Roda Gigante

Roda Gigante Filme Crítica
Em Roda Gigante, Woody Allen acerta na metalinguagem e cria um triângulo amoroso que trabalha o tragicômico com uma Kate Winslet inspirada.

Não é de hoje que Woody Allen trabalha os dramas cotidianos aprofundando seus personagens. Em Roda Gigante, seu novo filme, o diretor utiliza de um triângulo amoroso para apresentar a frustração de pessoas com vidas ordinárias e a hipocrisia das mesmas.

Já em sua cena de abertura narrada por Mickey (Justin Timberlake), o diretor deixa claro para seu público que teremos uma narrativa cheia de desilusões e personagens que, apesar de estarem um local vendido como um mini paraíso de verão, vivem vidas infelizes e monótonas. No entanto, pelos encontros e relacionamentos apresentados, todos romantizam uma vida melhor e anseiam por algo a mais. O filme retrata um fervor de verão, algo bom, mas idealizado e passageiro.

O drama corriqueiro e a metalinguagem

O longa acompanha os dramas da família de Ginny (Kate Winslet) e expõe  como o passado de todos os membros daquele grupo atormentam as suas vidas e geram arrependimentos. Desde casamentos mal sucedidos, a carreiras que não decolaram, a família da protagonista vive cercada de uma tensão silenciada em comum acordo. Tensão essa que estoura com a chegada de Carolina (Juno Temple), filha do marido de Ginny,  Humpty (James Belushi), que, além de trazer seus próprios problemas, se apaixona pelo amante da sua madrasta. o salva-vidas Mickey.

Mickey, no papel do romântico e amante do teatro, conduz o espectador em uma narrativa busca sempre suavizar os problemas ou até mesmo subverte-los. A vida das suas amantes é frequentemente comparada com os clássicos gregos e os conflitos são tratados com um falso esplendor pelo salva-vidas. Essa perspectiva do personagem vai além do seu ponto de vista e reverbera na construção narrativa do filme que, propositalmente, emula uma peça de teatro.

O posicionamento de câmera, as mudanças de ambiente marcados por sons (em alguns casos emulando a plateia), músicas de fundo e cenários restritos são elementos que fazem de Roda Gigante  uma peça de teatro filmada. E essa escolha é totalmente intencional e deixada de maneira explicita pelo diretor. A quebra da quarta parede do personagem de Justin Timberlake, e a maneira como isso é “esquecido” quando o personagem entra na história, também reforça essa escolha. Além dos longos monólogos dos personagens e a disposição dos mesmos em cena que frequentemente andam pelo ambiente saindo e retornando ao foco da câmera como se fosse um palco de fato.

O papel de Kate Winslet e o real questionamento do filme

Todos os personagens do filme funcionam e o diretor acerta, mais uma vez, em escolher um grupo limitado de pessoas. Allen consegue aprofundar cada um dos personagens e mesmo o filho de Ginny, esquecido propositalmente durante o filme, tem uma função narrativa para a trama. No entanto, é visível que Justin Timberlake não consegue acompanhar o ritmo dos demais e sua atuação acaba pecando em alguns momentos. Isso pode ser visto principalmente em momentos que há interação entre Mickey e os demais personagens e o ator não aparenta ter a entrega dos demais além de termos uma mudança clara na câmera que durante o filme está sempre livre e acompanhando os atores em movimento,  mas com Mickey parece sempre enrijecida.

Vale ainda ressaltar, no entanto, que a escolha proposital de Allen em simular uma peça provavelmente não funcionaria se o diretor não estivesse contando com Kate Winslet. A atriz brilha, literalmente, durante o filme e se destaca dentre os demais personagens. Com monólogos longos, expressões bem marcadas e anseios convincentes, a personagem de Winslet entrega ao público o verdadeiro debate do filme como aquela que pratica o ato e sofre.

Ginny é uma personagem problemática que vê no seu relacionamento com Mickey uma fuga da sua vida infeliz que é fruto de um arrependimento das suas ações no passado e a sua relação com Humpty. O papel da atriz decadente e da mulher comum que o marido conta como a eterna dona de casa explicitam a hipocrisia de Humpty em se preocupar com o futuro da filha e deixar a esposa, que é um “espelho” mais velho de Carolina, sem apoio. Por outro lado, Ginny também é hipócrita por deixar de lado as ações do seu filho, com tendências piromaníacas, para se fixar na nostalgia da carreira que poderia ter tido e por priorizar seu amor, correspondido ou não, por Mickey mesmo em situações mais extremas.

A personagem de Kate Winslet reflete em todos os personagens uma vez que, por mais que tenham histórias próprias, todos estão reféns de seus sonhos frustrados e das suas hipocrisias diárias. E é Ginny que, direta ou indiretamente, acaba fazendo com que as ações dos demais sejam executadas. Mas também é através dela que percebemos que essa é uma história de verão e, após o pico de excitação e de felicidade, tudo voltará ao normal e nada de fato terá mudado.

A luz e a fotografia

Complementando o papel de Winslet, outro ponto que faz com que o filme ganhe destaque é a sua fotografia e a boa utilização da luz. Woody Allen já é conhecido pelo seu trabalho com luz e sombra e a utilização de cores vibrantes em seus filmes. No entanto, em Roda Gigante o diretor utiliza desse trunfo em prol da metalinguagem.

Apesar do foco no amarelo e azul que casam com o clima da praia proposto pela ambientação em Coney Island, o filme utiliza bastante do neon do parque incidindo no rosto dos personagens para intensificar os momentos de tensão, prazer e angustia dos mesmos. A adição do neon, algo radiante e chamativo, em contraste com os dramas que estão sendo expostos dá profundidade às cenas.  Além disso, o filme trabalha com o jogo de luz e sombra para esconder e guardar alguns personagens que, mesmo estando no plano, não fazem parte de terminadas cenas. Uma maneira do filme de trazer mais uma característica do teatro e se aproveitar das locações pequenas.

No entanto, as locações também acabam sendo um problema do filme, uma vez que, por se tratar de um período histórico antigo, não é possível recriar o local fora de estúdio.  A narrativa pede o momento histórico escolhido pela direção, mas as filmagens sofrem por essa escolha. Em diversos momentos fica claro o fundo falso do filme e em cenas com espaços “abertos” deixam pequenos detalhes como pessoas andando “infinitamente” ao fundo muito evidentes. Um ponto que não compromete a história e seu desenvolvimento, mas a falta de realismo gerada acaba desconectando o espectador em alguns momentos.

Conclusão

Roda Gigante é um filme com muitos acertos e um trabalho incrível da direção. Com uma Kate Winslet inspirada e a escolha correta de trazer o teatro para o cinema, Woody Allen entrega ao público mais um filme que vale o destaque.

Os dramas da vida mundana também tem seu valor e a maneira como os personagens romantizam algo melhor é algo que pode vir a cativar o público. No entanto, o grande mérito do filme está extrair uma comicidade sarcástica das situações e nos mostrar que, apesar de romancear ser bom, a vida sempre será uma sequência de altos e baixos que podem voltar para o mesmo ponto sempre.

 

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About Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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