando você comprava o DLC e ia fazer o download, percebia que o conteúdo tinha menos de 100 kb. Depois eu descobri que através de um glitch, mesmo sem comprar o DLC você podia usar as skins no game. Ou seja: o jogo original já tinha o código ali dentro, o que o DLC fazia era só desbloquear. Em resumo: os caras nem tiveram trabalho a mais depois do lançamento, o conteúdo já estava ali! É como se você pedisse pro cara do podrão da esquina te fazer um Cheeseburguer, ele fritasse o hambúrguer todo, ai na hora de vender ele tirasse o queijo e quisesse te vender à parte. Só eu acho isso uma sacanagem tremenda?

Eu fui trouxa e caí na armadilha dos DLC graças a essa skin aqui. É a vida, bola pra frente e Deus no comando. 

Outro problema que vejo nessa questão dos DLCs é mais conceitual, por assim dizer, e tem muito a ver com as chamadas “microtransações”: pequenas compras que podem ser feitas em alguns games, que acrescentam itens, mais dinheiro de jogo, armas especiais, etc. Além disso desequilibrar o jogo, provocando o famoso “pay-to-win” (ou seja, quem paga tem vantagem sobre quem joga gratuitamente), às vezes pode ficar a sensação de que dois jogadores que compraram o mesmo título estão jogando coisas diferentes! Exemplo: Smash Bros pra Wii U é um excelente jogo e os DLCs com certeza são muito divertidos, mas colocando no papel tudo que a Nintendo lançou de extra, a impressão que dá é que existem dois games diferentes. O “potencializado”, para quem tem mais grana, tem 7 personagens a mais, além de novas arenas e skins. A impressão que passa é que a pessoa que gastou muitos reais no game original mas não comprou os DLCs fez um péssimo negócio, porque não tem o pacote completo e mais divertido.

Seria uma PENA se todos esses personagens legais não estivessem no game que você gastou uns 200 reais pra comprar…

Mas é claro que nem tudo é trevas quando o assunto é DLC. Eu acho que existem duas grandes virtudes nesse tipo de prática: prolongamento da diversão e possibilidade de atender feedback dos fãs. Alguns games, principalmente aqueles que são focados no seu modo campanha ou história, podem sofrer do problema da ausência de “replay”: depois que zerados, podem não oferecer elementos para que o jogador retorne a ele. Isso é um problema, já que gastar mais de 200 reais para se divertir 15 horas com o game gera uma relação custo-benefício complicada. Aí o DLC pode ser vantajoso: acrescentar quests, desafios, personagens, novas histórias, enfim, pode fazer com que o jogador retorne ao game e se divirta novamente com o mesmo produto. Se esse DLC for gratuito então, melhor ainda: esse foi o caso de Splatoon, que acrescentou diversas arenas, dezenas de skins e armas, com intuito de fazer os jogadores continuarem envolvidos com o game.

Tudo isso e muito mais podia ser seu… de graça! Aí sim. 

A outra vantagem é que os DCLs permitem que as empresas ouçam o que os fãs tem a dizer sobre o jogo para assim poderem atender pedidos e corrigir problemas. Novamente recorro a Smash Bros para Wii U como exemplo, mas dessa vez vejo um ponto positivo na estratégia da Nintendo para o game: o último personagem a ser lançado via DLC foi decidido através de uma votação mundial pela internet. Os fãs votaram no personagem que queriam ver em seu jogo e Bayonetta foi a campeã. Isso não é muito melhor do que jogar um Wolf da vida e ouvir a maior parte dos fãs chiando porque não queriam aquilo?

Os DLCs são uma das muitas polêmicas do mundo gamer moderno. Os gamers mais antigos, de maneira geral, odeiam essa prática e lutam contra ela. Os mais novos já se acostumaram a guardar seu dinheiro para os “add-on”. Fato é que esse tipo de prática gera muito dinheiro para as empresas e provavelmente ainda veremos muitos DLCs anunciados para as mais diversas franquias. Resta a nós tomarmos cuidado para não cair nas malandragens do mercado de games e seguir nos divertindo sem machucar (muito) nosso orçamento. Abraços!

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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