Crítica: “O Círculo” é inquietante, complexo e assustadoramente possível.

“Ficção científica ou apenas o dia de amanhã?”

Muitas vezes quando começamos a assistir um filme, temos uma ideia geral de como o enredo vai se desenrolar. Em outras, o roteiro constantemente se transforma, desafia a previsibilidade e consegue preservar o suspense. Esses últimos são os filmes que fogem ao comum. Esses também costumam sem os longas lembrados após anos de sua estreia. “O Círculo”, felizmente, é um desses casos.

Adaptado do livro homônimo escrito por Dave Eggers, “O Círculo” é dirigido por James Ponsoldt e tem no elenco do filme uma de suas principais qualidades. Emma Watson é a protagonista da história, interpretando a jovem criativa Mae Holland; a outra estrela da companhia é Tom Hanks, que dá vida ao ambicioso empresário Eamon Bailey. John Boyega é outro ator de destaque no longa, no papel do misterioso Ty. A história gira em torno da empresa multinacional de tecnologia chamada “O Círculo”, uma mistura de Google, Facebook e Apple que pretende expandir seus negócios. E Mae Holland pode ser a chave para isso acontecer.

Trailer do filme. Tom Hanks tá nele? Então já to dentro. 

Expansão inclusive é uma palavra-chave para entender esse filme. A cada segmento de “O Círculo” o espectador tem a impressão de que as estratégias da empresa tornam-se mais ousadas e suas consequências mais devastadoras. A ganância de Bailey, aliada ao entusiasmo de Mae pela concretização de sonhos pela tecnologia, fazem da empresa um potencial adversário não apenas para outras companhias, mas para a soberania política de países e, principalmente, para a liberdade individual de todos os cidadãos.

O principal mérito do filme se dá na capacidade do seu roteiro de sugerir debates sem engessar a narrativa ao redor deles. Diversas criações do “Círculo”, assim como suas utilização por parte dos funcionários, levantam questões sobre as fronteiras entre vigilância e privacidade, o direito do cidadão de não estar “conectado”, as consequências da conexão constante para as relações humanas, as implicações éticas da privatização de determinados serviços, dentre outros. Essas e outras discussões são insinuadas aqui e ali durante a história, deixando para o espectador o papel de explorá-las ou até mesmo propor outras problematizações.

O Círculo filme

Saber é bom. Saber TUDO é melhor. 

Outro mérito da obra está, a meu ver, em propositalmente não “mastigar” todas as informações, ou seja, não explicar cada pedacinho da história. Eu gosto dessa estratégia, pois ela permite que o filme avance na narrativa sem perder tempo com detalhes e oferece ao espectador a chance de tirar suas próprias conclusões, montar suas próprias teorias, etc.

A única ressalva que tenho ao filme é o pouco destaque dado ao personagem de John Boyega, o Ty. Não sei se por uma questão de escolha dos roteiristas ou por uma dificuldade orçamentária em pagar o cachê de um astro em ascensão como Boyega, mas o fato é que o personagem quase não aparece na trama e pouco acrescenta à narrativa. O trailer sugeria uma participação maior e mais decisiva de Ty mas infelizmente isso não se concretiza, o que me deixou um pouco frustrado pois seria interessante para o filme explorar um pouco mais das motivações do jovem gênio e opositor às práticas do Círculo.

“O Círculo” oferece uma trama inquietante não apenas pelos complexos dilemas morais e éticos levantados, mas porque os eventos ocorridos na história são assustadoramente possíveis. Câmeras espalhadas pelo mundo vigiando nossos passos, companhias tornando-se mais fortes econômica e politicamente que diversos países, mas principalmente a ambição humana sufocando os direitos individuais dos cidadãos são elementos tão comuns em nosso cotidiano que as fronteiras entre ficção científica e realidade tornam-se indistintas.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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