Crítica: Defensores (Netflix)

Crossover da netflix acerta na interação entre os personagens, mas persiste em erros passados

Com a popularidade dos crossovers no gênero de super-heróis, a Netflix deixou os fãs da Casa das Ideias com altas expectativas com a série dos Defensores. Com o desafio de unir os distintos heróis urbanos que apresentou nas suas quatro séries solo, o serviço de streaming entregou ao público uma série que, apesar de insistir em alguns erros, termina com um saldo positivo.

A relação dos personagens como destaque

Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro chegam em Defensores já calejados de suas experiências pessoais e isso reverbera durante os oito episódios. Suas histórias prévias são bem exploradas pelo roteiro e servem como motivações para que cada um dos protagonistas entre na luta contra o Tentáculo. A própria organização comandada pelos vilões chega com um entrosamento que foi construído gradualmente. Essa relação tanto dos vilões quanto dos protagonistas é o que sustenta a narrativa e faz a série ter bons momentos.

Com uma proposta que já vinha sendo trabalhada, a série utiliza dos seus oito episódios para resolver, de maneira objetiva, o confronto e para explorar a relação do grupo recém-formado. Fica claro que falta entrosamento entre os personagens, mas isso era esperado e, no entanto, o relacionamento que é construído convence e é feito de maneira orgânica. Há também a preocupação em deixar cada membro do grupo com destaques próprios e isso fica nítido não só no roteiro, mas na preocupação da direção de arte em utilizar de jogos de luz e cor para caracterizar cada um dos protagonistas.

Outro ponto que contribui para a química dos heróis é o elenco de apoio que não só motiva os protagonistas como também se relaciona muito bem e deixa espaço para possíveis séries derivadas. Colleen (Jessica Henwick), Misty (Simone Missick) e Claire (Rosário Dawson) acabam tendo um espaço maior em tela, mas todos os amigos dos Defensores acabam tendo papeis fundamentais para a trama e para o amadurecimento dos mesmos.

Matt Murdock (Charlie Cox) e Jessica Jones (Kristen Ritter) são os destaques e roubam a cena em diversos momentos. No entanto, relação entre Luke Cage e Punho de Ferro (clássica dos quadrinhos) é bem apresentada e deixa no ar a possibilidade de uma série com os dois juntos. Punho de Ferro, no entanto, é o principal problema da série. Apesar de ser o centro da trama, o personagem interpretado por Finn Jones é de longe a pior coisa dessa temporada. Com uma atuação questionável desde sua série solo, Jones chega com um personagem deslocado e previsível em suas ações.

O tentáculo se resolve, mas de maneira rasa e acompanhado de lutas ruins

Mesmo com a atuação fraca de Jones, a trama avança e finalmente vemos o propósito do Tentáculo em Nova Iorque. Depois de muitas idas e vindas e grandes figuras da organização sendo reveladas, cabe a Elektra (Elodie Yung) ser a grande vilã e a peça final do grande quebra-cabeça que vinha sendo construído até aqui. No entanto, o propósito acaba sendo algo raso e os próprios vilões da organização parecem ter percepções diferentes sobre o objetivo final.

Se a relação dos personagens se destaca, o mesmo não pode ser dito das cenas de ação. As coreografias e as habilidades pouco explicadas dos personagens continua sendo um problema. Embora alguns personagens como Demolidor e Elektra tenham coreografias melhor apresentadas, todos os demais acabam tendo um estilo de luta genérico e falta coerência nos golpes (em algumas cenas, por exemplo, vemos personagens dando um soco para um lado e o vilão caindo para o lado oposto). Podemos para notar uma melhora em relação ao que foi feito em Punho de Ferro, mas ainda não é o suficiente.

Aliado ao problema de coreografia, fica evidente a dificuldade da direção em equilibrar os poderes e habilidades dos heróis. Luke Cage e Jessica Jones parecem ter as mesmas habilidades e, no caso da Jessica, parece que temos uma regressão na sua força se compararmos com a sua série solo. Já Punho de Ferro continua não parecendo ser um mestre de artes marciais e, quando divide tela com Demolidor, a impressão que fica é de que o ninja cego teve um treinamento mais eficiente que o guardião de K’un Lun.

Vale ainda ressaltar que Nova Iorque, embora seja constantemente citada, é pouco explorada visualmente. Para uma série com proposta urbana e com heróis que dizem amar o local onde mora, vemos pouco de ambientação, salvo o Harlem, local onde vive Luke Cage. A escolha da direção por utilizar locais fechados para quase todo o desenvolvimento da história afasta o público da tensão criada em relação ao perigo que a cidade sofre. O que temos é uma situação que precisa ser evitada para salvar a população, mas pouco importa ser em Nova Iorque ou não.

Conclusão

Os Defensores é uma série que consegue extrair boa parte do potencial que tinha, mas não chega no ponto ideal. Com relações bem construídas e ganchos futuros bem estabelecidos, a série acerta no worldbuild que a Marvel/Netflix vem criando. Mas continua pecando na ação que começou como destaque na primeira temporada de Demolidor, mas foi caindo nas produções seguintes. O saldo final é uma série que diverte, mas  que não deverá se tornar um marco como seu irmão nas telonas, Vingadores, se tornou.

Defensores Crítica Nota
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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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