Considerações sobre o cenário brasileiro de League of Legends

Ganhar o CBLOL não é mais o suficiente para se destacar no mundo

 

Após a passagem da Team One pelo Mundial ter terminado, precisamos parar um pouco para refletir o nosso papel no cenário mundial de League of Legends. Olhando para as outras regiões emergentes, vemos que praticamente todas tiveram grandes evoluções, conseguindo inclusive lutar de igual para igual contra os times mais favoritos da América do Norte e da Europa, vide a Gigabyte Marines no MSI. No entanto, nós, que sempre fomos considerados um dos melhores emergentes, praticamente sempre presente nas fases de grupo do Mundial, não estamos conseguindo nem fazer frente mais aos próprios times emergentes.

Não coloco a culpa aqui na Team One. Todos eram muitos novos, foi o primeiro torneio internacional deles, e depois de um primeiro dia muito ruim, eles conseguiram dar a volta por cima, classificaram no grupo tirando o time da Oceania e fizeram um jogo duro na última série contra o time da Turquia. Então considerando todos os fatores, considero que eles fizeram uma participação honrosa.

Agora para o cenário brasileiro como um todo, o que vemos esse ano é muito pouco. Parece que entramos na soberba de que sempre fomos melhores que os outros e simplesmente paramos de evoluir. E num ambiente em que sempre há mudanças, se adaptar rápido e crescer é muito necessário para permanecer no topo. Até a SKT precisou passar por mudanças depois de uma série de derrotas nessa season na Coréia.

 

SKT League of Legends

A SKT recentemente teve um série de derrotas depois do MSI e só se recuperou nos playoffs do segundo split

 

Vemos times como a Gigabyte Marines, do Vietnã, a Lyon Gaming, do México, e o 1907 Fenerbahce, da Turquia, terem um macro do nível das grandes regiões, disputando ferrenhamente objetivos com os adversários, enquanto nós mal conseguimos ganhar da Oceania, e, mesmo ganhando, parecemos uma equipe que mal disputaria a Challenger Series nos EUA.

Apesar disso, nosso potencial é enorme. Com dados fornecidos pela própria Riot, tem-se que o servidor brasileiro é um dos maiores em população de jogadores de ranqueadas, atrás apenas de China, Coréia e Europa, praticamente empatado com a NA. Isso significa que o número de talentos que conseguimos pescar na solo queue é muito grande e a chance de produzirmos na “base” ótimos jogadores é alta.

Mas para desenvolvermos mais a região brasileira, precisamos analisar os fatores que levaram a essa estagnação. Primeiramente, parece que os times brasileiros se contentaram em somente ganhar o CbLoL. O que eu quero dizer é que eles treinam somente o suficiente para ganhar o campeonato brasileiro e se ganharem, já sentem que fizerem tudo o que tinham que fazer, que os campeonatos internacionais são um bônus. Mas nós temos que assumir uma postura semelhante à dos clubes brasileiros de futebol com a Libertadores: o importante para a gente é ganhar internacionalmente. É mostrar para os outros países que aqui também pode sair gente boa e estratégias novas. Acredito que, enquanto os times treinarem o mínimo possível, e se dedicarem pouco a isso, nossos resultados internacionais não vão mudar. Vamos continuar tendo campeões do CbLoL que ganham aqui de maneira indiscutível, mas que chegam lá fora e quase passam vergonha.

Uma coisa positiva também é que nós temos estrutura. A maioria dos times da elite brasileira têm game houses, têm equipes de profissionais como psicólogo e nutricionistas, o que já está muito à frente de outros países como do Sudeste Asiático.  Mas em questão de gameplay, de estratégias, parece que ficamos para trás. Precisamos desenvolver melhor nosso macro, nossas rotações. Para isso, precisamos importar técnicos e jogadores de fora, principalmente coreanos. Vou dar dois exemplos, relativizando para as respectivas diferenças econômicas, mas só para mostrar a diferença que novas ideias podem fazer. A Immortals, dos EUA, terminou o 1º Split em 6º Lugar. Trouxe o técnico coreano SSong, da antiga ROX Tigers, e após algumas mudanças, terminou como vice-campeã do 2º Split perdendo pra TSM e está aí como uma das forças a passar da fase de grupos no Mundial agora. Outro exemplo é o próprio 1907 Fenerbahce, que trouxe o coreano Frozen pra mid lane e o cenário turco como um todo desenvolveu muito.

 

Fenerbahce League of Legends

Frozen, o destaque do time turco para a fase de grupos

 

Importante ressaltar que trazer técnicos e jogadores de fora não é só para tapar buraco. As novas ideias e estratégias que eles trazem forçam os times aqui a se adaptarem e desenvolverem, melhorando os times como um todo. E em tese, essa experiência aos poucos é difundida nas filas ranqueadas, conforme os jogadores locais vão assistindo e jogando junto. Foi assim que as regiões emergentes e inclusive a própria América do Norte melhoraram. Por isso, acredito que precisamos deixar de lado o pensamento de que não precisamos de estrangeiros para melhorar e aceitar que a meta não é só ficar bem na fita, mas almejar ser a melhor região emergente novamente.

Outro ponto considerável é o formato do nosso torneio. O CBLoL tem um formato de oito times participantes com melhor de dois (Bo2 – Best of 2) e turno único. Comparado a todos os outros torneios, estamos jogando MUITO pouco. Todas as regiões mudaram para o formato (Bo3) com turno e returno. Ou seja, mais que o dobro de jogos que temos agora. E muitos analistas, técnicos e jogadores estrangeiros afirmam que quanto maior é o número de jogos, maior é o benefício, pois você acaba tendo mais tempo e ambiente para desenvolver táticas e jogadas, se acostumando mais ao cenário profissional, aumenta disputa por treinos contra times de qualidades superiores, entre outros. Isso sem contar que a maioria das grandes regiões possuem 10 equipes na elite. Portanto, a Riot Brasil precisa também sair do marasmo de achar que está tudo bem e ajudar os times a se desenvolverem.

Para concluir, eu digo aqui que sempre torço para os times brasileiros. E todas as críticas foram feitas porque acredito que a gente tem um potencial de atingir um nível para brigar de igual para igual e inclusive ir longe no mundial, como a Albus Nox Luna, da Rússia, fez no ano passado. Mas para isso é preciso refletir e olhar para nosso próprio umbigo, ver o que estamos fazendo de errado, assumir esses erros e buscar melhorar cada vez mais. E assim quem sabe não veremos uma Equipe Brasileira nas Quartas de Finais ano que vem?

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Rafael

Futuro Mestre Engenheiro, jogador de Lolzinho nas horas vagas, profundo conhecedor de cultura inútil e o portador da alcunha de “mais hipster dos mainstreams”

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