Labirinto

Labirinto Thiago Souto Crítica

Sabendo dosar drama e aventura, Labirinto é um prato cheio para os amantes da nona arte.

A infância talvez seja o momento das nossas vidas que mais nos permitimos sonhar. Seja com aventuras fantásticas, para fugir de problemas da realidade ou só porque queremos. É com base nos sonhos de uma criança que Thiago Souto, com uma publicação da editora Mino, nos entrega em Labirinto uma emocionante história sobre amizade, companheirismo e as dificuldades de encararmos nossos problemas e a memória.

A amizade como ponto central

Focando na relação de amizade entre Nico e Góreck, o quadrinho apresenta ao leitor o mundo onde os dois vivem aventuras lutando contra monstros, descobrindo novos locais e interagindo com seres mágicos. No entanto, após o desaparecimento de Nico e vendo seu mundo se deteriorando, Góreck decide sair em busca do seu amigo em uma jornada solitária.

Com capítulos não lineares, o álbum intercala o momento atual da busca de Góreck e o seu passado com Nico. Na medida que o protagonista vai desbravando seu mundo e relembrando o passado, a narrativa vai adicionando novos fatos sobre o que aconteceu durante as aventuras da dupla e como isso influencia no seu estado atual.

A presença de Nico nos flashbacks é fundamental para os desdobramentos da história e para o momento do presente da trama. A maneira como a narrativa se preocupa em trabalhar a subtrama das aventuras dos protagonistas é um acerto da obra, na medida em que cativa o leitor e um adiciona um envolvimento emocional necessário para aquela relação.  Nico é um menino com espírito forte, desbravador e corajoso, e sua influência sobre seu amigo é muito forte e nos faz entender o sofrimento de Goréck pela perda e a sua determinação durante a sua busca.

A confusão mental de Góreck e sua memória fragmentada fazem com que o personagem seja um guia, mas também uma pessoa que está compartilhando as descobertas com o leitor. Mas a carga dramática das reviravoltas dependem da dupla de protagonistas. Na medida em que, ao cruzar realidade e sonho,  as metáforas do mundo dos sonhos construídas por Nico ficam claras, Góreck chega ao seu momento mais maduro e entende a importância daquela amizade e o seu papel na trama.

Dessa maneira, a narrativa consegue trabalhar de temas como bullying, exclusão social, as dificuldades de uma mãe solteira, o abandono dentre outros. Temas pesados e geram angustia e raiva na criança que busca no mundo da fantasia um escapismo para toda aquela situação. Embora acompanhemos a narrativa pelo ponto de vista de um personagem do mundo dos sonhos, fica claro que toda aquela jornada é necessária para o mundo real.

A ambientação e a importância das cores

Além da comoção gerada pelo enredo, Labirinto também impressiona com a sua arte. Através dos seus desenhos, Souto entrega ao leitor um quadrinho muito orgânico e que passa uma fluidez no movimento dos personagens e na percepção do cenário. Quando os personagens caminham, podemos sentir a sua movimentação, quando há uma luta, podemos sentir os golpes e a agilidade dos personagens, pontos como esses ajudam no ritmo da história na medida em que, para momentos de ação temos uma quadrinização mais ágil e nos momentos dramáticos e reflexivos vemos uma contemplação dos personagens e um ritmo mais lento.

O autor também utiliza muito bem da ambientação para criar cenários ricos em detalhes. A maneira como mesmos cenários alternam com e sem a presença de Nico intensificam o drama vivido por Góreck na medida em que é estabelecida uma nostalgia no relato do personagem. Enquanto Nico está em cena vemos um mundo vívido, com muitas natureza, criaturas e cores fortes, mas quando o personagem se ausenta tudo fica morto, não aparecem outras criaturas e as cores ficam mortas com um tom acinzentado.

O jogo de cores nos paralelos entre passado e presente  da trama enriquecem o peso dramático e ajudam a compor a bela arte do autor. Além disso, Souto também utiliza das cores em conjunto com a construção dos quadros para compor a confusão mental de Góreck e criar o contraponto entre o mundo dos sonhos e o mundo real. O uso das bolas de vidro para representar as memórias de Nico e as rachaduras nas mesmas se refletindo na visão de Góreck aumentam o impacto da realidade do menino através do recurso gráfico.

Conclusão

Em Labirinto, Thiago Souto acerta na representação do lúdico e cria uma bonita história de amizade. A maneira com o autor introduz os dramas dos personagens e discute problemas reais enriquece a narrativa e entrega ao leitor uma ótima história.

Com uma arte fluida e rica em detalhes e um ótimo trabalho de cores, o autor consegue trazer novas camadas para seu enredo e cria um álbum que impressiona pelo trabalho gráfico.

O saldo final é muito positivo. Labirinto é uma obra que acerta em tudo que propõe e entrega uma experiência completa ao leitor.

 

 

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About Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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