Opinião: o que todo homem deve aprender com Jessica Jones

Antes de começar o meu texto, gostaria de já deixar pra vocês a indicação de dois outros, ambos escritos por mulheres que problematizam de maneira profunda (mais do que eu seria capaz de fazer, inclusive) o seriado Jessica Jones. O primeiro é de autoria da Natalia Engler e está disponível nesse link: http://bitchpopblog.com/2015/11/23/jessica-jones-esqueca-os-super-herois-a-marvel-fez-uma-serie-sobre-abuso/.  O segundo é da colunista Helena Bertho e você encontra através desse link: http://azmina.com.br/2015/12/jessica-jones-e-pop-e-e-sobre-abuso/. Existem outras excelentes análises espalhadas pela rede, basta sair fuçando, lendo e aprendendo!

Mas então qual o diferencial desse texto? Me perguntei a mesma coisa antes de escrever. A única coisa que eu sabia é que precisava discutir com alguém as coisas que vi no seriado. Mas o que poderia eu oferecer que colunistas e blogueiras tão engajadas e competentes já não teriam falado sobre esse assunto? Depois de muito refletir, cheguei a conclusão de que precisava falar sobre o que eu, enquanto homem, comecei a aprender vendo essa série. A partir daí acabei percebendo que seria ótimo se todos os homens fizessem o mesmo exercício de reflexão ao qual me propus e refaço todos os dias a partir de agora.

jessicaJessica Jones, melhor série da Marvel até hoje – sinto muito, Demolidor

Um dos aspectos que mais chamou a atenção de muitos espectadores foi o protagonismo das personagens femininas. Ok, isso é meio óbvio: Jessica e sua amiga Trish praticamente resolvem a trama toda sozinhas. Mas o que realmente me impressionou foi como que os personagens masculinos tentam o tempo todo assumir esse protagonismo e acabam atrapalhando a resolução dos conflitos. Mesmo que em alguns momentos tenham as melhores das intenções, os homens da série tentam ajudar as mulheres mesmo que elas nunca tenham pedido ajuda. No episódio 5 isso fica nítido: o policial Simpson insiste para auxiliar Trish e Jessica no plano de capturar Kilgrave, enquanto que Jessica é enfática ao afirmar que ele não tem nada a ver com isso. A partir dessa cena comecei a refletir sobre minha própria vida e me peguei pensando: quantas vezes será que não tentei ser o heroi, o príncipe encantado tentando salvar a donzela em apuros, mesmo que na verdade a menina nem precisasse e até nem quisesse ser ajudada? Vamos ficar ligados, leks: se pedirem nossa opinião ou auxílio pra alguma coisa, aí a gente ajuda. Se não…senta lá, Cláudio.

jessica-jones-will-simpson-850x560.0.0Fica na tua aí, bazuca

Outro aspecto tange às discussões sobre estresse pós-traumático, as consequências do estupro para as vítimas, dentre outros temas relacionados. Obviamente não abordarei esses assuntos citados diretamente por falta de propriedade sobre o tema. A lição que tirei veio à partir da discussão que Jessica tem com Luke Cage, no episódio 3, quando ela finalmente consegue tomar coragem para introduzir o assunto Kilgrave. Chega a ser irritante como que Luke prefere duvidar da palavra dela sobre existir um homem com poderes de controle mental do que calar a boca e ouvir o que ela tem a dizer sobre o abuso sofrido por ela e Hope, uma das muitas vítimas do vilão. Por causa dessa sua atitude, Luke acaba não incentivando-a a falar sobre suas dores e as consequências do abuso. Quantas mulheres será que não deixam de discutir o assunto porque sabem que seus pais, irmãos, parceiros, enfim, simplesmente não vão dar ouvidos? Não tenho essa estatística em mãos, mas imagino que deva ser assustadora.

more-photos-of-jessica-jones-luke-cage-and-purple-man-on-the-set-of-a-k-a-jessica-jone-357524Excelente casal – quando o Luke fica quietinho então, melhor ainda

Outro ensinamento (na real, um lembrete) importante da série para nós, homens: mulheres fazem sexo. Sexo casual, inclusive, sem compromisso mesmo. Aliás, fazem isso pelo mesmo motivo que nós, homens: porque é prazeroso. E ninguém é puta, vadia ou etc. por causa disso. O que ouvi de colegas homens comentando que “Luke Cage é muito pegador mesmo, conheceu a mulher no primeiro episódio e já comeu” não tá no gibi (sem trocadilhos). Pena que ouvi poucos elogios do tipo “essa Jessica é foda, foi lá e pegou o cara, sem desenrolo nem nada, mandou bem”. Aliás, se eu e pelo menos uns 90% dos meus amigos homens tivessem a iniciativa e pegada que essa mulher tem, tava todo mundo mais bem resolvido.

Uma outra lição que Jessica Jones deixa para nós homens é que devemos parar com essa mania de defender estuprador. Quantas vezes já não vi notícia de estupro circulando no jornal, internet, etc. e homem comentando embaixo “é terrível mesmo, mas a menina fez isso e aquilo também aí, ai fica difícil”. Não caras, tipo… não, chega. Olhem para o Kilgrave: não importa que ele tenha um passado difícil, ele é um estuprador e pronto. NADA alivia os pecados dele ou justifica as atrocidades que ele faz com as pessoas (homens e principalmente as mulheres). Se gostei do personagem, não é porque ele tem uma voz engraçada ou planos bem bolados, mas é porque ele é o primeiro vilão da Marvel que simplesmente não dá pra torcer a favor: esperei do primeiro ao último episódio pela morte dele e vibrei quando aconteceu. Ponto final, sem “MAS”.

jessica-jones-kilgrave-handOlha o estuprador aí

O último aprendizado que citarei aqui, embora possamos tirar muito mais lições da série, é que o mundo feminino não gira em torno de homens. Como isso aparece na trama? Basta contabilizar o número de discussões entre Jessica e Trish, ou Hogarth e Pam, que não possuem homens como temática central. Apenas para exemplificar: no episódio 5 as duas protagonistas debatem sobre heroísmo, o que é ser uma heroína, etc. Gosto de ressaltar esse ponto porque já fui um dos muitos caras que, por exemplo, achava perda de tempo mulheres passarem esmalte já que seus parceiros homens não notariam suas unhas. Com o tempo, diversas amigas me fizeram perceber que se uma mulher quer pintar as unhas ou fazerem qualquer outra coisa, ela tem esse direito, afinal… é uma pessoa, né, com livre-arbítrio, autoestima… E qualquer homem que ficar dando opinião em sua vida sem ser consultado é, no mínimo, inconveniente. Então assim, que fique a dica de uma vez por todas: não somos essenciais dentro do universo feminino, beleza? E para quem acha que to forçando a barra, comece a ouvir mais as conversas de suas amigas e veja quantas vezes você ou algum outro homem é citado com destaque. Mas não vale ficar com ego ferido depois, ok?

Sem dúvida esse foi o texto mais difícil que já escrevi para a Drop Hour. Normalmente abro o documento em branco com muitas certezas sobre o assunto do qual vou falar e o que escrevei sobre ele. Dessa vez, havia milhões de dúvidas e alguns ótimos aprendizados que gostaria de compartilhar com meus amigos. Ainda estou errando e aprendendo: esse processo é incômodo, mas necessário. Então não fujam dele, não se escondam. Encarem-no de frente, com coragem, mas também com humildade suficiente para admitir que sim, muitas vezes estamos errados e não há vergonha nenhuma em receber broncas e lições de nossas parceiras, irmãs, mãe, companheiras, etc.  E por mais que não seja necessário, deixo o convite explícito para que as meninas leiam, comentem e problematizem esse texto. Até a próxima!

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

2 comentários em “Opinião: o que todo homem deve aprender com Jessica Jones

  • 6 de janeiro de 2016 em 00:51
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    Li, reli e estou aqui comentando com a vista embaçada. Não apenas porque amei a série,me identifiquei e achei a Jessica maravilhosa.
    Mas por ver um homem discutindo machismo a partir dessa temática e chamando toda a rapeize à reflexão.
    E sei que não é demagogia alguma sua.
    Só posso dizer que sinto orgulho em ler algo escrito com tanta sinceridade e humildade, mas em nenhum momento perdendo em conteúdo. Você fez o que poucos fazem: praticou o discurso. Colocar os links com os textos das blogueiras é não se apropriar das discussões que elas levantaram, e skm contribuir com o debate.
    Espero que assim como você decidiu assumir esse desafio de a cada dia se confrontar com o machismo que há dentro de nós (homens ou mulheres) , outros leitores façam o mesmo. Quem sabe a gente nao chega a uma geração de fãs de JJ e uma sociedade menos machista?

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    • 6 de janeiro de 2016 em 12:46
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      Oi Elena!

      Obrigado pelo interesse no assunto do post, pela leitura do texto e pelos elogios. Você argumentou tão bem que nem tenho mais o que falar, só agradecer mesmo, haha.

      Abraços!

      Resposta

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