Opinião: O que é uma boa adaptação?

Não é porque a adaptação é literal que ela é boa!

Adaptações, de maneira geral, acabam criando muita discussão na cultura pop. Seja de quadrinhos, jogos, livros, etc., as adaptações dificilmente agradam a maior parte do público e quando agradam acabam sendo vistas de maneira preconceituosa pelos fãs da mídia original.

Um personagem que não existe na mídia original, uma morte diferente, uma mudança física de um personagem…. Esses são alguns dos inúmeros elementos que as pessoas criticam. No entanto, será que mudar algumas características é de fato tão ruim assim? Afinal, o que faz uma adaptação ser boa ou não?  E, mais do que isso, será que ao criticar as adaptações as pessoas observam de fato todos os motivos por trás daquela decisão?

Uma adaptação é um recurso utilizado para ajustar um elemento dentro de outro. Dessa maneira, as mídias conseguem aproveitar de histórias e personagens em vários campos apenas transferindo os mesmos para o novo ambiente. Ao utilizar esse recurso, geralmente vemos a preferência por um recorte em determinado ponto na trama original (um livro por vez, no caso de grandes sagas; um recorte de alguma história emblemática de um personagem no caso dos quadrinhos; a escolha de determinados personagens e exclusão de outros). Transportar elementos de uma mídia para outra requer muito cuidado e estudo por parte dos diretores e roteiristas, uma vez que nem tudo é possível adaptar e, em alguns casos, não é válido adaptar. Tempo de tela, impacto visual, faixa etária do programa, escolha de atores… essas são alguns dos fatores que influenciam nesse momento.

O que faz uma adaptação ser boa, é ela saber mesclar a obra original com os recursos da nova mídia, criando assim uma experiência única para o público. Reconhecer a obra original é fundamental, mas não é o foco principal. O foco é criar uma narrativa que se encaixe na proposta do criador, uma adaptação é um produto novo, uma nova criação, uma nova história.

Uma boa adaptação não precisa ser, necessariamente, literal. No entanto, mudanças mal feitas devem ser sim criticadas e não devemos considerar qualquer adaptação como boa. Cabe aos criadores do produto saberem expressar de maneira coerente ao público as suas ideias e também que saibam respeitar o produto original, mesmo que seja uma paródia, como veremos em um dos exemplos mais à frente.

Alguns casos de adaptações ruins que podemos destacar são: O núcleo de Dorne em Game of Thrones.  Embora tenha importância no livro, com personagens fortes e muitas tramas para serem descobertas, a série de televisão reduziu a importância do núcleo, cortou boa parte dos personagens e alguns dos mais emblemáticos tiveram mudanças tão drásticas que nem condizem com a sua personalidade original, além claro da presença desnecessária de Jamie Lannister naquela região. Outro caso é do Coringa de Jared Leto (que já comentamos nesse texto: http://drophour.com.br/2016/08/11/quatro-grandes-defeitos-de-esquadrao-suicida/) onde o personagem foge completamente do padrão esperado pelo vilão clássico do Batman. Além de criar uma relação amorosa com a Arlequina que o roteiro deixa a entender que é algo bilateral e não um abuso explicito como deveria ser.

Doran Martell, um dos personagens mais inteligentes das Crônicas de Gelo e fogo, mas que foi completamente apagado na série da HBO.

O visual do Coringa de Jared Leto é o que menos me incomoda, se ele fosse assim mas tivesse um desenvolvimento condicente tava bom, mas não foi o caso.

Por outro lado, temos adaptações interessantes que, no entanto, são muito criticadas. Alguns exemplos que podemos destacar são: A escolha de Michael B. Jordan para viver o personagem Johnny Storm em Quarteto Fantástico. Muitos fãs dos quadrinhos reclamaram da escolha de um ator negro por descaracterizar o personagem, mas a essência do personagem foi mantida e B. Jordan conseguiu passar um pouco do John Storm rebelde, fã de carros e adrenalina. Embora o filme tenha sido um fiasco, o personagem do Tocha Humana não compromete o filme como muitos estavam cogitando. Outro exemplo que podemos dar é o personagem Mandarim em Homem de Ferro 3 que acabou sendo uma sátira do personagem criado por Stan Lee na década de 60. Embora muitos fãs tenham reclamado do Mandarim do filme não ter nada do Mandarim dos quadrinhos, devemos analisar o roteiro e a ideia de tornar cômico um personagem totalmente fora dos padrões atuais e com poderes que dificilmente seriam bem utilizados no filme. Isso não exclui outros problemas do filme e a adaptação ruim do arco extremis, mas a adaptação desse personagem em si foi bem construída.

Eu confesso que ri bastante quando veio o twist do Mandarim nesse filme, mas é uma pena que isso não tenha livrado o filme de ser bem medíocre.

O cara é um bom ator e interpretou bem o personagem, dos (muitos) problemas desse filme, Michael B. Jordan certamente não foi um deles.

Tendo esses quatro exemplos, podemos ver como os elementos que foram discutidos no início do texto se mostram tão importantes na hora de adaptar. O tempo de tela e a escolha de atores (nesse caso a falta de atores) de Dorne foram alguns dos seus problemas; O impacto visual do Coringa de Leto que acaba ignorando uma construção de personagem é outro problema; A escolha de um personagem negro para criar diversidade no elenco e o twist em que Sue Storm é adotada foi uma escolha interessante no roteiro; A releitura do personagem Mandarim que, mesmo tendo um bom tempo de tela e um impacto visual propositalmente ambíguo nos primeiros atos do filme, também foi uma escolha de adaptação ousada, mas interessante. São esses detalhes que a direção e o roteiro do filme ou série precisam levar em consideração e que as vezes passam despercebidos pelo grande público.

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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