Crítica: “Mulher Maravilha” é uma luz brilhante no fim do túnel dos super-heróis no cinema.

“Diferente, empolgante e, além de tudo, necessário”

Vocês lembram de uma época não muito distante – fim dos anos 90 e inicio dos anos 2000 – quando muitos de nós, ainda crianças, vibrávamos ao saber que veríamos nossos super-heróis favoritos nos cinemas? Esse “gênero” super-heroico não era exatamente uma novidade a essa época, mas filmes como “X-Men” e “Homem-Aranha” não eram tão frequentes assim, então cada estreia era um grandioso evento. Hoje, em 2017, vivemos uma situação bem diferente: esse tipo de filme se firmou, principalmente graças ao universo cinematográfico criado pela Marvel Studios, e hoje temos uma enxurrada de heróis e vilões de quadrinhos nas telonas. Estamos apenas em junho e “Mulher Maravilha” já é a terceira estreia desse gênero no ano. Felizmente, na minha opinião, o longa é o melhor deles até então e mostra que é possível reinventar a roda, oferecendo ao público algo que a DC não vinha conseguindo faz tempo.

“Mulher Maravilha” chegou aos cinemas brasileiros no início de junho, com direção da americana Patty Jenkins. No elenco, temos nomes de peso, como Gal Gadot como a própria Mulher Maravilha, Chris Pine (Steve Trevor), Robin Wright (Claire Underwood, ops, mentira, é a Antíope) e também David Thewlis, o nosso eterno professor Lupin. O longa é o primeiro filme de ação da diretora, que tinha não apenas a responsabilidade de entregar o primeiro longa com uma protagonista super-heroína nesse novo universo cinematográfico da DC, mas também mostrar um produto interessante e capaz de apagar as péssimas impressões que “Batman vs Superman” e “Esquadrão Suicida” deixaram.

A Mulher Maravilha quebra tudo nesse trailer do filme

O roteiro, no início, é exatamente o que esperávamos: Diana vive uma pacata vida com suas companheiras amazonas em Temiscira quando um avião cai nas águas ao redor da ilha. O piloto, um homem chamado Steve Trevor, traz notícias terríveis: existe um mundo lá fora e ele não está nada bem. Nações estão em guerra e o mundo dos homens está por um fio de perder-se definitivamente no caos. E onde há guerra… lá está Ares. Ares, o deus da Guerra, é o grande inimigo dos homens e das próprias Amazonas, filhas de Zeus que juraram proteger a humanidade. Logo, Diana se vê obrigada a partir com Trevor para o fronte de batalha, a fim de deter a divindade – e de quebra, terminar a Primeira Guerra Mundial.

A história segue uma estrutura já esperada: o primeiro ato apresenta a vida Amazona de Diana e seu primeiro contato com o mundo dos homens, para em seguida ela se deparar com os horrores da guerra e, no fim, finalmente ocorrer o grande confronto com os vilões. Quando fiz a ressalva de que apenas no início o roteiro já é o esperado, é porque ao decorrer do longa o enredo superou minhas expectativas. Eu esperava uma construção de filme muito ancorada ou na jornada do herói, ao estilo Capitão América (até mesmo pelo cenário de guerra) ou baseada em uma agenda progressista que enfatizasse a posição da Mulher Maravilha como ícone das mulheres no universo dos super-heróis. Surpreendentemente, o enredo avança por outros caminhos.

A primeira guerra mundial é retratada no longa não como um conflito entre nações, mas entre humanos. Humanos que podem ser bons ou ruins, as vezes podem até mesmo ser bons e ruins simultaneamente, e são lições como essas que Diana vai recebendo durante seu envolvimento no conflito. Não há lados nesse combate, não há certo ou errado: todos tem sua parcela de culpa. Na construção desse debate se destaca a introdução dos personagens que auxiliam a Mulher Maravilha e Trevor em sua missão: os coadjuvantes Shameer, Charlie e o “Chefe” representam, cada um a sua maneira, as qualidades e defeitos do mundo humano. Todos são de alguma forma excluídos pela sociedade por atributos que não deveriam estigmatizá-los, mas acabam marcando suas vidas. Todos são vítimas, mas também lutam em uma guerra e matam pessoas nesse processo.

Sobre a agenda progressista a qual eu me referi anteriormente, felizmente, ao meu ver, ela está presente sim no filme, mas de maneira agradável e inteligente. Muitos homens (machistas, nem preciso dizer) viam no filme uma ameaça ao seu estilo de vida e sua visão de mundo, um filme produzido com intuito de diminuir a força masculina no mundo nerd, e especialmente, no universo super-heroico. Mas o longa não é sobre isso. “Mulher-Maravilha” mostra sim a força da mulher na sociedade, é um ícone de representatividade nesse gênero, mas ele não força o debate a ponto de torná-lo chato. Não há menosprezo do gênero masculino em nenhum momento da história: pelo contrário, o que é mostrado e debatido é como que em ambientes tipicamente masculinos problemas não são resolvidos por causa da teimosia e recusa em tentar soluções diferentes. Em diversos momentos Trevor tenta vencer a guerra através de estratagemas e táticas que apenas rodeiam o problemas, sem enfrentá-lo, e nesse processo tenta restringir as ações da Mulher-Maravilha. Mas que bom que o filme é dela e ela faz o que quiser nele, né?

Mas para tirar o 10, o filme precisava também ter feito direitinho a lição de casa no quesito efeitos especiais, o que não aconteceu. Enquanto algumas cenas de ação são realmente impressionantes e conseguem passar a dimensão do que é um confronto entre deuses – a luta entre Ares e Mulher-Maravilha é bem épica –  o filme consegue errar em efeitos simples. Alguns saltos da super-heróina, por exemplo, assim como algumas sequências em câmera lenta apresentam efeitos especiais são defasados que acabam tirando o potencial da cena. Especialmente depois de termos visto uma super-produção como “Guardiões da Galáxia 2”, tão poderosa em termos de CG, Mulher Maravilha acabou ficando devendo nesse ponto.

“Mulher Maravilha” é uma agradável e brilhante luz no fim do túnel dos filmes super-heroicos. O filme nos faz sonhar com um universo cinematográfico da DC que se mantenha nesse nível e lembra à Marvel Studios como é possível fazer um filme de super-herói sem apelar necessariamente para o humor e crossover constantes.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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