Greenleaf (1ª Temporada)

Greenleaf promete uma trama empolgante com dramas familiares, crimes e religião, mas infelizmente só entrega personagens confusos e um enredo inconsistente

Vocês já tiveram a experiência de comprar livros em alguma liquidação, seja em sebos ou livrarias antigas? A placa avisa: títulos novos por 2, 5, 10 reais. Uma pilha enorme de livros chama a nossa atenção. Eles estão à nossa espera, prontos para serem comprados. Já separamos o dinheiro na carteira. O coração consumista dispara. Mas quando olhamos a lista do que está à venda… apenas decepções. O que era sonho, vira frustração. Foi assim que me senti ao terminar a primeira temporada de Greenleaf. Uma história bem desenhada, com uma temática tão rica, conseguiu entregar muito menos que podia graças a um enredo pobre e confuso.

“Greenleaf” é um seriado criado por Craig Wright e dirigido por Clement Virgo. Mas quem chama mais atenção nos bastidores é Oprah Winfrey, produtora executiva da série, além de convidada especial em alguns episódios. A história gira em torno da rica e religiosa família Greenleaf, dirigentes do centro religioso O Calvário. A megaigreja protestante compreende desde o salão onde acontecem os cultos , até instalações destinadas ao ensino de jovens, além de patrocinar diversos eventos de caridade. A riqueza ostentada pelo Calvário nunca é bem explicada, mas esse não é nem o principal esqueleto no armário da família. O irmão da fundador, o “tio Mac“, no passado foi acusado de molestar uma de suas sobrinhas, Faith. Quando a jovem comete suicídio, anos depois, é a hora de sua irmã Grace voltar para a residência dos Greenleaf e “semear discórdia em campos de paz”.

Dramas familiares? Nem tanto

A família Greenleaf é uma das mais problemáticas que já vi em uma série. Já no piloto você percebe as tensões na aparente paz divina do local. O pastor James e sua esposa Mae vivem assombrados pelo fantasma de sua filha Faith e sobre o que deviam ter feito por ela. O único filho do casal Jacob, apenas finge se interessar pela religião e trai quase abertamente sua esposa. A filha mais nova, Charity, é a esquecida da família e é casada com um homem que apresenta certos interesses homoafetivos. Essa configuração familiar parece um prato cheio para o espectador, certo? Nem tanto.

O maior problema de Greenleaf é que a série não desenvolve esses dilemas.  Cada personagem parece viver isolado em seu núcleo. Jacob e sua esposa tem uma história que parece muito distante de Grace e sua investigação criminal. No piloto sugere-se que haverá encontros essas tramas, mas eles não ocorrem. Para vocês terem uma ideia: Charity e sua irmã conversam uma vez no episódio 1 e depois só dialogam novamente (e de maneira breve) no episódio 10! E elas moram na mesma casa! O pastor e sua esposa ainda são mais ativos no enredo, mas mesmo eles, por vezes, parecem deslocados. Nem mesmo temos menções frequentes ao passado da família, histórias antigas, por exemplo. O enredo não consegue nem deixar claro a diferente de idade entre os irmãos, por exemplo.

Confesso que só entendi a referência do nomes das irmãs muito tempo depois (Faith, Grace e Charity)

Personagens esquizofrênicos

Eu fico muito incomodado quando não reconheço um personagem de um episódio para o outro. Imaginem, por exemplo, que estou escrevendo a minha série. No episódio 7, Joãozinho estão com tanta raiva da traição de Mariazinha que pega uma faca para matar Marquinhos, seu amante. No episódio 8, os três estão se desculpando e prometendo esquecer tudo aquilo. No episódio 9, Joãozinho está discutindo com Mariazinha sobre quais ações deve comprar na bolsa. Fez sentido essa construção? Acredito que não, né? Pois é, Greenleaf faz exatamente isso em alguns momentos.

Jacob, nesse quesito, é o pior de todos os personagens. Ele consegue flutuar entre filho amargurado / esposo adúltero confesso / marido arrependido / pai de família em depressão em questão de poucos episódios – às vezes até de minutos! Eu realmente tenho dificuldade de entender que personalidade os roteiristas queriam desenvolver para ele ou mesmo para as outras personagens.

Jacob Greenleaf, o homem com múltiplas personalidades

Apenas Jesus salva

O único tópico bem desenvolvido, a meu ver, são os questionamentos éticos sobre a religião. Ainda que a história se passe em um ambiente protestante e, portanto, dialogue com essa doutrina, os debates são mais ou menos universais. Em diversos momentos o roteiro explora os desafios do homem em sua jornada pelos mandamentos divinos. Algumas pessoas deliberadamente abusam da Bíblia e deturpam seu sentido em vantagem própria. Outros personagens tentam seguir os passos de Jesus à risca, lutando contra as suas falhas. E tem ainda aqueles que acreditam estar seguindo a vontade de Deus, mas que claramente estão escolhendo meios duvidosos para isso.

Nesse tópico vale ressaltar o grande personagem da série: o pastor James. Mais do que trejeitos interessantes e dezenas de citações da Bíblia, o personagem oferece um ponto de vista único. O espectador nunca sabe se ele realmente acredita que está fazendo o certo, ou se apenas está sendo dissimulado. Cada sermão ministrado pelo pastor carrega uma dúvida: ele fala isso de coração ou porque é conveniente? Ele é um homem imperfeito, misturando acertos com erros, ou um pecador com frequentes crises de consciência? A trama nunca entrega as respostas para essas perguntas, o que motiva o espectador a continuar assistindo e investigando a personagem.

Até mesmo o pastor James tem momentos confusos, mas ao menos é o personagem mais interessante

Conclusão

“Greenleaf” tinha a faca e o queijo na mão para criar uma grande história. Mas preferiu entregar uma trama inconsistente, com personagens confusos e dramas familiares muito mal explorados. Até mesmo o arco principal, a luta por justiça por um crime sexual consegue ser tão bem desenvolvida quanto poderia. A vontade que tive em diversos episódios foi de pegar o roteirista pelo braço e falar “larga isso, deixa que eu escrevo”. Já dropei da segunda temporada.

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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