Crítica: Designated Survivor, quando House of Cards, 24 horas e a Telltale Games se encontram

“Quando House of Cards, 24 horas e a Telltale Games se encontram”

Passear pela Netflix, atualmente, significa se deparar com dezenas de séries originais esperando para dar o bote e te fazer ficar viciado. Mas se você é como eu e tem que se dividir em mil tarefas, provavelmente não tem tempo de se dedicar a mais do que uma ou duas séries de cada vez. Logo, é necessário treinar a pontaria para dar aquele tiro certeiro na hora de escolher o que ver. Designated Survivor me atraiu já na sua sinopse de duas linhas oferecidas pela Netflix, me conquistou já no primeiro episódio e hoje aguardo ansiosamente cada um dos novos episódios.

A trama de Designated Survivor se desenvolver a partir de uma premissa simples, mas simplesmente deliciosa quando trabalhada corretamente: o que aconteceria se todo o alto escalão do governo estadunidense, desde o presidente, passando pelos principais secretários e até mesmo o congresso americano, fosse assassinado por um ataque terrorista? Quem assumiria o posto de “líder do mundo livre”? A resposta está no nome da série: o Designated Survivor, ou em uma tradução livre, o sobrevivente escolhido.

Designated Survivor Poster

A comunicação visual do seriado é bem bonita e também torna a produção atraente em uma primeira olhada

A própria série já te explica o que seria esse sobrevivente escolhido no piloto e nesse mesmo episódio já te dá uma dimensão das consequências do ocorrido. Em toda reunião do governo americano no qual o alto escalão comparece em sua totalidade, é determinado um Designated Survivor que deve ficar afastado dos demais governantes, para caso aconteça algum acidente ou atendado, exista alguém da cadeia de comando que possa assumir o governo. Pois bem, um atentado realmente ocorreu e coube a Thomas Kirkman (interpretado por Kiefer Sutherland, o lendário Jack Bauer), o secretário de Habitações e Desenvolvimento Urbano, assumir a presidência dos Estados Unidos.

O problema é que pela constituição, Tom Kirkman pode até ser o novo presidente, mas simplesmente quase ninguém respeita a sua presidência porque não estão nem aí para a constituição. Kirkman é considerado despreparado, fraco e até mesmo ingênuo demais para ocupar uma posição tão alta e cheia de responsabilidades. O próprio ex-secretário se pergunta se tem capacidade de ser o novo presidente dos Estados Unidos. Nos momentos em que a série se desenvolve a partir desses questionamentos políticos e éticos sobre o que significa ser o chefe de um país, Designated Survivor chega ao seu ápice e torna-se irresistível.

Tom Kirkman Designated Survivor

Kiefer Sutherland agora é o presidente Tom Kirkman: o personagem de temperamento calmo e diplomático é bem diferente de Jack Bauer, que consagrou o ator. 

Quando afirmei, ainda no subtítulo, que a série tinha um pouquinho de House of Cards, me referi à questão da presidência. No núcleo da Casa Branca, Tom Kirkman e seus subordinados têm de lidar com todo tipo de jogos de poder: intrigas entre antigos rivais políticos, a pressão da imprensa, os interesses pessoais se sobrepondo aos interesses da nação… A grande diferença para a série estrelada por Kevin Spacey é que ao contrário de Frank Underwood, que é um político sem escrúpulos, ambicioso e que usa tudo e todos a seu bel prazer, Kirkman é uma espécie de Capitão América de Washington, tentando resolver todas as questões políticas da maneira mais ética, justa e humanitária possível.

Entretanto, existe outro núcleo dentro da série a faz se distanciar de House of Cards e se aproximar da fórmula de 24 horas (não deve ser à toa que temos Kiefer Sutherland no elenco, certo?). Enquanto Kirkman tenta resolver os problemas na Casa Branca, uma agente do FBI, Hannah Wells (interpretada por Maggie Q) investiga quem são os verdadeiros responsáveis pelo atentado terrorista que dizimou o governo estadunidense. Essa investigação ganha contornos de teorias da conspiração: assassinos misteriosos, ligações de pessoas desconhecidas revelando informações, a descoberta de um traidor no governo… A cada episódio novas informações são reveladas e mais uma dezena de perguntas são levantadas, obrigando a agente Wells e o espectador a quebrarem a cabeça tentando entender onde tudo isso vai dar. Esse núcleo é bem menos interessante que o da casa branca, na minha opinião, mas ainda assim oferece alguns plot twists bacanas e com certeza dinamizam um pouco a série, oferecendo um contraste legal aos diálogos e cenas lentas de Kirkman e companhia.

Aaron Shore Designated Survivor

Olho nele: Aaron Shore, o braço direiro de Kirkman, pode ser (ainda mais) ardiloso do que parece. 

Com relação aos personagens, a série faz um bom trabalho ao apresentar quase todos já no primeiro episódio e continuar desenvolvendo as suas personalidades, competências e até mesmo a relação entre eles nos demais episódios. O núcleo da casa branca conta, principalmente com quatro grandes personagens. Além de Kirkman, temos Aaron Shore (Adam Kanto), o chefe de gabinete, político até o último fio de cabelo e que faz o espectador se perguntar o tempo todo de que lado está. Contrastando com Shore temos a conselheira Emily Rhodes (Italia Ricci), que assim como Kirkman é dotada de um bom coração e é capaz de improvisar soluções para problemas que pareciam insolúveis. Por último, mas não menos importante, Seth Wright (Kal Penn) é o redator dos discursos do presidente e através dele podemos ver os desafios que um governo tem ao lidar com a imprensa.

O núcleo do FBI é menos rico em variedade e qualidade. A agente Wells é a protagonista da investigação, mas diversas vezes é assessorada pelo diretor-assistente Jason Atwood (Malik Yoba), uma espécie de chefe/pai da agente cuja burrice e teimosa certas vezes te deixa com vontade de socar a televisão. Abaixo de Wells temos o agente Chuck Russink (Jake Epstein), o hacker e alívio cômico da série. A grande decepção para mim foi a família de Kirkman. Sua esposa, Alex Kirkman (Natascha McElhone) sugere em diversos momentos que acrescentará dilemas à série, não apenas por ser companheira do presidente, mas também por ser uma advogada envolvida com questões legais envolvendo Imigração, mas nunca realmente concretiza essa promessa. Os filhos do casal destoam ainda mais: enquanto o filho mais velho, Leo (Tanner Buchanan), ainda tem breve momento de destaque dentro da série, a filha caçula, Penny (Mckenna Grace), simplesmente some e nos deixa na dúvida se está viva ou morta.

Designated Survivor FBI

A dupla de investigadores do FBI: a mulher inteligente, destemida e corajosa, e o chefe grandão, covarde e tão burro que nos faz pensar como ele chegou ao posto que ocupa. 

Por último, quando mencionei no subtítulo que a série tinha um gostinho de jogo da “Telltalle Games”, me referia aos momentos nos quais Kirkman é obrigado a tomar decisões difíceis. Assim como em The Walking Dead, principal jogo da empresa, no qual o jogador é obrigado a fazer escolhas que sempre deixam alguém insatisfeito ou desfavorecido, Tom Kirkman se vê obrigado a decepcionar pessoas, sejam companheiros de Washington, sua família ou até ele mesmo. Só para citar um exemplo, mas sem dar spoiler do resultado: quando o governo encurrala um terrorista  suspeito do atentado a Washington, Kirkman deve decidir: ordenará a ofensiva do exército americano, mesmo que isso possa resultar em mortes de civis e operativos, ou tentará uma solução diplomática, que pode significar uma vitória “limpa”, mas que caso dê errado praticamente enterra as chances de capturar o terrorista? Não há escolhas fáceis, não há decisões sem risco e sem prejudicados, e é delicioso ver o presidente tentando conciliares seus valores com o que Washington e a cadeira que ocupa exigem.

Designated Survivor me conquistou com seus questionamentos sobre o que significa ser um presidente que ninguém quis eleger. Ainda que os momentos de investigação e teoria da conspiração da série não sejam o mais interessante, oferecem um bom contraponto aos diálogos e reflexões propostas pelo núcleo da Casa Branca. Se você procura por uma série que misture as intrigas e jogos políticos de “House of Cards”, a ação e espionagem de “24 horas” e algumas escolhas morais difíceis típicas dos roteiros da Telltalle Games, essa é a pedida certa.

Designated Survivor Crítica Nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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