A Zona Morta

Em “A Zona Morta”, Stephen King apresenta uma bela história sobre nossa capacidade de responder ao chamado do destino.

Não há muitos sorrisos nesse livro. Existe momentos de alívio, certamente. Por vezes o leitor se depara com uma espécie de realização espiritual, um feeling de “deve cumprido”. Mas sorrisos, felicidade em si, é artigo raro em “A Zona Morta“. E isso é bom. Pois esse livro é sobre fé. Essa história é sobre o chamado do destino. Essa narrativa é sobre um homem convocado – por Deus? pelo acaso? Por quem?? – para realizar uma missão nobre, sagrada, o que normalmente não caminha junto com felicidade terrena.

“A Zona Morta” é um livro do aclamado Stephen King. A obra foi publicada no longínquo 1979 e chega ao Brasil em uma nova edição em 2017 pela editora Suma de Letras. O livro foi adaptado para o cinema em 1983 e para a TV em 2002 – uma série que no Brasil tinha o nome de “O Vidente“. A história gira em torno de John Smith, um rapaz com um dom único de ver fatos ocorridos no passado e até mesmo o futuro. Ao tocar em objetos ou pessoas, John pode absorver emoções, histórias, recordar episódios vividos pela pessoa ou mesmo ter premonições sobre o futuro de quem ele tocou.

A sombria capa de “A Zona Morta”.

 

O Dom e o Preço

A grande questão é que esse dom vem com um preço. A narrativa nos faz crer, em muitos momentos, que essa habilidade paranormal é condicionada ao cumprimento de uma missão. Missão divina? Ai é com o leitor: em nenhum momento King afirma que o dom ou os eventos ocorridos provém de Deus ou qualquer outra entidade. Esse poder de John Smith por vezes figura como bênção, mas em outras assemelha-se a uma maldição. Pois em muitos momentos o protagonista tem de sacrificar sua saúde, sua paz, seu futuro e até mesmo o amor de sua vida para cumprir com esse chamado do destino.

Quando disse que não há muitos sorrisos nesse livro é por causa desses sacrifícios feitos por John Smith. As situações nas quais ele tem de usar o seu poder normalmente requerem muito do protagonista. Por vezes o protagonista se questiona se não é melhor esconder-se em sua caverna e escapar do que o destino lhe impõe. Fugir da missão e não pagar o preço por ele: essa oferta se oferece a John Smith em diversos momentos da trama e ela é sempre muito tentadora.

Sofrimento em três atos.

O livro é dividido em três grandes atos, mas pode-se dizer que também que são três grandes sofrimentos. O primeiro ato se passa antes de um acidente que muda a vida de John Smith. O acidente deixa o personagem em coma durante quatro anos e esse tempo pode ser encarado como o processo de preparação para sua missão. Nesse tempo a vida das pessoas ao seu redor muda – principalmente a da sua namorada. Seu corpo é debilitado, sua família definha, mas seu dom finalmente desperta. John se vê obrigado a abandonar de vez sua antiga vida para tentar se encaixar na nova.

O segundo ato marca as provações pelas quais John Smith tem de passar adaptando-se a sua missão. Negação, raiva, luto, dor, todos esses sentimentos estão aqui. John não tem certeza o que tem de fazer, como deve honrar a bênção 0 ou maldição – recebida. O retorno a sua vida mundana parece cada vez mais impossível. O terceiro ato, por sua vez, é a aceitação do protagonista da missão que lhe foi conferida. É nesse momento que o sacrifício do personagem se intensifica e amplifica. Ele aceita o seu destino.

Problemas com o Antagonista

Na sinopse do livro há a menção de um episódio do livro, no qual John Smith encontraria com um político e no aperto de mão entre ambos, ele preveria o fim do mundo. Quando li esse trecho, me peguei pensando que a partir da metade do livro veria um confronto entre protagonista e antagonista. Entretanto, essa construção só acontece a partir do terceiro ato e apresenta problemas. O “vilão” em questão é Greg Stillson, uma ambiciosa figura do Maine que após muitos empreendimentos fracassados resolve embarcar na carreira política. Cheio de carisma, tino comercial e más companhias, Greg vai superando obstáculos aparentemente intransponíveis.

O problema é que Greg Stillson não recebe muito destaque dentro da história. São poucos os capítulos narrados por sua perspectiva. O que descobrimos sobre seu passado se deve principalmente à anotações de John Smith. Ao antagonista é atribuído um peso enorme dentro da narrativa – o Apocalipse, mais ou menos – e esse fardo parece pesado demais para o personagem. Durante muitos momentos comparei Stillson a outro personagem de Stephen King: Big Jim Reenie. Big Jim é o antagonista de Sob a Redoma: ele também é um político inescrupuloso. Mas lá ele tem dezenas de capítulos nos quais seus pensamentos e ações são registrados. Em “A Zona Morta”, pouco nos conectamos a Greg e isso enfraquece o contraste e confronto entre protagonista e antagonista.

Conclusão

Em “A Zona Morta”, Stephen King presenteia seus leitores com uma tocante história sobre os sacrifícios que devemos fazer quando somos chamados pelo destino. A história é recheada de sofrimento, futuros brilhantes abandonados e questionamentos sobre a nossa fé. Temos fé suficiente para enxergar e assumir nossa parte nos planos divinos ou tentamos nos esconder na caverna quando o destino se volta para nós?  Esse é o grande questionamento do livro e também o principal motivo pelo qual a história é tão apaixonante.

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