Crítica: Zelda Breath of the Wild

“O maior de seu tempo e o melhor Zelda de todos os tempos”

Fazer a crítica de um clássico nunca é fácil. Não porque faltem elementos para se debruçar na análise ou porque suas qualidades e defeitos não possam ser enumerados, mas sim porque quando a obra atinge um alto nível de excelência, começam a faltar palavras para descrevê-la. É preciso assistir ao filme, ler o livro ou, no caso dessa crítica, é preciso jogar o game. “Zelda: Breath of the Wild” é um daqueles games que transcendem o próprio console, franquia ou universo. É um marco na história de Zelda, da Nintendo e da sua própria geração de games. Ao longo desse texto, vou apresenta-lo, elogiá-lo e recomendá-lo, mas você terá a real noção do quanto esse jogo é bom quando der seus primeiros passos em Hyrule.

“Zelda: Breath of the Wild” é o mais recente título da franquia Zelda e foi lançado em março de 2017 para Wii U e o novíssimos Switch. De cara faço dois avisos que serão importantes para o decorrer do texto: a minha crítica se baseia na versão de Wii U e a partir de agora me referirei ao game pela forma abreviada “BotW”. Dito isso, é válido lembrar que o game encerra assim o ciclo de títulos exclusivos para o Wii U, fechando com chave de ouro a história de um console que agradou muito a poucos jogadores.

Zelda Breath of the Wild Capa

As diferentes artes de capa para as versões americana/japonesa e para a Europeia. Ambas são maravilhosas, diga-se de passagem.

Quando o título foi anunciado, ainda em 2014, tudo o que se sabia sobre BotW é que seria um Zelda verdadeiramente open-world. Aos poucos fomos conhecendo mais do jogo: o novo sistema de armas, as formas de recuperar vida, os itens que poderiam ser utilizados e, em 2016, finalmente tivemos as primeiras revelações sobre a história do jogo. Lembro que até o primeiro trailer com fragmentos do enredo do game, tinha a incômoda sensação que via uma espécie de Skyrim com mod de Zelda. Felizmente, o produto final entrega uma experiência perfeita tanto em história quanto em jogabilidade.

Resumirei a história sem dar grandes spoilers: 100 anos atrás, Zelda e Link uniram forças para evitar o retorno de Calamity Ganon – o nome mudou, mas o vilão é o mesmo. Juntos eles tiveram a brilhante ideia de envolver mais um elemento nessa guerra: armas tecnológicas de grande capacidade de destruição, os Guardians e as Divine Beasts, criados pelo povo de Hyrule para protegê-los. Infelizmente, Ganon conseguiu se apossar – hackear? – as máquinas e usou o poder delas para se defender. Link se feriu gravemente durante o combate e teve de ser levado a uma câmara especial na qual ficou 100 anos em coma, esperando o momento certo para acordar e lutar novamente contra Ganon. Coube a Zelda tentar conter o vilão durante todo esse tempo.

Guardians Zelda Breath of the Wild

Os Guardians são esses gigantes de metal cheios de tentáculos e lasers cuja única função é te matar

Breath of the Wild é, portanto, em grande medida, uma busca por memórias. Link teve amigos, companheiros de guerra 100 anos atrás, além de um envolvimento grande com Zelda, e cabe ao jogador procurar pistas para entender essa história. Nesse aspecto a direção do jogo foi brilhante: por mais que não seja obrigatório encontrar essas peças do quebra-cabeça da história, é recompensador descobrir cada memória, entender a história de cada personagem que, há 100 anos atrás, perdeu sua vida lutando contra Ganon.

Mipha Zelda Breath of the Wild

Quase todos os personagens coadjuvantes são muito legais, mas Mipha, a campeã dos Zoras, bate recorde em carisma. 

Com relação às mudanças na jogabilidade, eu poderia ficar páginas e páginas dissecando cada uma delas – e sempre com elogios, felizmente. Mas como o texto ficaria imenso e algumas coisas é melhor você descobrir sozinho durante o jogo, destacarei as principais apenas. Elas são quatro: a não-linearidade, o novo sistema de armas, o novo sistema de comida e as “Shrines”.

Zelda: BotW é um jogo 99% não linear. Isso quer dizer que o jogador não é obrigado a fazer praticamente nada, quase todas as side-quests não possuem pré-requisitos e não existem soluções únicas para os puzzles e problemas com os quais o jogador se depara. Você quer resolver a situação das Divine Beasts antes de enfrentar Ganon? Ok, pode ir. Ou você prefere juntar uns corações, umas flechas e partir para cima dele direto? Pode ir também, boa sorte. Após um pequeno tutorial ainda no início do jogo, o mapa inteiro torna-se acessível e cabe ao jogador decidir qual é o melhor caminho. Você pode terminar o game com 30 corações ou 3. Você pode pegar a Master Sword no caminho ou não. Se um grupo de Lagartos aparece querendo te matar, você pode explodi-los, distribuir espadas, flechadas, jogá-los na água, ignorá-los e tentar passar furtivamente… BotW é um jogo que deixa VOCÊ decidir qual é o melhor jeito de zerá-lo. Só saiba que, se sua escolha for ruim, um Game Over está prontinho para encontra-lo – sem dó nem piedade.

Zelda Breath of the Wild Mapa

Se o seu mapa do jogo vai ficar coloridinho e detalhadinho assim ou não, depende inteiramente de você. PS: esse daí não está nem perto de ter todas as shrines assinaladas, só pra avisar. 

A segunda grande mudança se dá no sistema de armas do game. Zelda: BotW permite que você guarde um grande número de armas de combate, escudos e arcos diferentes. Dentre as armas de combate, existem espadas, lanças, machados, martelos, bumerangues, clavas… Algumas de madeira, metal, elétricas, de fogo, gelo… Infelizmente, todas elas quebram após um tempo de uso, deixando ao jogador, novamente, a decisão de quando e como utilizá-las. Felizmente a variedade de equipamentos é gigantesca, então em nenhum momento me vi obrigado a utilizar armas fracas ou feias, pelo contrário: era sempre um drama ter de decidir qual arma maneira seria obrigado a deixar pra trás por falta de espaço. Escudos e arcos, assim como os diferentes tipo de flechas, operam da mesma forma.

Zelda Breath of the Wild Equip

Sabre de luz? Luminífera???

O sistema de comida é novo no game e de cara parece uma adição difícil de lidar, mas com o tempo o jogador aprende os macetes. Em Zelda: BotW, ao contrário de outros títulos da franquia, não é possível recuperar vida obtendo corações ao cortar grama ou atirando vasos na parede. A principal maneira de curar-se – ainda que não a única – é ingerindo alimentos e elixires. Enquanto que carnes e frutas simples recuperam de 1 a 3 corações, um prato bem preparado misturando carnes nobres, raízes e frutas, por exemplo, pode recuperar até 30. Encontrar as melhores combinações requer tempo e paciência, mas é recompensador quando você percebe que já é capaz de estocar os pratos mais diversos para cada situação: recuperar muitos corações, comidas que te protegem contra o frio ou calor extremo, o elixir que aumenta seu ataque ou sua defesa, etc.

Zelda Breath of the Wild Tela

Com a combinação certa, o rango pode ficar tão bom que não só te recupera completamente, mas ainda adiciona corações a sua vitalidade!

Mas a grande inovação do game se apresenta na forma das “Shrines”. Elas são mini-dungeons espalhadas pelo mapa de Hyrule que possuem duas funções: a primeira é servir de ponto de fast travel, uma benção considerando que o mapa do game tem quase três vezes o tamanho do de The Witcher 3, ou seja, é gigantesco. A segunda função é a de dar ao jogador Spirit Orbs, que podem ser trocadas por mais heart containers ou aumento na Stamina de Link. São 120 Shrines espalhadas pelo mapa: algumas são bem visíveis, outras estão mais escondidas e algumas só podem ser acessadas quando o jogador cumpre os pré-requisitos de uma side quest específica. As Shrines, em sua maioria, apresentam breves puzzles a serem resolvidos pelo jogador com os itens a sua disposição. Felizmente, em 90% delas, consegui encontrar a solução sem maiores problemas. No restante, me vi obrigado a acessar walkthroughs.

Zelda Breath of the Wild Boss

Aí você entra na Shrine e tem um fdp desses te esperando pra cair na porrada… adoro, esses são os melhores desafios. 

Zelda: BotW expande a franquia de uma forma que não víamos desde o lançamento de Ocarina of Time. O mapa nunca foi tão grande quanto nesse game, nunca tantas armas diferentes puderam ser usadas, nunca tantas side-quests se apresentaram ao jogador, nunca um Zelda se mostrou tão completo, complexo e ao mesmo tempo fiel a um conceito norteador. BotW tem o mérito de aliar a sua ideia de liberdade plena a elementos de sucesso pinçados de outros títulos da mesma franquia. A barra de Stamina e o envolvimento emocional entre Link e Zelda, ambos marcantes em Skyward Sword, estão aqui; as side-quests envolventes e o nível de dificuldade acentuado de Majora’s Mask também estão aqui; a Hyrule ampla a ser explorada de Ocarina of Time também retorna, e em grande estilo.

Eu poderia falar mais e mais de Zelda: Breath of the Wild, mas não seria capaz de passar com palavras ao leitor o prazer que é jogar essa joia rara. Ele não é apenas o melhor game da história de Wii U, tampouco é apenas um candidato sério a jogo do ano e até da sua geração de consoles: é o maior e melhor Zelda de todos os tempos.

Zelda Breath of the Wild Crítica Nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

2 comentários em “Crítica: Zelda Breath of the Wild

  • 31 de março de 2017 em 00:26
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    Me parece completamente outro jogo mas ainda sim você sente que a surpresa é aquela das boas, como sempre! Agora estou super curioso pra jogar esse zelda e saber dessas história toda de tecnologia e memória. Valeu muito a leitura mas senti falta de um pequeno detalhe que sem ele essa franquia nunca poderia ser o que é: a trilha sonora. O que o link tem tocado nessa bagaça? rs Abraço amigos!

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    • 31 de março de 2017 em 01:20
      Permalink

      Fala Victor!
      Então, Link não tem instrumento musical nesse jogo, o que é uma pena. Desde os jogos de 64 eu tenho sentido falta desse elemento nos Zeldas. Não estou nem contando a harpa de Skyward Sword, pois era impossível tocar aquilo, frustração total. Mas a trilha sonora em si, dos ambientes, nas cinemáticas e tal, está maravilhosa! Abraços

      Resposta

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