Companheiros de Bar #3 – Mulher, games e futebol: por que essa combinação assusta muitos homens?

por Claudia “Cacau” Baldner

“FIFA 16 traz a possibilidade de jogar com seleções femininas e também muita discussão”

O primeiro trailer do FIFA 16, divulgado pela EA Sports no dia 28 de maio, apresentou uma grande novidade: a possibilidade de jogar com seleções femininas. A notícia foi recebida com grande entusiasmo por alguns, porém com muito preconceito por parte de outras. Qual a explicação para essa revolta? Será que os homens se sentem ameaçados, pois as mulheres estão entrando e assumindo suas posições em ambientes tipicamente masculinos, como o futebol e o vídeo game? Porque esse medo? Isso tudo pode ser resumido em uma única palavra: machismo.

Trailer do game

Não tem como falar sobre esse tópico sem citar um breve resumo da minha experiência com esses dois elementos – games e futebol. Desde que me entendo por gente meu pai assiste futebol aos domingos: seja um amistoso entre XV de Piracicaba e Guarani de Juazeiro ou um clássico, ele estará lá com a TV ligada. Por isso comecei a acompanhar, meio sem compromisso, e aos poucos fui percebendo o quanto aquele esporte me atraía. O tempo foi passando, comecei a frequentar os estádios e o amor pelo meu Botafogo começou a crescer. Hoje em dia, muito além de torcer pelo meu time, admiro o futebol bem jogado, gosto de assistir partidas internacionais, adoro ir ao estádio… ou seja, sou uma admiradora do esporte, como qualquer outro.

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Minha experiência com os vídeo games é um pouco diferente. Infelizmente não levei essa paixão comigo por toda minha vida. Essa história começou há um bom tempo, quando ganhei um Master System 3. Simplesmente me apaixonei por aquela coisa, ficava horas na frente da TV jogando e não sosseguei até conseguir combater o Robotnik. Aos poucos, o Master System foi ficando ultrapassado e fui deixando ele de lado. Lá pros meus 21 anos comecei a ter contato com um PlayStation 3, e foi aí que lembrei o quanto eu me divertia com aquilo (e confesso por muitas vezes que cheguei ao ponto de me viciar em determinados jogos).

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Tenho certeza que essa divisão imposta pela sociedade de “brinquedo para meninos” e “brinquedo para meninas” influenciou meu afastamento do mundo dos games. Na época eu nunca perceberia isso, pois aconteceu de forma “natural”. Enquanto as meninas precisavam mostrar uma maturidade vinda junto com as mudanças ocorridas em seus corpos e começavam a ser reprimidas, pois agora precisavam se comportar como uma “mocinha”, os meninos estavam livres para continuar jogando tazos, futebol e vídeo games. “Tão imaturos, tadinho. Nós meninas amadurecemos mais rápido mesmo.” Esse era o discurso que ouvíamos e reproduzíamos com apenas 13, 12 ou 11 anos de idade.

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Mas esse artigo não é pra falar sobre minha vida. A realidade é que nesse caso estamos lutando contra o machismo em dois cenários diferentes: o futebol e o vídeo game. Em diversos ambientes a mulher precisou lutar para ganhar seu espaço, seja na política, no mercado de trabalho ou no futebol. Vista como a responsável por cuidar do lar e dos filhos a mulher não era bem vinda em ambientes “tipicamente masculinos”, e esse fato era considerado normal por grande parte da sociedade. Enquanto o homem trabalhava, ganhava o sustento da casa e podia sair com os amigos para bares, partidas de futebol e diversos outros lugares, as mulheres precisavam estar em casa para cuidar dos filhos e do marido quando este chegasse em casa.

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Com o passar do tempo já tivemos diversas conquistas, e atualmente não aceitamos mais essa submissão. Mas, infelizmente, o machismo ainda é perceptível em muitos ambientes. Quer vê-lo na prática? Pesquisa no google os termos “a mulher e o futebol” e veja as fotos que aparecem. Em grande parte são mulheres seminuas e uma bola de futebol, ao invés de imagens de partidas e das atletas. E olha que a história de envolvimento das mulheres com o esporte mais popular do planeta já é até antiga: a primeira liga de Futebol feminino foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra, por mulheres que decidiram criar a própria liga após o futebol feminino não ser reconhecido pela Football Association (FA), federação que só reconheceu a modalidade em 1966.

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Com as conquistas do movimento feminista, as mulheres começaram a perceber que eram livres para fazer e gostar do que quisessem. É aí que entra o segundo ambiente “tipicamente masculino” em que nos inserimos. Desde criança somos criados com o pensamento que bonecas e panelinhas são para meninas e bonecos e vídeo games são para meninos: “eles são muito violentos para minha filha”. Nessa idade nossa noção de mundo ainda está em formação e nós aceitamos facilmente aquilo que nos é imposto. A EA Sports veio na contramão do machismo e traz o potencial das mulheres no futebol através do vídeo game.

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Para os homens que ainda consideram que “futebol e estádio são coisa de homem”, olhem para o passado e se imagine falando: “mercado de trabalho é coisa de homem, mulher não tem potencial para isso, tem que ficar em casa”. Se achou machista? Pois bem, as duas frases possuem o mesmo sentido, o mesmo tom preconceituoso que coloca os homens em um patamar superior as mulheres. Agora, se você não se considerou machista, volte 50 casas e reveja toda sua visão da sociedade.

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Tenho certeza que a mudança da sociedade está em nossas mãos, os jovens. É nossa obrigação não transmitir para as próximas gerações essa perspectiva que nos foi imposta. Há um tempo soube de uma história incrível que resume tudo isso que estou querendo transmitir. Dois homens se encontraram, e um deles estava com seu filho, que segurava uma boneca. Então seu amigo perguntou:

– Você deixa seu filho brincar de boneca? Não tem medo que ele se torne…você sabe…

– O que? Pai?

Não sei ainda o que esperar da jogabilidade das novas funções do FIFA 16, mas tenho uma certeza: esse é um passo para que em gerações futuras não seja preciso existir um post como esse, já que a igualdade entre gêneros estará naturalizada na sociedade. Como deixou bem claro o primeiro trailer do FIFA 16: “Não estamos aqui para assistir e ficar paradas. Esse é nosso jogo também”.

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