Forbidden Games: The Justin Fashanu Story

Uma história real sobre abandono, homofobia, racismo – e futebol

Em um site de informação e opinião sobre produtos de entretenimento, o futebol não é um assunto tão comum. Mas quando um documentário consegue reunir em uma história temas como fama, homofobia, racismo, celebrificação a partir da carreira de um futebolista, o esporte entra na pauta da Drop Hour. Esse é o caso de “Forbidden Games: The Justin Fashanu Story“.

O documentário dirigido por Jon Carey e Adam Darke conta a história do futebolista inglês Justin Fashanu. Ele é o primeiro e único jogador até hoje a assumir sua homossexualidade enquanto ainda atuava profissionalmente. A obra explora, principalmente, três momentos da vida de Justin: sua infância difícil, devido a sua família fragmentada, a ascensão meteórica do jogador e o declínio de sua vida profissional, pública e pessoal. A carreira do jogador e sua vida pessoal são exploradas por alguns vieses temáticos, dentre eles o abandono, o racismo e a homofobia. A obra está disponível no catálogo da Netflix.

Mais do que futebol

Apesar de ser um documentário sobre um jogador de futebol, o esporte não é o principal personagem da história. Poucos são lances de Justin exibidos. Análises sobre suas passagens pelos clubes são raras. Estatísticas de gols ou assistências são inexistentes. O futebol faz parte dessa história como um contexto cultural e social que move engrenagens mais complicada do que gols.

O documentário põe para debate, em alguns momentos, porque Justin foi o primeiro jogador e único a se declarar gay enquanto ainda atuava. Quais são os discursos e estruturas desse meio que não encoraja outros atletas a fazerem o mesmo? A fala de alguns personagens – inclusive o próprio irmão de Justin – já indica algumas respostas. A antipatia gerada em técnicos e outros atletas, o preconceito de torcedores dos clubes, esses são atributos do mundo do futebol – ainda muito pautado numa suposta “macheza” ou virilidade – que dificultaram a carreira de Fanashu e que serão obstáculos para os eventuais próximos homossexuais assumidos.

Justin Fashanu, o autor do gol da temporada inglesa em 1980

Justin Fashanu, o humano

O documentário explora a vida pessoal de Justin por diversos ângulos. Seu relacionamento familiar, sua agitada vida social, os relacionamentos secretos são os principais. Nessa abordagem fica evidente o papel que o abandono, o racismo e a homofobia teve em seu desenvolvimento. Justin e John (seu irmão) foram deixados em um orfanato por sua mãe – seu pai foi embora para a Nigéria quando eles eram pequenos. Adotados por uma família branca, os irmãos Fashanu sofreram preconceito racial em sua pequena cidade, especialmente no ensino fundamental, quando eram os únicos negros na escola. Mesmo no futebol profissional, ganhando muito dinheiro e fazendo muitos gols, a cor de sua pele continuou sendo um motivo para discriminação. A homossexualidade do atleta foi explorada exaustivamente pela imprensa, torcedores e outros grupos, que acompanhavam e julgavam sua vida amorosa.

Mas o que mais me chamou a atenção positivamente no documentário foi a maneira que a narrativa mostra que mesmo com tantos obstáculos, Justin ainda prejudicou mais ainda a sua vida fechando as poucas portas que lhes eram abertas. Fashanu adorava ser uma estrela, então procurava mais a imprensa do que muitas vezes os treinos. O jogador supostamente se envolveu com muitos parceiros – alguns até menores de idade. Escolhas questionáveis do atleta – como alguns sumiços sem explicação – prejudicaram o andamento de sua promissora carreira.

Justin e seu irmão John Fashanu

Uma história bem contada

Todos os momentos da vida de Justin são explorados com falas de muitos personagens que conviveram com o jogador, algumas dramatizações e recortes de programas nos quais Justin teve participação. As dramatizações pouco acrescentam à obra: normalmente elas apenas servem para ocupar tempo de tela ocioso. Os programas de televisão nos quais Justin apareceu ajudam a ilustras a complicada relação do jogador com a imprensa. Nos momentos de glória, Fashanu procurava os repórteres para lucrar e vender sua imagem. Na queda, ele também procurava os jornais para se reerguer – o que na maioria das vezes não dá certo.

O recurso que mais gostei, no entanto, foram as inserções de discursos, trechos de programa de tv e outros materiais da época retratada. Quando o documentário insere um pequeno trecho de um stand-up de Eddie Murphy, por exemplo, fazendo uma piada grosseira sobre AIDS e homossexualidade, muitos debates são levantados instantaneamente. Como era vista a doença na época? Como a comunidade gay era associada com essa epidemia de AIDS? O que significa um comediante negro fazer piada com uma situação que envolvia uma outra minoria política? Mais do que apenas ilustras, essas inserções ajudam a traçar o cenário social, político e cultural no qual a carreira do jogador se inseria.

Um pequeno trecho desse stand-up de Eddie Murphy é exibido no documentário

Conclusão

Mesmo sendo doutorando em Comunicação e estudioso de Mídia e Esporte, eu não conhecia a história de Justin Fashanu. Felizmente, hoje eu sei um pouco mais sobre quem foi esse importante jogador para o mundo do futebol. Se eu tivesse que mudar algo no documentário, apenas colocaria mais vezes o rosto dos personagens que contam suas histórias. Às vezes é difícil reconhecer apenas pela voz quem está falando. Fazendo essa única ressalva, fica a indicação de documentário para quem gosta de futebol, mas principalmente para quem quer debates sobre racismo e homofobia.

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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