Review: 007 contra Spectre

“007: colcha de retalhos”

Vou adiantar a nota que darei ao filme lá no final da crítica: 6,5. Também faço questão de adiantar porque tirei tantos pontos do filme: enredo. Porque exatamente eu não gostei do roteiro desse filme? Em resumo, porque ele é uma gigantesca colcha de retalhos que por acaso resolveram filmar.

Vamos entender onde quero chegar com essa metáfora da colcha e porque ela justifica a nota que dei. Me corrijam se eu estiver errado, mas provavelmente você já leu uma HQ ou até mesmo um quadrinho com o seguinte plot: o heroi é obrigado a acabar com o plano maléfico do antagonista que queria, sei lá, explodir uma bomba atômica, destruir uma cidade, matar um cara importante, tanto faz. A treta é resolvida e no fim todos saem felizes, parabéns aos envolvidos. Mas aí, na história seguinte, o heroi descobre que tudo aquele vilão fez e até mesmo a sua vitória faziam parte de um plano maior ainda, mais audacioso, de um vilão ainda desconhecido.

Pronto, eu te resumi o enredo de “Spectre”. Caso fosse só isso, não seria um roteiro ruim, apenas previsível…, mas não, ele tinha que tentar justificar tudo que aconteceu nos últimos três filmes de 007 – todos da era Daniel Craig – unindo-os em uma mesma trama maior e super complexa.

007-contra-spectreDas atmosferas claras de Skyfall para o tom mais sombrio de Spectre

Porra nenhuma, não mete essa não. Isso tudo foi inventado às pressas pra esse filme e isso visível isso durante todo o longa. Vamos dissecar esse meu argumento. Não dá pra engolir que o plano de todos os outros vilões tenha tido alguma conexão com o roteiro desse filme especificamente. Fica forçado demais. Acompanhem comigo: Le Chiffre era um apostador de uma organização terrorista, certo? Até ai tudo bem, faz sentido ter alguém por trás dele, coordenando as ações; em Quantum of Solace temos Greene, o empresário que controla a distribuição de água e lucra bilhões nessa brincadeira, mas que no próprio filme parece ter sua participação encerrada, ao entregar todos os nomes da Quantum, sua organização mafiosa; em Skyfall aparece Silva, um ex-agente que quer matar a M e bom…ver o circo pegar fogo. Mas imagine só você que DE REPENTE, NÃO MAIS QUE DE REPENTE, todos essas figurinhas estão interligadas por uma organização maior ainda. Sei, tá bom.

Agora vamos analisar de maneira mais extensa o que é “007: Spectre” (título original). James Bond continua vivendo sua vidinha bacana de agente 00 enquanto o MI6 sofre uma pressão política absurda par abandonar as velhas táticas de espionagem e aderir ao mundo de vigilância e controle: câmeras, escutas, toda a parafernália SUPOSTAMENTE destinada a nos proteger. Bond resolve investigar uma organização mafiosa secreta, a Spectre, por fora dos canais legais e vive grandes confusões – insira a música da sessão da tarde aqui.

23BC57A100000578-2860828-image-m-75_1417706536867Juro pra vocês que quando esse carro apareceu no filme, tinha gente tendo orgasmos no cinema

O problema desse quarto filme da era Daniel Craig é que ele tenta misturar elementos de todos os outros. De Cassino Royale ele resgata a forte tensão romântica entre ele e a bond girl – interpretada pela francesa Léa Seydoux – e alguns cenários luxuosos europeus. De Quantum of Solace – pior filme da sequência Craig até agora – o novo filme traz o drama de Bond estar enfrentando uma organização secreta com alcance global e muito além (ou não) da sua capacidade de derrubar. De Skyfall são recuperados alguns questionamentos: será que o MI6 e o próprio James Bond não estão antiquados demais para lidar com os novos problemas pós-modernos que o mundo enfrenta? Ah, e também ficou nítida a tentativa de transformar o vilão de “Spectre” em um novo e mais caótico “Silva”, o antagonista do filme anterior, o que realmente não rola, no fim das contas. Não entregarei mais detalhes sobre o cara mau dessa história, mas já digo que a mim não convenceu.

E o que acontece quando você tenta misturar muitas coisas em um filme só? Você constrói uma excelente colcha de retalhos: improvisada e sem identidade própria.

Lea-Seydoux-as-Bond-Girrl-in-SPECTRE-VblogA bond girl do filme, uma mulher muito… simpática, como diria Pedrinho, nosso colunista

Mas calma pessoal, o filme tem qualidades. Algumas cenas são muito bacanas e realmente te deixam satisfeito por ter pago o ingresso; a luta contra o capanga parrudão interpretado por Dave Bautista – WWE, Guardiões da Galãxia, lembram? – é bem filmada, te fazendo entender exatamente o nível da merda que tá acontecendo; a perseguição de carro que acontece ainda na primeira hora do filme é muito legal, quase um tributo à franquia; a própria sequência inicial é excelente, com direito a uma caçada implacável com ação e mentiras a la James Bond.

Outro ponto positivo é a interação entre personagens “do bem”. Apesar de Moneypenny ficar reduzia ao papel de mera secretária de Bond, os outros integrantes ativos do MI6 tem uma participação interessante, ainda que coadjuvante. Destaque principalmente para Q – interpretado por Ben Whishaw – que agora está mais ativo do que em Skyfall, formando uma dupla cômica com Daniel Craig, quase um bromance de agentes secretos.

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“007 Spectre” é um filme que tentou absorver tantas coisas do seu antecessor, fechar supostos plots descontinuados e que no final contou uma história apenas razoável. Ficam algumas boas referências, como ao inferno totalitarista de 1984 e algumas boas sequências de ação, mas pouco mais do que isso. Ah, e a música tema do filme, de autoria de Sam Smith, é bacana, mas nada de espetacular também. No fim, fiquei com a sensação de que esse filme é uma espécie de desfecho da participação de Daniel Craig na franquia, o que veremos se vai se confirmar ou não. Melhor que Quantum of Solace, abaixo de Cassino Royale e bem abaixo de Skyfall, “Spectre” é apenas razoável.

65

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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