Crítica: “O Poderoso Chefinho” é sério candidato a pior animação da década

“Um grande exemplo de como uma simples ideia às vezes não sustenta um filme”

Em diversos momentos da minha vida tive ideias que, na hora, achei geniais. Um slogan que parecia perfeito, um artigo acadêmico que se mostrava promissor, um presente que quando comprei parecia único… Mas aí entrou em cena uma coisa chamada “realidade” e eu percebi que o slogan era péssimo, o artigo não tinha fundamento algum e o presente era mais legal para mim do que para a pessoa que recebeu. Eu imagino que tenha sido mais ou menos isso que aconteceu com os roteiristas, produtores e direção de “O Poderoso Chefinho“, nova animação da Dreamworks. Em algum momento lá no início, quando o longa ainda era uma ideia no papel, todos devem ter achado uma ótima sacada. Hoje, no cinema, espero que finalmente tenham percebido a besteira que fizeram.

“O Poderoso Chefinho” (ou Boss Baby, título original) chegou aos cinemas brasileiros em abril desse ano. Dirigido por Tom McGrath, a nova aposta da Dreamworks tem alguns nomes de peso dublando as personagens: Alec Baldwin dubla o “chefinho”, o bebê marrento e protagonista do filme; Tobey Maguire, o eterno Homem-Aranha, dubla a versão adulta de Tim Templeton, o outro personagem principal da trama. Steve Buscemi dubla “Francis“, vilão da história. O enredo do filme é tão simples, absurdo e pouco interessante que posso resumi-lo em uma frase: um bebê com personalidade de um executivo adulto se infiltra em uma família para desvendar os segredos de uma corporação rival.

O Poderoso Chefinho Poster

Aqueles 7,50 da entrada e 1 hora e meia de vida que não voltam mais…

Acreditem em mim: o filme não vai muito além disso. Na verdade, 99% do longa se apoia em tentar fazer humor em cima das contradições em se ter um executivo em um corpo de bebê. Mesmo que vocês achem essa uma sacada genial, eu duvido que após meia hora de filme ainda continuem maravilhados com a história.

“O Poderoso Chefinho” é um dos casos raros de animação que não diverte, não emociona, não encanta e também não distrai. “Up: Altas aventuras”, por exemplo, é uma animação muito, mas muito triste, e por isso tornou-se um bom filme. “Toy Story” é um filme que encanta pela esperteza dos roteiristas: como eles conseguiram imaginar um mundo tão complexo para os brinquedos??? “Os Incríveis”, um dos meus desenhos favoritos até hoje, propõe vários questionamentos interessantes sobre a figura dos super-heróis enquanto nos diverte com os problemas familiares comuns e também os especiais de uma família super-humana. Já “O Poderoso Chefinho” tenta atirar para todos os lados e não acerta alvo algum.

Sabe como é constrangedor quando um humorista faz uma piada e a plateia fica em silêncio? Agora imagine uma animação, em todos os seus momentos de alívio cômico, receber essa resposta. Essa era a minha sessão no cinema hoje. O roteiro não consegue explicar elementos simples do filme: o bebê executivo, o “chefinho”, pertence a uma empresa governada por bebês “adultos” que tem o objetivo de… não sei, não entendi. A saga do bebê esquisito consiste em derrotar uma empresa rival que quer criar um protótipo industrial de cãozinho perfeito que roubará o amor dos pais. Ok, isso é um desenho para crianças e não estou exigindo um roteiro digno de Oscar, mas gente… isso não faz sentido algum e obviamente não consegue sustentar um filme inteiro.

O Poderoso Chefinho Dublador

Steve Buscemi é Francis, o vilão que você não respeita e nem vai lembrar direito minutos após a sessão. 

O longa tenta colocar para debate algumas questões – principalmente para os pais que foram obrigados a assistir – mas a tentativa é tão tímida e desajeitada que não dá certo. Os primeiros minutos do filme, por exemplo, dão a entender que teremos uma grande trama envolvendo os problemas de carência de uma criança após a chegada do irmão caçula, mas adivinhem, em pouco tempo o filme para de falar sobre isso e foca na empresa maligna dos cachorrinhos.

Para não dizer que não falei das qualidades, posso descatar a trilha sonora, que mesmo não estando a altura de grandes produções da Dreamworks, como “Shrek”, por exemplo, não faz feio e nos presenteia com alguns clássicos, como “Cheek to Cheek“, de Fred Astaire. A animação do filme é caprichada, com cenas coloridas e vibrantes, condizentes com a imaginação fértil de uma criança: uma corrida de bicicleta vira uma aventura em alto mar num piscar de olhos. É uma pena que esses recursos sejam desperdiçados em uma trama que não convence em momento algum.

“O Poderoso Chefinho” é seríssimo candidato a pior animação da década. Com um roteiro pobre baseado exclusivamente em uma única ideia fraca, uma trama que não deslancha e nem empolga, o longa não consegue honrar o histórico de boas produções da Dreamworks. E se você realmente acha genial a ideia de um bebê executivo, então por favor jogue no google “baby godfather memes” e divirta-se – mais do que conseguirá com esse filme, aliás.

O Poderoso Chefinho Crítica Nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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