Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam

O mundo mágico construído por J.K. Rowling marcou a infância e adolescência de muitos e, após o ultimo filme da saga Harry Potter, uma legião de fãs ficou órfã. No entanto, em 2016, a autora presenteou seus fãs com uma nova saga daquele mundo e eis que Animais Fantásticos e Onde Habitam chegou aos cinemas com a grande responsabilidade revitalizar uma das maiores franquias da cultura pop dos últimos tempos.

Animais Fantásticos e Onde Habitam chega trazendo novos ares para o mundo mágico da escritora britânica. Apesar dos trailers venderem um filme mais despretensioso e com um foco apenas nos animais, já na primeira cena do longa vemos o verdadeiro enfoque dessa nova franquia. O mundo da década de 1920 está enfrentando a ameaça de Gellert Grindelwald (Johnny Depp), um poderoso bruxo das trevas que não ameaça apenas os seus iguais, mas também cria uma tensão entre os bruxos e os trouxas. E, no entanto, acompanhamos o despretensioso Newt  Scamander (Eddie Redmayne), chegando em Nova York e se metendo em problemas por conta de um incidente envolvendo a sua maleta cheia de criaturas mágicas.

Newt, diferente de Harry Potter, não tem um envolvimento premeditado com o grande conflito da vez, ele acaba entrando no embate acidentalmente.  E, no entanto, sua interação com os demais personagens é tão fluida que este logo se situa. Cada personagem do núcleo principal tem sua função bem definida e representa algo nessa nova saga. Newt e Jacob (Dan Fogler) representam os estranhos desbravando um novo mundo. Para Newt, a dinâmica da sociedade bruxa americana é nova, ainda que levemente familiar, enquanto para Jacob, o trouxa ou no-maj, na nomenclatura americana, tudo aquilo é extraordinário e inimaginável. Dois personagens que representam os velhos e novos fãs da franquia, maravilhados com o mundo bruxo, mas em um caso já familiarizados e em outro não.  Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) são nossas guias nesse novo cenário. A MACUSA, congresso mágico dos Estados Unidos, a relação dos bruxos com os no-maj e os dramas enfrentados pelos bruxos locais são apresentados pelas duas irmãs. E Queenie, personagem com capacidade de ler mentes, tem ainda a função de dar informações que os personagens não dariam por vontade própria e deixar pistas para o futuro da saga.Personagens bem distintos entre si, mas que J.K. Rowling, em sua estreia como roteirista, consegue junta-los e encaixá-los na grande trama.

A questão lúdica do universo bruxo é mantida e muito bem ilustrada com os animais de Newt e, ao mesmo tempo, essa questão é inserida em um contexto de guerra e tensão entre dois mundos (bruxo e trouxa). Os animais fantásticos funcionam como um fio condutor que leva os heróis de encontro aos perigos que a trama propõe. J.K dialoga com o seu fã saudosista e entende que agora este já não é mais a criança que acompanhou a sua primeira saga, o mundo bruxo, assim como seus admiradores, amadureceu, mas não perdeu o encanto pela magia. O filme ainda é voltado para um publico infanto-juvenil, mas a sutileza do roteiro em apresentar questões mais adultas dá um toque único a obra. Não temos aqui uma remodelagem da heptologia de Harry Potter, o que temos é J.K se aproveitando dos seus trope e trazendo novas discussões para o seu universo já estabelecido.

Falando em tropes, outro ponto que Rowling aproveita de sua saga anterior em Animais Fantásticos, é a constante dualidade de luz e sombra, bem e mal. Enquanto o quarteto de protagonistas representam o bem, a luz, Mary Lou (Samantha Morton), Credence (Erza Miller) e Percival Graves (Colin Farrell) representam o lado sombrio da trama. Sobre o lado sombrio, vale ainda reforçar que a tríade Graves, Credence e Nova Salém dialogam constantemente com a questão do preconceito, minorias e a repressão.

O único personagem que, apesar do pouco tempo de tela, destoa  do restante é Gridelwald que, além de já apresentar trejeitos típicos do ator, tem uma representação visual  não passa a idéia de perigo que deveria.  Ainda é cedo para julgar o personagem, mas a primeira impressão foi a de mais um Jack Sparrow vivido pelo autor.

Sob a  direção de David Yates, já familiarizado com o universo mágico de J.K Rowling, o filme consegue transpor visualmente tudo que a autora propõe. Os animais, as magias, os cenários (principalmente dentro da mala de Newt) são uma experiência visual incrível que nos colocam imersos numa década de 1920 com todo o esplendor dos bruxos. O único ponto que a direção deixa a desejar é no alívio cômico que, em alguns momentos acaba quebrando o ritmo do filme.

Com um protagonista mais retraído e descobrindo junto do telespectador essa nova grande  trama, Animais Fantásticos e Onde Habitam iniciou muito bem essa jornada de cinco filmes. Se aproveitando um mundo aberto (não estamos mais presos somente a Hogwarts), J.K Rowling conseguiu uma maneira de expandir sua franquia e encaixá-la num contexto histórico de pós-guerra rumando a segunda guerra mundial.

Animais Fantásticos e Onde Habitam Crítica Nota

Facebook Comments

Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *