E não sobrou nenhum (Mini-Série)

A mini-série “E não sobrou nenhum” adapta de maneira magistral um livro brilhante

Eu leio Agatha Christie desde os meus 11 anos de idade. Eu perdi a conta de quantos livros da Rainha do Crime eu li, mas sei que foram mais que 50. Embora a grande maioria tenha uma trama memorável e intrigante, nenhum deles foi melhor que “E não sobrou nenhum”. A premissa do livro por si só é interessante, mas é a forma pela qual a autora conduz a narrativa que encanta o leitor. Por isso, quando eu li que havia uma mini-série baseada na obra, eu tive medo. Medo que a direção e o roteiro não conseguissem conduzir a trama como ela merecia. Felizmente meus receios eram desnecessários. A série é tão boa ou ainda melhor que o livro original.

O livro “E não sobrou nenhum” foi lançado em 1939, ainda com o nome de “O Caso dos Dez Negrinhos”. O novo título foi dado na transição para os Estados Unidos, devido a implicações racistas. A série de TV foi produzida pela BBC no fim de 2015, mas apenas agora tive contato com ela – graças ao canal GNT e ao GNT Play. A sinopse é deliciosa: dez pessoas são convidadas a passar alguns dias na Ilha do Soldado. Todas foram chamadas pelo anfitrião, o Mr. Owen, sob pretextos diferentes. Em comum, apenas sua participação em uma brincadeira sinistra: uma a uma elas vão morrendo de maneira similar a um antigo conto infantil. Quem está por trás dessa fatídica reunião?

O ponto certo entre suspense e terror

Quando li pela primeira vez o livro, em certos momentos fiquei na dúvida se era um romance policial clássico ou uma obra de terror. Conforme as mortes vão ocorrendo – e a tensão aumentando – eu tinha dúvidas do que estava operando os desastres. Era uma mão humana, maquiavélica e mortal por trás dos assassinatos, ou uma força sobrenatural brincando com os pequenos soldadinhos? No final do livro encontramos a respostas, mas enquanto ela ainda não aparece, as dúvidas são deliciosas.

Felizmente, a série conseguiu não apenas resgatar esse atributo da história, mas como ainda o intensificou. Os medos e arrependimentos das personagens são resgatados constantemente com alucinações e interessantes efeitos de câmera. Cyril, a criança perdida por Vera Claythorne, frequentemente aparece para ela ao melhor estilo “espírito de criança que meio assombrar você”. Mas a obra não é de terror: não há sustos bobos, gritos inesperados ou criaturas demoníacas. Há apenas um roteiro brilhantemente escrito que não deixa o espectador respirar aliviado em momento algum.

Um a um os soldadinhos vão sendo abatidos…

O elenco que engrandece a obra

Quem conhece o livro sabe que os personagens escritos pela autora são excelentes. Juntos compõem um grupo heterogêneo em origens, profissões e níveis sociais, mas todos guardam passados sombrios e tem sangue nas mãos. E felizmente a mini-série consegue entregar ao espectador um elenco que faz jus ao conjunto original dos personagens. Todos conseguem representar bem os arquétipos das personagens e através de sua atuação entregam a quem assiste um mix de sensações. Por vezes odiamos Philip Lombard; mas em outras cenas, não conseguimos deixar de torcer para ele. Talvez todos sejam assassinos, mas também são humanos, então deve haver algo de bom neles.

Se tivesse que destacar apenas três atores nessa obra, eu ficaria com Maeve Dermody, Aidan Turner e Charles Dance. Aidan Turner entrega Philip Lombard muito próximo ao que me lembrava do personagem: um homem de ação, arrogante, anti-ético, mas que no fundo tem suas fraquezas sentimentais. Charles Dance dispensa apresentações: o grande intérprete de Tywin Lannister dá vida ao juiz Wargrave, um homem com um gosto um tanto peculiar por execuções. Mas quem dá o maior show é Maeve Dermody. A série concentra maior parte do seu tempo em sua personagem, Vera Claythorne, e a atriz se aproveita muito bem disso. O espectador acompanha de perto sua sanidade definhando, sua postura de boa moça se esvaindo e é maravilhoso ver a atriz entregando esse processo com tanta competência. A personagem continuará me assombrando por dias, meses, anos…

A surpreendente Vera Claythorne

Adaptações necessárias

“E não sobrou nenhum” é um livro pequeno, com pouco mais de 200 páginas. A trama não se estende durante muitos dias, e com ao menos dez personagens em cena, a série poderia acabar sufocando alguns momentos ou atuações. Felizmente, a obra de apenas três episódios e menos de 180 minutos consegue ministrar esses elementos de maneira satisfatória, não apenas sendo fiel a atributos chave do livro, mas efetuando algumas adaptações necessárias.

A maior adaptação – e a mais bem-vinda – diz respeito ao desfecho da trama. Não darei spoilers, obviamente, mas a forma pela qual é contada a solução do mistério, na série, ficou mais impactante do que a escolhida pela autora em seu livro. Outro recurso adicionado constantemente à obra são os flashbacks, contando o passado sombrio dos convidados. Enquanto que no livro ficávamos restritos a ocasionais reflexões dos personagens sobre seus erros, na série conseguimos enxergar os eventos. Mesmo que às vezes essa retrospectiva seja pela perspectiva pela perspectiva distorcida dos homens e mulheres envolvidas. Também cabe destacar alguns excelentes diálogos e interações entre personagens inseridos na trama que “atualizam” a história – ainda que ela continue se passando nos anos 30.

O tipo de flashback que gostamos

Conclusão

“E não sobrou nenhum” é, possivelmente, a melhor adaptação já feita de Agatha Christie para um meio audiovisual. Os elementos que tornaram o livro um gigantesco sucesso estão aqui. Mas algumas adaptações também estão aqui – e todas são muito bem-vindas. Eu sabia a resposta para o mistério, sabia quais seriam os eventos, mas ainda assim me senti tenso com a narrativa. Terminei a série arrepiado e contente pelo brilhante tributo a um livro que marcou a minha adolescência. Se você gosta de suspense, mistério e uma pitada de terror, para de ler esse texto e vá assistir logo.

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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