Crítica: Até o último homem (Hacksaw Ridge)

Com a fé em harmonia com a violência, Mel Gibson apresenta um filme de guerra sob a ótica de um pacificador

Ao pensar no cenário de guerra, normalmente lembramos de morte e destruição, mas dificilmente de redenção ou salvação. No entanto, através de um roteiro baseado em uma história real, Mel Gibson nos apresenta essa faceta pouco provável da guerra no filme Até o último homem (Hacksaw Ridge).

A narrativa acompanha a vida de Desmond Doss (Andrew Garfield), um adventista que, embora tenha se voluntariado para participar na Segunda Guerra Mundial, se recusa a encostar em armas. Desmond quer entrar no campo de batalha para ajudar as pessoas, independente do lado que estejam lutando, e sua fé em Deus e a sua relação familiar são seus principais motivadores.

Com atos bem distintos, o filme apresenta, no primeiro momento, um grande foco no treinamento do protagonista e nos desafios que o mesmo encontrou dentro de um exército americano muito cético quanto as convicções de Doss. Com o medo da guerra sempre pairando no treinamento, a preocupação com a própria vida e a necessidade matar para não ser morto é o que motiva os soldados ali apresentados e é o que gera o conflito entre fé e guerra que o filme apresenta. Mas no segundo ato, quando os soldados são levados ao campo de batalha, vemos que a missão de Desmond é realmente necessária naquele cenário, não só pelo seu feito de salvar mais de 50 soldados, como também para dar esperança para os seus companheiros.

A entrega de Desmond para o seu serviço e a maneira como este comove seus companheiros é reforçada pela direção de Mel Gibson que, após seu trabalho em Paixão de Cristo, entrega ao telespectador mais um protagonista que encontra a redenção através do seu paradigma e de suas ações. O sacrifício pessoal do soldado é recompensado pela felicidade que o mesmo sente ao salvar seus companheiros e, paralelamente, em confirmar a sua relação com Deus e com o bem que esperava levar para aquele cenário caótico.

A imagem santificada de Desmond é construída com muitas metáforas e paralelos com a figura de Cristo. A constante luz em cima do protagonista, o sangue dos companheiros sempre em seu corpo e sua constante elevação aos céus confirmam a preocupação do diretor com a questão religiosa que está atrelada ao herói. Mas não é apenas a preocupação de Gibson que convence o público, a atuação de Andrew Garfield tem tanto crédito quanto e a sua dedicação com o longa é palpável. Atuação digna da sua indicação para Melhor Ator no Oscar 2017.

A santificação de Desmond, no entanto, não é a única preocupação da direção. Mel Gibson não mede esforços para apresentar a carnificina das trincheiras da segunda guerra mundial. O diretor cria uma zona de guerra repleta de explosões, tensão e mutilação. Desde o primeiro disparo até a última participação do protagonista em Hacksaw, vemos a violência explícita. No entanto, o que chama atenção é a maneira como a faceta cruel da guerra é apresentada, não temos o gore sendo usado de maneira gratuita, tudo é bem colocado pela direção e fotografia do filme.

 Até o último homem mostra como a guerra pode ser retratada da maneira tradicional, mas acompanhando a ótica de personagens pouco convencionais. Com uma direção inspirada e um Andrew Garfield devoto ao seu papel, o filme entrega ao espectador uma história emocionante e que comove pela maneira como é apresentada.

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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