Crítica: Logan, Hugh Jackman se despede do ser personagem icônico em grande filme

“O fim”

Março de 2017 marca o fim de uma era nos filmes de super-heróis. Hugh Jackman interpretou pela última vez um dos personagens de maior sucesso em sua carreira: o X-Men Wolverine. Ao todo foram nove participações em longas atuando como o mutante canadense, seja em filmes da franquia X-Men ou em aventuras solo, contando até mesmo pequenas pontas feitas nesses longas. Logan presta um grande tributo à história de Wolverine e do próprio Hugh Jackman, e mesmo que não tenha atendido todas as minhas expectativas, acredito que tenha sido um desfecho à altura do que ambos mereciam.

 Logan se passa em um futuro próximo: 2029 – em alguma timeline que nem adianta muito tentarmos entender em qual seria. Na história, encontramos um Wolverine bem mais velho do que estamos acostumados. Visivelmente debilitado por alguma doença, Logan trabalha como motorista – de Uber ou qualquer coisa do tipo. Quando não está trabalhando, ele vive mais ou menos isolado da sociedade com dois outros amigos mutantes: Caliban e o eterno Charles Xavier. O problema é que a idade chega para todos, então Xavier, agora nonagenário, tem problemas psiquiátricos e com isso possui extrema dificuldade de controlar seus poderes. Isso o torna perigoso, e como o governo americano nunca foi muito fã de deixar mutantes dando bobeira por aí, cabe a Logan ter de se esconder e ao mesmo tempo cuidar de seu (literalmente) velho amigo.

O ponto chave do roteiro e, de certa forma, o grande vilão do filme, é o tempo. Não se sabe, ao menos no início do longa, o que aconteceu aos X-Men, mas o que é dito é que desde 2007 nenhum novo mutante nasceu e quase todos que existiam estão mortos ou desaparecidos. Logan e Xavier, dois dos poucos sobreviventes, estão muito velhos para poderem ser a grande esperança dos mutantes. Assim, Logan apenas continua sobrevivendo, esperando para ser finalmente vencido pelo tempo. Felizmente para ele, Xavier e para toda a raça mutante, uma garotinha chamada Laura (ou X-23, o que preferir) os encontra e traz consigo um novo objetivo: chegar até um local chamado de “Éden” no qual, supostamente, outros mutantes os esperam. Infelizmente para eles, uma organização está caçando a menina e seus soldados estão prontos para matar qualquer um que se meter em seu caminho.

Acredito que para falar sobre esse filme o melhor caminho seja separar o que achei bom do que foi decepcionante. Para começar com os elogios, destaco aqui o grau de violência colocado em cada cena de ação. Não sou defensor de que toda luta tenha de ter pessoas decepadas, ou com cabeças perfuradas, sangue na tela, nada disso. Mas um filme de Wolverine, especialmente um longa que trata em boa parte do tempo sobre o que significa para uma pessoa ser uma máquina de combate mortal, as consequências e o sofrimento decorrentes dessa condição, necessita disso. E nisso a produção não foi econômica: cada batalha é uma matança generalizada, uma brutalidade que nunca tinha visto em um filme de super-herói – nem em Deadpool. Cada vez que Logan abria os braços, soltava as garras e começava a correr, só conseguia pensar: “pqp, lá vem ele”. É exatamente isso que, de certa forma, sempre esperei de um filme do personagem.

Outro ponto positivo a se destacar é que novamente, a exemplo de “Wolverine: Imortal”, Logan não teve um excesso de personagens, especialmente mutantes, no filme. Além disso, todos os protagonistas e também os coadjuvantes não apenas exercem papéis importantes na trama, mas como também estabelecem relações interessantes uns com os outros. O trio Logan/Xavier/Laura é bem interessante de se acompanhar, pois apresentam diversas dinâmicas dentro do enredo. Eles contrastam idades – infância, vida adulta e terceira idade – sofrem de maneiras distintas, reagem de maneiras por vezes opostas aos contratempos encontrados no caminho… O filme cresce nos momentos em que os três estão juntos: os diálogos entre Logan e Xavier, principalmente, são os mais interessantes e importantes para o enredo.

Outro grande mérito do enredo do filme foi conseguir conciliar elementos relacionados à vida de Logan – sua condição física, seu sofrimento, sua relação pessoal com Xavier, etc. com questões mais amplas, como o cenário dos mutantes nos Estados Unidos. Isso permitiu com que o filme não ficasse totalmente deslocado do macrocosmo mutante – como acontece em “Wolverine: Imortal”, por exemplo, o qual tem zero relevância para o universo mutante como um todo – mas ao mesmo tempo deixou Logan com cara de, bem, Wolverine mesmo.

Aí eu chego ao segundo momento da minha crítica, na qual falo de alguns pontos do filme que não são necessariamente ruins, mas que simplesmente me decepcionaram. O primeiro ponto é a própria ambientação do filme. Quem leu a HQ que inspirou o filme, Velho Logan, sabe que na história original os Estados Unidos vivem uma situação péssima: os vilões tomaram o controle, fatiaram o país, a coisa degringolou e enfim, ficou quase todo mundo na merda. O primeiro trailer de Logan sugeria um cenário próximo a isso, sem os super-vilões e etc, mas minimamente um país um tanto quanto confuso. Entretanto, pouco disso é visto no filme. Em certos momentos esse 2029 é descrito, seja explicitamente ou implicitamente, como sombrio. Um exemplo é a cena na qual mostra a fronteira entre Estados Unidos e México patrulhada e uma rejeição explícita de alguns rapazes americanos aos imigrantes. Em outro momento Logan reclama explicitamente de veículos sem motorista percorrendo as estradas. Em outra cena um personagem secundário critica a produção de novas bebidas que tornaram-se populares dentro do país. Ainda que existam esses momentos dentro do filme, a sensação que ficou para mim é que, tirando os dramas pessoais dos protagonistas, o mundo está tão complicado quanto sempre foi. O cenário sugerido em “X-Men: Dias de um futuro esquecido”, por exemplo, me parece muito mais sombrio.

A trilha sonora do filme também me decepcionou e aí posso dizer que a culpa é inteiramente do trailer. Você não pode colocar Jhonny Cash no primeiro trailer do longa e depois, quando finalmente entrega o seu filme de 2 horas e 20 minutos, deixar para tocar alguma coisa do cara só nos créditos. Isso é maldade: eu juro para vocês que fiquei esperando que em alguma das 378 cenas de estrada do filme tocasse qualquer música do homem, mas não fui atendido.

Logan fecha com chave de ouro a participação de Hugh Jackman na história dos filmes de super-herói, dando ao ator a oportunidade de interpretar talvez o mais fiel Wolverine da história do cinema. O filme se fortalece nos dramas pessoais de Xavier e Logan, encontra na personagem de Laura/X-23 tanto um alívio cômico quanto a esperança de vida para os mutantes, oferece violência e sangue em doses cavalares, e na ausência de vilões de peso, apresenta o tempo como o grande inimigo a ser batido.

Logan Crítica Nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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