Moana: Maui e o machismo nosso de cada dia

“O que há de todos nós, homens, em Maui?”

Quando fui ao cinema com minha namorada para assistir “Moana“, tinha boas expectativas para o filme. Acreditava que veria uma espécie de novo “Frozen”, com uma heroína forte, independente, que fugisse da fórmula clássica de donzela a ser salva pelo príncipe. Felizmente o longa me surpreendeu. Na minha opinião, Moana foi melhor que Frozen, equiparou-se à “Mulan” (o que na minha escala de qualidade significa muito) e boa parte desse sucesso ao meu ver se deu pela construção do personagem de Maui. O semideus transmorfo que acompanha a heroína reproduz em diversos momentos comportamentos que nós, homens machistas, praticamos em nossa sociedade.

Maui: semideus, transmorfo, heroi do mundo e…machista

Antes de propriamente entrar na discussão, já aviso que não quero aqui promover um debate sobre feminismo, a representação da mulher por parte de Moana, etc. Não é meu papel fazer isso, não teria nem base para isso, e já existem diversas excelentes análises com esse enfoque sobre o filme. Através de uma rápida visita ao Google você encontra as mais diversas, mas deixo aqui ao menos dois links de textos que seguem essa linha: http://www.siteladom.com.br/moana-um-mar-de-aventuras/ , da colunista Marina Morais e https://deliriumnerd.com/2017/01/06/moana/, da Camille Legrand.  Ah, e um último aviso: o texto está recheado de spoilers do filme, ok?

Eu achei muito inteligente como que os roteiristas do filme atacam a questão do machismo na sociedade sem citá-lo diretamente. Em tempos nos quais qualquer tipo de problematização, por mais simples, óbvia ou necessária que seja, já é encarada por muitos como “mimimi”, essa é uma boa tática para introduzir os debate sem perder público. A forma que a Disney encontrou para colocar essa estratégia em prática foram os diálogos e ações de Maui.

Não é preciso ser o “problematizador” para pegar alguns tópicos de discussão sobre machismo levantados pelo personagem. Em muitos momentos do filme Maui decide tomar a dianteira da situação, quase que como um solucionador de problemas. Duas cenas merecem ser destacadas: a primeira ocorre ainda na metade do filme, quando Moana e Maui vão invadir o esconderijo do caranguejo gigante, Tamatoa. Nessa sequência, diversas vezes Maui se coloca como o único capaz de entrar e pegar o seu Anzol mágico, sugerindo que Moana espere e fique de fora da ação. Quando ele “permite” que ela participe, a coloca numa posição de isca do inimigo. A segunda cena que lembro aqui já ocorre na sequência final, na primeira tentativa dos heróis de devolver o coração de Tefiti. Durante a ação, Maui ignora o plano da heroína e tenta resolver tudo do seu jeito. Obviamente a coisa não dá certo (porque ele é muito burro), o seu objeto mágico é quase destruído e ele ainda culpa a menina pelo infortúnio.

Apanhou pouco nessa cena, o coitado

Essa postura de Maui, ao meu ver, é uma representação de um comportamento diário que nós homens exibimos com nossas parceiras, irmãs, mães, etc. Quantas vezes pegamos algo para fazer porque, conscientemente ou inconscientemente, consideramos que elas simplesmente não darão conta daquilo? Pode ser desde levar as sacolas pesadas do supermercado à uma questão complicada no seu trabalho: quantas vezes não colocamos a mulher em segundo plano? Trabalhar em parceria com nossas companheiras de vida ainda é um desafio porque sempre fomos ensinados a ocupar essa posição de destaque. O homem deve trabalhar fora e sustentar (ao menos a maior parte) da casa; o homem deve proteger a sua parceira; a sociedade é tão machista que acha que homens tem poderes eletromagnéticos especiais, porque a cada microondas e chuveiro que queimam devemos magicamente resolver para provar que somos capazes – e se você não faz ideia do que aconteceu e como consertar o aparelho, você faz cara de entendido, fala nada com nada e sugere que é melhor jogar fora/trocar porque não tem conserto, afinal a aparência tem que ser mantida, né?).

Um recurso que a Disney utilizou para camuflar a discussão sobre o machismo e que ela recorre constantemente através de Maui é o estranhamento do personagem sobre Moana, uma humana, ter sido escolhida pelo oceano para salvar o mundo. Em alguns momentos do longa ele coloca a condição humana como inferior a dele, que é um semideus. Encarei esse aspecto do filme como uma metáfora para outra discussão: a posição do homem e da mulher dentro dessa sociedade machista. O homem está acima, cheio de privilégios, direitos e poderes e esse discurso se interioriza no sujeito e é reproduzido. Então quando Maui estranha que Moana possa ser uma heroína e até mesmo uma “escolhida”, a reação é semelhante ao de um executivo de uma grande multinacional que descobre que seu chefe na verdade é sua chefe,uma mulher. Ainda não encaramos isso como o “normal”, mas sim como algo estranho à própria organização. (Faço aqui uma ressalva: eu tenho a sensação de que isso vem mudando de algumas décadas para cá, ainda que talvez não na velocidade e intensidade necessária).

Aceita, Maui, ela é a heroína do filme. 

Uma questão que também fica implícita no filme e que eu sinceramente não só me surpreendi de ter visto no filme ,mas cheguei mesmo a rir com ela, é a fragilidade do Ego masculino. Você, homem, que lê esse texto agora, deve concordar comigo: é muito doloroso para nós falhar em qualquer coisa que seja, especialmente quando temos ao nosso lado uma mulher envolvida na situação. E por mais que tenha deixado agora implícita a questão sexual, não estou falando apenas dela. Voltando aos exemplos anteriores: não gostamos nem mesmo de admitir que a sacola do mercado tá pesada pra cacete e não tá dando pra carregar ou que não conseguimos consertar o microondas. Isso acontece com Maui no filme em dois momentos: quando ele não consegue usar seus poderes adequadamente e por isso perde para Tamatoa, o caranguejo, e no ato final, quando quase tem seu anzol destruído pelo vilão. Nas duas situações vemos o ego masculino destroçado, mas com reações distintas. Na primeira, Maui perde a confiança, se entristece e cabe à Moana dar um choque na realidade e mostrar a ele que, olha que louco, a vida continua, para de chorar e dá a volta por cima. Na segunda, ele encontra outra válvula de escape: ele se enfurece, desconta em Moana sua vergonha e foge, preferindo não encarar seus problemas. Em ambas um problema de desempenho retira a confiança do personagem masculino. E nem vou entrar em discussão sobre a representação fálica contida naquele anzol mágico hein…

É só o Anzol funcionar que ele fica assim, todo bobo

As formas pelas quais Maui desqualifica Moana no filme são tantas que até mesmo a esperteza e habilidade da menina são questionadas por ele. Quando ela pede que ele  ensine a velejar, ele se recusa, acreditando que ela simplesmente não leva jeito para a coisa. Como disse no inicio do texto, eu assisti ao filme com minha namorada, Juliana, e nesse momento ela observou a metáfora que eu não consegui: “é como se ele estivesse ensinando ela a dirigir”. Acho que é chover no molhado falar como que ainda existe preconceito em nossa sociedade com as motoristas mulheres. Moana implora para aprender a velejar e é obrigada a paralisar Maui para que ele não tenha escolha senão ensiná-la. Troque a questão da direção por outras e você verá que são muitas as formas de questionar a inteligência das mulheres em nossa sociedade: quantos homens simplesmente não ensinam as namoradas a jogar videogame ou mesmo a regra do impedimento do futebol só porque acham que elas não vão conseguir entender como funciona?

E quando lanço esses questionamentos é porque já vi esses cenários acontecendo, sendo que eu mesmo já reproduzi ao menos um deles. Quando vi minha afilhada, Juliana (sim, o nome é o mesmo da minha namorada, não confundam), de 7 anos, jogando Sonic, fiquei me coçando para a tirar o controle da mão dela para ajudá-la a passar pela fase. Mas ai eu me toquei: com 7 anos de idade eu já dava meus primeiros passos (e pulos) em Sonic, totalmente sozinho, errando, morrendo e recomeçando, até que chegasse ao nível que jogo hoje. Porque ela não conseguiria fazer o mesmo, então? O machismo é tão interiorizado que se manifesta até mesmo de maneira inconscientemente, então a luta contra ele é diária, constante e os pedidos de desculpa quando rolam episódios como esses são fundamentais.

“Moana”, ao meu ver, é uma das melhores animações da Disney não apenas por apresentar uma heroína (não princesa, cabe destacar) forte, mas por colocar junto com ela uma contrapartida masculina que exponha comportamentos machistas e suscite debates tão atuais. Nós, homens, podemos aprender muito com os erros de Maui, basta estarmos dispostos a problematizar, questionar e claro, mudar.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

2 comentários em “Moana: Maui e o machismo nosso de cada dia

  • 8 de Abril de 2017 em 16:14
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    Olá!
    Já assisti o filme e adorado… por muitos pontos em comum com você. Mas devo admitir que alguns pontos não havia me dado conta e fico muito feliz em ler o seu comentário sobre. Parabéns pelo belíssimo texto.
    Abraços

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  • 18 de junho de 2017 em 12:00
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    Pensei que ele só era egocêntrico…. kkk

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