Crítica: Cães Selvagens

“Cão que muito ladra e pouco morde”

Existem filmes que são os grandes ícones de seu gênero. “Titanic”, por exemplo, é um titã (sem trocadilhos) dos romances. “Matrix” é um exemplo de excelente sci-fi. “À espera de um milagre” é um senhor filme dramático. Entretanto, existem outros longa-metragem que possuem elementos que o aproximam de diferentes gêneros ao mesmo tempo, tornando-o difícil de definir. Posso citar como exemplo uma das minhas obras cinematográficas preferidas, “O show de Truman”, que flerta entre ficção, drama e comédia. E, por último, existem aqueles filmes que tentam entregar diversos tipos de experiência ao mesmo tempo e acabam por tornar-se um filme medíocre em diversos aspectos. Cães Selvagens está nessa categoria: um drama sem profundidade e um filme de ação que não empolga.

“Cães Selvagens” (ou “Dog eat dog”, no original) estreia oficialmente no Brasil em 6 de abril e conta com a direção de Paul Schrader. Baseado no livro homônimo escrito por Matthew Wilder, o longa conta com algumas estrelas em seu elenco. Nicolas Cage interpreta Troy, um dos protagonistas do filme. Willem Dafoe, em sua sétima parceria com o diretor Paul Schrader, dá vida ao personagem “Mad Dog”. Christopher Matthew Cook interpreta Diesel, e é ao redor desses três personagens que a trama gira.

Cães Selvagens Poster

Nicolas Cage e Willem Dafoe são os destaques do cartaz oficial do filme

Troy, Mad Dog e Diesel tem algo em comum: todos são ex-presidiários, não querem retornar para a prisão, mas também não tem vontade alguma de andar na linha para evitar isso. Para sustentar sua vida desregrada de uso de álcool e drogas, prostitutas e todo tipo de aventura moralmente questionável, eles aceitam pequenos serviços ilegais para descolar uma graninha. Entretanto, lentamente essa vida vai cansando os criminosos e eles decidem que está na hora de arriscar tudo em um grande crime para conseguir uma bolada.

Esse enredo proposto pelo filme, ainda que um tanto quanto batido, poderia funcionar se realmente fosse entregue no longa. O primeiro ato, no qual ainda conhecemos os personagens, não é brilhante, mas pelo menos dá os contornos necessários a cada um dos três protagonistas. O segundo ato apresenta as dúvidas e receios dos ex-criminosos em continuar nessa vida, gerando uma grande expectativa para o terceiro ato, no qual o grande crime ocorreria. Infelizmente, o tal grande crime e as consequências do mesmo são tão mal aproveitados que a impressão que o espectador fica é que o filme não só poderia, mas deveria ter tido pelo menos 30 minutos a mais para que realmente fosse desenvolvido o enredo proposto.

O ponto alto do filme – e talvez um dos poucos motivos pelos quais não saí frustrado do cinema – é a atuação de Willem Dafoe como “Mad Dog”. Adotando um visual meio “seu madruga”, Dafoe entrega ao espectador um sujeito paranoico, instável, violento e, ao mesmo tempo, carismático. Mad Dog não apenas age como um elemento caótico dentro da trama – é quase impossível adivinhar o que o personagem fará na cena – como também funciona como alívio cômico para os momentos de tensão do filme.

Ainda que o filme tenha méritos, como por exemplo, algumas piadas bem encaixadas e cenas esteticamente diferenciadas, principalmente pelos enquadramentos e jogos com luzes e cores, Cães Selvagens não atinge os requisitos de nenhum grande gênero ao tentar fazer de tudo um pouco. As cenas de ação são poucas e malfeitas. O drama que poderia ser desenvolvido em cima das reflexões dos protagonistas sobre suas próprias escolhas e as consequências de serem ex-condenados não é entregue de maneira satisfatória. Com um final abrupto, o filme deixa a sensação de que poderia ter sido bem melhor caso a trama fosse trabalhada com mais calma e paciência.

Cães Selvagens Crítica Nota

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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